sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Qualquer semelhança não é mera coincidência

Para aquela que se foi.


A pior morte é aquela em que não se morre totalmente.
Eu era um jovem que ainda acreditava no amor e no que esse supostamente pode trazer de bom às pessoas quando aceitei me casar com uma menina dois anos mais nova que eu. Nos conhecemos num bar quando a noite já se preparava para encontrar o dia, olhares e olhares nos aproximaram, nos beijamos sem nem trocar palavras: peixe sem ar fora do aquário a mover-se no ritmo do desejo que encharcava nossos corpos. O tempo foi passando e juntos aprofundamos o mergulho: sem nos preocuparmos com o sol da razão nos entregamos sem medo às turvas águas da paixão até o dia em que decidimos, a dois, nos casarmos.
Era o início do fim.
Duas xícaras de café expresso sobre a mesa, eu e ela, frente a frente, olhos nos olhos, a paixão empestiando o ar com seu cheiro bolorento de dor (sim dor, mas esta aqui ainda estava escondida sob a máscara do amor), uma pequena caixa preta contendo um par de alianças de ouro compradas a pouco numa loja de jóias com nossos nomes gravados, então eu disse: sei que a vida um dia vai acabar, mas enquanto isso não acontece quero ficar do seu lado: quer casar comigo?, ela sorri, emocionada, e diz sim, eu também quero casar com você!
Sim, os dois queríamos o casamento, os dois nos empolgamos com a idéia e levamos juntos na estrada da empolgação diversos amigos e parentes: presentes, datas, planos, contas, projeções, tudo foi feito, tudo, menos o casamento.
Dois meses e meio depois dessa bela cena em que dois jovens apaixonados sentados numa mesa de café se declaram mutuamente aptos a casar ela disse: acho melhor a gente terminar!
Imagine uma casa, a sua casa, o lugar onde você se sente seguro, protegido dos perigos do mundo, onde você se sente forte, feliz, vivo. Agora imagine uma forte chuva. Junte então a casa e a forte chuva e some os dois: terá o mesmo resultado que tive: meu mundo veio abaixo assim como uma casa destruída por uma tempestade. Assim como a casa que te abriga do resto do mundo e te faz você, te protege, cuida de você, meu mundo caiu, foi por terra junto às palavras pronunciadas por ela com olhos levemente marejados de lágrimas. O que ficou nem eu sei ao certo. Um misto de dor e raiva se apossou de mim que não fui capaz de ordenar meus pensamentos, tudo que fazia era tentar me manter de pé, me manter vivo, ou quase isso.
Chorei, escrevi, liguei, falei, corri atrás, me declarei, me submeti, me arrastei feito lesma pela trilha suja de amor que ela deixou atrás de si ao partir e nada. Ela se mostrou irreversível em sua decisão: não, não e não, eu não quero mais, eu não estou mais a fim, acabou, acabou, acabou, aceite isso, se conforme com isso. Mas eu simplesmente não conseguia aceitar e muito menos me conformar: como se conformar com sua própria morte ou com a morte da pessoa que você ama?, mais ainda: como se conformar com essas mortes estando você e a pessoa vivos?
Foi justamente esse inconformismo que me levou a escrever. Há anos afastado da literatura – frustrado por escrever e nunca conseguir publicar – resolvi pôr no papel tudo que havíamos vivido juntos, do primeiro ao último dia de nossa relação tudo que ainda sobrevivia em minha memória recebeu a maquiagem da ficção, com fortes pinceladas de dramaticidade transformei minha dor em obra literária. E o resultado foi inesperado assim como a atitude dela: virei best seller! Com uma tiragem inicial de dois mil exemplares em parte bancada por mim e sem ter sequer direito sobre o preço de capa a duzentos e trinta mil exemplares vendidos em pouco mais de um ano me tornei um verdadeiro escritor pop dentro do cabisbaixo panorama literário brasileiro. Freqüentei programas televisivos, dei entrevistas para revistas especializadas e outras fúteis, posei ao lado de gente famosa, dei palestras sobre arte e consumo em universidades, fui capa dos cadernos de cultura dos principais jornais do país, disputei pau a pau com autores de renome mundial o primeiro lugar da lista dos mais vendidos durante algumas semanas, fui comparado a Machado de Assis e Paulo Coelho, cotado pra ABL e, é claro, ganhei dinheiro.
Essa foi a melhor parte, pois larguei meu emprego de professor e aquele monte de crianças e adolescentes chatos que vivem perdidos pelo mundo da virtualidade e pude, com prazer e um certo sarcasmo, me dedicar a escrever e falar mal dela em todas as entrevistas que concedi. Era esse o meu maior prazer, o momento de maior regozijo em todas as vezes que era convidado a falar sobre meu livro e o sucesso que ele obteve: sim, eu sofri, mas esse mesmo sofrimento hoje é a fonte mais fértil do meu sucesso. Quase uma frase dessas que estampam esses livros de auto-ajuda, mas eram engraçadas as perguntas que me faziam, então resolvi levar tudo na sacanagem mesmo e me entreguei sem pudores ao mundo das futilidades momentâneas da tão apregoada pós-modernidade. Em menos de dois anos minha vida só fez mudar em um ritmo vertiginoso, me sentia como um personagem de vídeo-clipe: de um jovem professor de escolas públicas e particulares com casamento marcado e cara de apaixonado passei a renegado pela noiva e aprendiz de alcoólatra até me tornar o mais lucrativo investimento literário brasileiro.
Dela pouco soube durante vários meses, depois de tanto insistir em um retorno, de propor mil e uma maneiras de reatarmos nossa relação me entreguei inteiramente ao vício: da cerveja à cocaína passando pela maconha até chegar ao crack mergulhei fundo na fuga da realidade, me sentia como aquele personagem de um filme que não lembro o nome que entra por um vaso sanitário e sai no fundo do mar, da merda em que ela me deixou acabei, por culpa dela também, encontrando o mar de vendas que me tornou famoso.
Com o passar do tempo fui me afastando do mundo da fama, deixei de lado meu lado pop e me pus a escrever o que bem entendesse, desenterrei textos velhos que ninguém queria publicar – e que agora eram aclamados – flertei com o experimentalismo literário, escrevi resenhas sobre jovens autores até me cansar e declarar aposentadoria. Hoje já não escrevo mais e vivo longe de tudo e todos, meus maiores amigos são as ruas esburacadas da cidade interiorana onde moro há cinco anos. Dela soube que casou três vezes (e se separou em todas) e teve cinco filhos, mas quando decidi sumir para o mundo perdi qualquer tipo de contato que me chegava por meio de amigos em comum. Posso dizer até que sou feliz dentro do que tenho a minha disposição para viver, mas nunca escondi de ninguém que ela foi e é a mulher da minha vida, a mulher que mais amei – talvez mesmo a única – a mulher com quem quis construir família, de quem queria filhos e a companhia, mas o que me restou foram apenas saudades, resquícios de lembranças escondidos por sob o tapete sujo e desbotado do tempo. Na memória o que trago dela são os bons momentos que passamos juntos: seu riso grande e estrondoso, sua boca macia, seu sexo molhado a me receber, seu jeito meigo de me pedir uma massagem, suas tpms, seus olhares silenciosos, seu carinhos, que mesmo escassos me deixavam em estado de êxtase, sua voz ao telefone a dizer que me amava antes de encerrarmos as ligações, seu jeito de dormir com a boca levemente aberta, nossas tardes e noites juntos assistindo filmes, as muitas e muitas pizzas que comemos regadas a um bom vinho tinto, todos os lugares em que fizemos sexo, sua cara no momento do gozo, seus cabelos revoltos, sua voz fina a me chamar de longe, nossas brigas, meus ciúmes, os banhos que tomávamos juntos, as viagens, os planos.
Enfim, posso sim afirmar que ela foi e é a mulher da minha vida, e que mesmo com toda essa distância no espaço e no tempo na há uma noite, um dia ou uma tarde em que eu não pense nela, em que não me pego a esperar que ela ligue e diga sou eu, vamos conversar. Mas não, isso nunca aconteceu e hoje, aqui, mais de trinta anos depois do nosso primeiro beijo – para ser mais exato 11.680 dias, que corresponde aos 32 anos que estamos separados e que dá um total de 280.320 horas longe - o que me resta é apenas essa saudade, esse vazio a procura de um preenchimento, esse estado de torpor em que me sinto a cada nova manhã, essa sensação de que minha vida não está completa porque a parte que falta é justamente a mais importante: ela!


Carlos Henrique dos Santos/ setembro-outubro de 2008.

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