quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Conto filme

Acendo um cigarro.
Fico olhando o nada enquanto você me olha. Sou seu nada, penso. Então falo.
A cena é a seguinte: o rapaz, mais ou menos vinte e cinco anos, vem se aproximando da esquina da casa da sua irmã (isso só descobrimos depois), a câmera o acompanha alternando entre subjetiva e um plano aberto que o mostra de frente andando; enquanto essas imagens se alternam na tela ouvimos uma voz que declama um poema (é a voz do próprio rapaz). Encerrado o poema há um corte, o que vemos agora é uma menina, doze, treze anos que vem descendo uma ladeira, silêncio. Outro corte. Voltamos ao jovem. Ele está a poucos metros da esquina. Corta para um plano aéreo que mostra ele e a menina, os dois estão próximos, mas ainda não se vêem devido à esquina que os separa. Ouve-se agora, meio que sem nexo, uma arma sendo engatilhada. A câmera vai descendo e sem corte, num plano belíssimo que não sei como foi feito, fecha na esquina em que os dois e encontram. Ela sorri. Ele também. Iniciam um passo mais acelerado. Então a menina pára. Close. Sua expressão é de espanto. A câmera abre num plano que sai do rosto do rapaz, ele ainda sorri. O plano vai abrindo bem lentamente até que um capuz cobre seu rosto. Corta. A menina está parada. Atônita. O livro que estava em sua mão cai. Close na capa. É um livro meu.
Você esqueceu.
De quê?
De mencionar o livro na mão da menina. Quando falou dela andando você não falou do livro em sua mão. E depois, o que acontece?
Na verdade o filme é meio chato, a típica história de um jovem comunistazinho que é preso e torturado, vai pro exílio, volta e se envolve com a própria sobrinha (a menina que carrega meu livro). Só fui ver porque um amigo disse que meu livro aparecia num filme argentino.
Legal.
É.
Acendo outro cigarro. Ela abaixa os olhos.
E o livro, ele aparece outra vez no filme?
Não. Isso que é mais engraçado. Não sei, não consigo saber o que ele está fazendo lá. No decorrer da história nenhuma menção é feita ao livro. Ele não marca a vida nem da menina nem do rapaz. Saí do cinema me perguntando qual o papel do meu livro no enredo e não achei nenhuma resposta.
Engraçado.
É.
Por que você não volta pra mim?
Trago fundo o cigarro. Agora sou eu quem abaixa os olhos. Ligo a câmera dos meus desejos e dou um close em sua boca, ela sorri, um riso grande e prateado, riso de menina com aparelho, seus olhos se acendem feito um sinal verde que me diz: vai, passa logo, avance todos os seus medos e me beije! Corta. Plano aberto de um quarto pequeno, dois corpos deitados num chão de taco: eu e ela.
Por que, me diz?
Não sei. Bem que queria saber, mas não sei. E o pior de tudo é que não sei o porque de não saber. Toda noite quando me deito fico pensando em você, me pergunto uma e muitas vezes o que me afasta de você, o que não me deixa voltar, refazer o caminho, e não consigo achar resposta, não dá, alguma coisa em mim se perdeu, como uma peça que se solta e atrapalha todo o funcionamento da máquina alguma coisa se soltou em mim, se perdeu pelo trajeto e me deixou assim, deslocado dentro de mim mesmo. É difícil explicar, sei disso, mas não me peça mais que isso, não queira de mim respostas concretas porque tudo que posso te oferecer é minha subjetividade, e essa, por mais que tento não ajuda em nada a te dar uma resposta.
Pra que se responder se você pode se perguntar?
Olha, eu gosto de você, posso até dizer que te amo (por mais que pra mim amar seja algo inexplicável, como aquela roupa velha que lavamos e pomos na corda sem sequer sabermos o porque de lavar e pôr na corda uma peça de roupa velha que nem gostamos mais de usar, e mesmo assim, contrariando todas as nossas expectativas lá estamos nós frente a um tanque cheio de sabão e água numa manhã ensolarada de sábado mergulhando a roupa e salvando-a do afogamento de mais um dia de uso, assim, sem explicação, sem quê nem porque eu gosto de ti) então não dá, não queira isso de mim: uma resposta, porque nem eu sei, e como você mesmo diz não adianta se responder, não tem porque, se há a possibilidade da pergunta, (acendo um cigarro e trago forte, como se quisesse deixar nele, cigarro, todos os meus problemas, transformando-os em fumaça: leve, azul, serena, flutuando pelo espaço/tempo, pelo vazio de significações que preenche o simples ato de acender e tragar fundo um cigarro, assim queria minha vida: simples, leve, azul e serena, mas não, preciso, ou assim querem que eu pense, dar respostas às perguntas que muitas vezes querem tanto, querem tudo, menos uma resposta, menos uma explicação) a própria pergunta em si perde sua razão de ser, a pergunta (sua no caso) já nasce com uma grande necessidade de resposta e o que menos me atrai agora é uma resposta, é dar a você algo que nem sei bem o que é (sua indagação) uma resposta.
Desculpe. Não quero tirar de você nada que você não queria me dar, é que essa situação, assim como está, me faz mal, me machuca, me maltrata, sei, ou acho que sei, que você não quer nem meu mal nem o seu, nem o nosso, mas não agüento mais viver nesse dilema, nessa constante indagação (não apenas minha), mas sua, e nossa também.
Ela pede um cigarro, acende e me olha. Não abaixo os olhos. Ela também não.
Você toca a minha boca, de leve, você me morde os lábios, me arranha o desejo, eu fraquejo (sim, fraquejo ante tamanho desejo), seu carro-língua percorre em disparada minha boca-túnel, você me acaricia a nuca, enrola suas mãos por meus cabelos, você sussurra baixinho que me adora, que me quer, que me gosta, eu te sinto abrir-me feito uma flor, você me desfolha pétala por pétala, lentamente você vai preenchendo meu vazio de você mesmo, você me transforma em palavras, significados e significantes de prazer se cruzam, se intercalam, se misturam, somos um só corpo (você e eu) eu e você, o chão frio sente o calor do meu corpo, você morde o canto da boca, me sorri, me beija, me chama de sua (só sua), assim feito a chuva que molha a terra e tira dela cheiro de vida você me molha, me encharca de vida, de você,e tira fora todos os meus medos, suga minhas angústias feito a terra que bebe gole a gole a chuva que cai cai cai...
Eu te adoro, sabia? Quero te dizer isso, mas não consigo, minha voz se perde, assim como naquela música do Gram eu me sinto como o gatinho que se entrega todo, que dá vida após vida até ficar igual a gatinha e depois se fode, é, ele se fode, ele muda e enquanto dura sua mudança ele se fode, perde a gatinha, fica mal, sozinho no alto de um prédio olhando o nada, o vazio de vida que se abre a sua frente, esperando as respostas que talvez nunca surjam, assim estou agora: no alto de um prédio qualquer te olhando (meu vazio) sem achar sequer uma resposta que me ajude a sair desse dilema, dessa porra de indagação que me faz querer tanto ficar perto de você e ao mesmo tempo longe. Acendo outro cigarro.
Foi o encanto que acabou, não foi?
O cigarro cai da minha mão, abaixo e pego, antes de tragar te olho, depois puxo fundo, bem fundo, até sentir a fumaça tocar aquela parte de mim que não sou capaz de chegar, apenas ela, a fumaça, é quem vai lá, quem entra e sai de mim como o vento que engolimos quando criança tentando comer o nada, pegar para nós aquilo que não existe, que é apenas uma sensação de vazio, de inexplicável. Assim me sinto: vazio, inexplicável para mim mesmo, apenas um vento engolido por você.
Vou embora.
Não.
Não?!Não?! Você pensa o quê, que eu vou ficar aqui o tempo todo te esperando, guardando meus medos e desejos de você só porque você está confuso? Isto não, cansei, sabia?! Já chorei muito outras vezes, não dá mais pra ficar esperando, quem espera um dia cansa e eu já estou mais do que cansada, não vou fazer como a menina do filme que fica esperando anos e anos até o tiozinho comunista voltar do exílio, se você quer ficar se exilando de mim vá, mas não volte mais, não há retorno, todo caminho é sem volta, na vida ou a gente vai ou a gente vai, não dá, não tem como ficar parado esperando as coisas passarem, acontecerem, ou vamos juntos ou cada um vai por si mesmo, e se você quer ficar aí se consumindo nas suas indagações fique, mas não me espere que não chegarei a tempo. Eu nunca chego a tempo, estou sempre atrasada pra mim mesma.
Ela levanta e vai embora. Ouço o som da porta batendo com força, ela não olha pra trás. Sento no chão e começo a chorar, as lágrimas caem com força, sinto todo meu corpo se desmanchando, é como se cada lágrima fosse um pedaço de mim que estivesse indo embora como ela foi batendo com força na porta das minhas dores, choro com força, com muita força, então a campainha toca, toca novamente, levanto e caminho lentamente até o portão contando cada passo que dou (setenta e sete no total), em silêncio abro o portão, ela me abraça, eu não choro mais, apenas olho a lua prateada que brilha no céu, como seu sorriso que se abre e fala que me adora.

Carlos Henrique dos Santos.

p.s. é curioso mas não lembro a data de quando escrevi esse texto e nem tenho anotado. acredito que deva ter pelo menos uns três anos.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Amanda

Para Bianca Manzani

Amanda sabia que merecia ser amada e toda vez que bebia demais era isso o que ela dizia; sua voz fina e macia preenchia o ar (e nossos corações) de tristeza, pois Amanda emitia tais palavras (Eu mereço ser amada) num misto de choro e exaltação, seus olhos se inundavam de lágrimas, lágrimas que não caiam, que não desciam por sua face, e ficavam ali, em seus olhos, feito uma piscina, então depois Amanda sentava num canto qualquer e ficava murmurando algo indecifrável a olhar o céu, em seguida dormia.
Conheci Amanda na faculdade, cursávamos Letras e sonhávamos ser escritoras; eu, poeta, Amanda, romancista; fomos criando cumplicidade em nossas diferenças e anseios, eu acabara de abortar um feto de um puto que me comeu e depois sumiu, voltou para a casa dos pais no Sul e pediu desculpas por telefone, assim como se o que tivesse feito fosse apenas pisar no meu pé, entrei em crise e fiz um ano e meio de análise, foi nesse período analítico que passei no vestibular e conheci Amanda.
Foi Amanda quem falou comigo primeiro, saí de sala no meio de uma discussão morfológica e fui fumar no corredor, Amanda saiu em seguida: bebeu água e me pediu um cigarro, fumamos em silêncio olhando uma para a outra, quando acabamos ela disse que algumas aulas a cansavam muito, o que a dava a impressão de perda de tempo, eu sorri concordando com ela e a chamei para tomar uma cerveja, era verão, e tudo era melhor que uma sala de aula as cinco da tarde. Foi no bar, depois de cinco cervejas, que Amanda falou pela primeira vez (Eu mereço ser amada), ela me contava sobre sua vida, falou de seus pais que morreram quando ela estava aprendendo a falar: mamãe foi minha primeira palavra, depois, dizem meus tios, passei três meses chamando mamãe toda noite, e que de uma hora para outra parei, nunca mais a chamei, mas três dias depois falei minha segunda palavra: papai; então, dizem, passei um mês chamando-o enquanto dormia sem nem ao menos lembrar como ele era, hoje, quando vejo fotos deles, o que faço muito pouco, já que sinto náuseas quando as olho, é como se olhasse estranhos, não reconheço meus próprios pais, e isso é tão chato e triste que em seguida choro e sinto vontade de chamá-los novamente, e sem saber porque não consigo, é como se algo travasse dentro de mim, e a voz não sai. Meus tios, que me criaram até os sete, depois passei dez anos num colégio de freiras, de onde fugi para morar com uma outra interna, contavam que quando aprendi a escrever, aos cinco anos, eu sempre comia o n do meu nome, então ficava Amada: Amada Amada Amada Amada, eu enchia folhas e folhas com meu (quase) nome, talvez venha daí esse meu desejo de ser amada; meus tios nunca me maltrataram, mas, acredito, também nunca me amaram pra valer, eles tinham decidido não ter filhos, e já eram vinte (vinte!) anos de casados quando meus pais (mamãe era irmã mais nova de tia Bi, era assim que a chamávamos) morreram, e ficar comigo não foi muito o que eles queriam, mas o câncer foi rápido com mamãe, e em três meses a levou, nesse entretempo ela implorou a meus tios que ficassem comigo, não sei se já sabia o que papai faria duas horas depois que ela morreu, mas as instruções que deixou já o descartavam de cuidar de mim, o que anuncia, inconscientemente, o tiro que ele daria na boca sentado frente ao último retrato tirado por ela, dizem que eu gritei na hora do tiro, mas não lembro.
E assim fui conhecendo a trágica história de Amanda, história que ela contava como se fosse a de um filme ou livro, procurando se colocar apenas como expectadora (alguém que olha de fora), quando na verdade era ela a grande protagonista de toda a história. Construímos nossa amizade com base no desespero de Amanda, depois do primeiro dia no bar passamos a andar sempre juntas pela faculdade, para achar uma bastava procurar a outra; trabalhos, prova em dupla, estávamos sempre eu e Amanda, e, claro, não podia faltar o bar, era nele que Amanda mais se soltava e contava (ou repetia) fragmentos de sua história: a fuga do colégio de freiras foi uma grande aventura, eu não agüentava mais aquela hipocrisia de rezas e ladainhas que todo dia me azucrinavam, deus não podia existir, não pra mim, órfã de pai e mãe antes dos dois anos, aos sete sozinha, sem ninguém, daí tentaram me dar deus, mas eu não quis, eu recusei deus, por isso fugi; agora, cinco anos depois, mantenho mais forte minha negação divina, e o pouco que tenho (e o muito que não tenho) nada tem a ver com deus. Quando fugi fui de carona pra Bahia, pra casa da irmã da minha amiga Zita, depois de três meses lá dabandei e vim pro Rio, foi difícil, mas me virei sozinha, é claro que foi meio brabo no começo, mas meus tios (mesmo sem me amarem) me arrumaram um dinheiro (que já paguei), daí descolei esse emprego de professora (graças ao colégio de freiras, quem diria, hen!?) e fui conseguindo me virar sozinha, agora falta apenas encontrar um amor, alguém que me ame, pois eu mereço ser amada, e sei disso.
No terceiro período da faculdade Amanda me convidou a morar com ela, sabia que eu não gostava da república onde morava e me mostrou que os gastos seriam praticamente os mesmos, no dia que mudei faltamos à aula e fomos a um bar comemorar, lá contei à Amanda sobre o Pedro (o puto que me comeu), não gostava muito de ficar relembrando, já bastava o ano e meio de análise gasto por conta disso, mas agora o Pedro era apenas uma rasura na história do meu passado, uma letra fora do lugar no meu alfabeto: fui apaixonada por ele, me entreguei toda como nunca havia feito até então, e o que recebi foi um espermatozóide dentro de mim que não viveu mais de dois meses, não deu nem tempo de ver a barriga, troquei o carro que ganharia pelo aborto e ando de ônibus feliz e sem remorsos. Amanda dizia que eu era um tanto perversa por ter abortado, eu evito discutir esse assunto, pra mim já foi e pronto, acabou, tirar o feto foi o mesmo que matar o Pedro e minha história com ele.
Eu mereço ser amada!
Amanda exclamava em prantos e seus olhos se inundavam e me afogavam em meio a tanta tristeza e desespero, eu queria ajudar, mas não sabia como, então ficava olhando, me partia o coração ver Amanda andar se escorando pelas paredes, trôpega, buscando a janela, e sentava e murmurava e dormia. Toda vez que bebíamos isso acontecia, Amanda parecia fugir de si mesma, sobrava então um vazio, esse vazio de ser amada. Foi aí que percebi: eu amava Amanda.
Como sempre acontece, o amor chegou sem que eu me desse conta, quando pensamos que estamos gostando de alguém já gostamos, é como chuva de verão: cai com força quando menos se espera, depois restam apenas os estragos,e, no meu caso, os estragos foram grandes.
Eu nunca havia sentido atração por mulher, Amanda, pelo que conhecia dela, também não; passei a viver um dilema: como me declarar à Amanda?, como mostrar-lhe meu amor?, como dizer a ela que não precisava mais se desesperar, agora ela era amada, eu a amava, eu amava Amanda.
Estamos na praia, o tempo fecha ameaçando chuva, Amanda fala vamos embora, eu digo não, vamos ver se chove, e se chover tomamos banho de chuva na praia, ela sorri, é tão linda sorrindo, parece um arco-íris a se desenhar no céu, seu rosto transborda de cor quando sorri, ajeitamos nossas coisas sob o guarda sol e caminhamos juntas para a água, deixo que Amanda se adiante um pouco e admiro seu corpo, pela primeira vez sinto tesão por uma mulher, corro, estamos nadando quando a chuva cai, Amanda corre à areia, eu a sigo, é hoje, penso, vou me declarar, Amanda rodopia sob a chuva, penso que ela vai gritar eu mereço ser amada, mas ela está sóbria, seguro suas mãos e brincamos de roda, estamos sozinhas, a praia está deserta, a chuva aperta, eu me aproximo de Amanda e a beijo, sua boca é salgada, procuro sua língua que foge, ela me empurra, eu caio, eu te amo Amanda, tomo coragem e digo, ela está muda, você não quer ser amada, então, eu te amo Amanda, ela está parada, as mãos na boca, chora?, não sei, chove muito e as lágrimas, se existem, se misturam à chuva, me levanto e vou até ela, abraço-a, ela chora, você não você não você não ela diz seguidamente, você não pode, ela chora, você é minha amiga, minha melhor amiga, e tem mais, você é mulher, você não você não você não, me aproximo, ela se acalma, seguro-a pela mão e a levo ao mar, olho seus olhos, penso beijá-la outra vez, recuo, aliso-lhe os cabelos molhados, toco seu nariz, a água está a altura do nosso peito, beijo a face de Amanda, então afogo-a, seguro com força (toda força que tenho) sua cabeça sob a água, ela se debate desesperada, arranha-me as pernas, tira-me o biquíni e chora, tenho certeza que Amanda chora por sob a água, os movimentos cessam, eu seguro um pouco mais e solto, Amanda bóia, ando até a areia, sento e fico olhando o corpo de Amanda se perder, Amanda, a que não merecia ser amada por mim.


Carlos Henrique dos Santos/ Dezembro de 2004.

domingo, 6 de setembro de 2009

poema em prosa - 1

o significante sorte não tem significado pra mim, essas meras letras (s-o-r-t-e) a mim nada dizem, se constituem apenas enquanto sinais gráficos que não encontram representação cabível em meus pensamentos. minhas idéias quando acordam tem a cor do seu sorriso pequeno quando se abre pra mim nas esquinas dos sonhos: é transparente! talvez por isso tenha dificuldades de enxergar realmente a cor do que sonho. entre sonhar e viver bebo cerveja nos bares das incertezas, gosto de razão na boca me provoca ânsia de vômitos. quando beijei a boca da menina de azul senti que a lua tocava meu ombro e sussurrava em meu ouvido que felicidade tem sabor de ilusão. os momentos tristes têm a mesma duração dos bons: cada um vai até o limite das suas forças. na corda bamba da vida me desequilibro sempre, quero cair pro lado que o vento soprar com mais força, assim vejo quando as saias do tempo se levantarem e descubro que morrer é nada mais que deixar de viver. quando criança sonhava em ser feliz hoje procuro não dormir, os sonhos são tristes em suas doses de verdade. meus vícios se assemelham a banho de chuva: quando me encharcam o corpo fazem escorrer minha razão. o que penso da vida? nada. pensar cansa e viver dói, por conta disso apenas sinto, o que já me é o suficiente: sentir tem cheiro de infância e faz crescer os cabelos. se você não sabe somar não se preocupe, a vida é uma conta de diminuir constante, perdemos sempre. quando encontrei o gênio da lâmpada no quintal da minha casa fiz meus três pedidos: uma cerveja gelada, um cigarro filtro amarelo e uma mulher, bebi a cerveja, fumei o cigarro e guardei a mulher no meu inconsciente, desde então toda noite ela me visita na volúpia dos sonhos. escrever, vez ou outra, faz doer minha razão, às vezes prefiro banho de cachoeira. você lembra do dia em que nasceu? nem eu, minha memória é fraca demais para guardar os mais de nove mil dias que tenho de vida. vou acender um cigarro pra fumar, enquanto isso vá queimando aí suas idéias tentando decifrar esse enigma: acendo, puxo, prendo e passo e não é baseado, o que é? voltei! e ae, descobriu? não?! é a mulher: eu a olho e com isso acendo meu desejo, puxo-a para junto de mim, prendo-a em meus braços/sexo/pernas e depois passo-a para o lado do meu coração, onde a guardo carinhosamente. lembrei de uma menina, um dia a olhei e ela acendeu meu desejo, a puxei para junto de mim e a prendi em meus braços/sexo/pernas, mas antes que tivesse tempo de passá-la para o lado do meu coração ela se foi e me deixou só. só e em silêncio. acho que vou chorar: o céu está azul e meu silêncio sem cor. talvez seja hora de encerrar a escrita e deixar que o calor da vida aqueça-me a solidão.

terça-feira, 19 de maio de 2009

O beijo

Não, as bocas não se encontram e não há beijo, essa é a verdade, mas no terreno da literatura as verdades são frágeis demais, assim como o coração do jovem que temos sentado frente a essa menina que faz poucos dias ele conheceu.
Eles apenas se olham em um momento de silêncio. As mãos do jovem deslizam suavemente por sobre as mãos pequenas e macias da menina, ela sorri, ele se mantém sério e pensa no que dizer, um ônibus passa em alta velocidade atravessando o sinal prestes a se fechar, eles se distraem com o barulho. A menina tem o olhar perdido por alguns instantes, é como se pensasse em algo que não está ali, junto deles sentado em um banco de praça, mas sim em outro lugar, distante, bem distante; seus olhos traduzem esse distanciamento. Ele, por sua vez, está todo ali, sua presença vai além do seu próprio corpo (que deseja o da menina), suas ideias trafegam em alta velocidade assim como o ônibus que passou.
A menina vai, pouco a pouco, trazendo seus pensamentos novamente para o local em que eles se encontram, de leve ela retira sua mão de sob a dele, sorri, ele se constrange um pouco e cata no bolso da camisa um cigarro, acende, traga, solta a fumaça para o alto (inclinando o pescoço um pouco para cima) em seguida leva outra vez seus olhos para junto dos olhos da menina, sorriem um riso branco amarelado silencioso, então ele diz que talvez seja melhor ir embora.
Não, ela responde enfaticamente. Depois, mais branda, ainda é cedo, vamos conversar. Outro silêncio se constrói junto à fumaça expelida por ele. Em seguida ela se põe a falar que também gostaria que tudo fosse diferente, que eles bem que podiam ter se conhecido em um outro momento, mas infelizmente não foi assim, e ela não pode fazer nada para mudar; até pode, ele diz; sim, posso, mas não quero, não agora, nesse momento, preciso pensar mais e melhor, ter certeza, sabe? Não, ele não sabe mas também não diz, traga de novo seu cigarro com força e deixa a fumaça se alojar toda em seu pulmão, sente como este se infla e preenche todo de fumaça. Ela percebe que ele se chateou e pousa de leve sua mão sobre a dele, assim como uma ave aterriza lentamente sobre uma árvore a procura de algo que a alimente ela procura a mão do jovem para alimentar os muitos desejos que sente por ele, mas que, infelizmente, ela pensa em seu silêncio, não pode realizar. Ele sente novamente se acender o desejo que tem por ela, sente uma vontade descontrolada de levantar, segurá-la firmemente, reter entre suas mãos o pequeno rosto dela e beijá-la, beijá-la muito, com força, enfiar avidamente sua língua dentro da boca dela, assim como o mendigo que viu há alguns dias a chafurdar no lixo em um desespero contido entremeado por palavras desconexas a procura de algo que lhe saciasse a fome ele quer entrar todo nela: língua e pênis, se perder no pequeno corpo da jovem, uma perdição como aquela que experimentamos quando boiamos na praia, quando todo nosso corpo fica leve a flutuar sobre as águas, assim, perdido de si mesmo, leve, solto no ar como um balão de gás ele quer ficar.
Controlando sua vontade ele lembra do sonho que teve com ela mas prefere calar, não dizer nada talvez tenha sua utilidade, ele acredita, pois dessa forma pode se manter distante de alguma forma da invasão dela que teima em tocar seus pensamentos nos momentos mais inoportunos.
O sonho: conversamos sentados em uma sala ouvindo música até que chega uma menina com quem não me dou muito bem, dessa forma te chamo para sairmos dali. De um momento para o outro já estamos em um quarto, deitados em uma cama que fica bem embaixo de uma janela; uma forte luz ilumina o ambiente e deixa seus olhos castanhos com um brilho que eu nunca vira antes, digo que eles estão bonitos e você sorri em silêncio, deitamos, eu quase que na sua barriga, meio de lado, e faço minha mão correr de leve por entre suas pernas, você continua a olhar pela janela e, ao sentir meu toque, sorri. Levo minha mão bem para o centro de suas pernas e assim como o corpo que afunda depois de boiar, se perdendo agora de uma maneira mais profunda, sem controle, disperso de si mesmo, assim vou me perdendo de mim ao procurar abrigo em você.
Como não haverá beijo me pergunto sobre qual a utilidade desse texto. Se o beijo emerge aqui como elemento desencadeador de uma história como pode sua ausência gerar algo? Talvez essa pergunta não passe pela cabeça desses dois personagens, por conta disso eles (e principalmente ele) continuem sentados nesse banco de praça nessa noite que lentamente vestiu de negro o azul do céu, ele ainda alimenta esse desejo doce e amargo ao mesmo tempo de beijá-la, de poder tirar dela um pouco do prazer que vem catando dias e dias, há tempos já, numa procura que se mostra cansativa, toda noite, na pequena morte do sono ele se embrenha por entre pensamentos tortuosos sobre a fragilidade da vida, dos medos e desejos que o invadem sem pedir licença; respostas não há, ele pensa, mas mesmo assim continua a procura delas como o mendigo lá de cima; sua fome, como a do mendigo, não se sacia, não se encerra porque não existe alimento suficiente para ele, o mendigo sofre as mazelas do capitalismo e nosso personagem as mazelas da própria vida, entre a objetividade da fome e a subjetividade do amor os dois se veem num beco sem saída: o que fazer se o mundo parece conspirar contra mim?
Essa é a pergunta que por alguns momentos os assombra mas que rapidamente se desvanece, a própria vida pede pressa, o tempo os engole a cada segundo, a morte está a espreita nas esquinas desse mesmo tempo, o caminho é apenas um: para frente, sempre para frente. E assim, presos nas rodas do destino, o que lhes resta é esse pouco de comida jogada fora (para o mendigo), e essa jovem sentada em uma praça qualquer (para o jovem), atados pelos invisíveis laços da existência eles se encontram e se debatem consigo mesmo em um desespero contido e é pena não poderem estar de mãos dadas feito duas crianças a brincar de roda, girando girando girando...

Carlos Henrique dos Santos
abril-maio de 2009.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Nós

“Faço o amor, é verdade; que mal pode haver nisso? Querias que aos dezesseis anos eu ficasse por aí como uma coruja?...” – Canção triestina

Para Graciela, com carinho.

O casal vem andando lentamente, com dezesseis anos vivem uma de suas primeiras relações. Caminham em silêncio, as mãos entrelaçadas procura traduzir uma espécie de laço que os une. Ele pensa no que dizer, cata na memória palavras que ouviu de homens mais velhos sobre como tratar uma mulher. Ela não consegue pensar em nada, cada passo parece levá-la para mais longe dele, mesmo ali, de mãos dadas, sente-se distante, perdida dentro de si mesma. Com a ponta do dedo ela ajeita os óculos, dá um leve toque na parte do aro que se coloca bem acima do nariz, sente o sol incomodando, pisca e ajeita novamente os óculos, então pára. Abruptamente ela pára. Assim, sem mais nem menos, suas pernas travam, não a deixam seguir adiante. Silêncio. Ela leva novamente a mão aos óculos e o retira, olha de soslaio para ele que está um tanto desnorteado, continua a catar na memória palavras, mas procura agora aquelas que possam servir de combustível para que ela se mexa. Sente que sua mão sua mas não quer soltá-la da mão dela, pensa que isso seria demonstrar fraqueza, insegurança, então aperta ainda com mais força a mão da menina (assim como faz quando bate com força suas baquetas nos pratos da bateria, tentando sempre seguir o ritmo o ritmo o ritmo). Com os óculos na mão ela olha o céu, sua cabeça parece um vulcão a destilar larvas de idéias, pensamentos confusos e fragmentados bailam a sua frente. Tudo que queria nesse momento era estar em casa, deitada no colo da mãe, sentindo como os dedos da mãe se perdem por entre seus cabelos pretos e finos, ouvindo como a voz da mãe a acalma, lembra de quando era criança e ficava se imaginando sentada nas nuvens, achava que as nuvens deviam ser bem macias e doces, e então se via deitada comendo pequenos pedaços de nuvens, a boca cheia de nuvem, o corpo esticado por sob uma fina camada rosa-amarelada de nuvem, e a mãe ali, alisando-lhe os cabelos e deixando-a calma, leve, solta como um pássaro.
Mas não está em casa e a rua a assusta, por que está ali, de mãos dadas com aquele menino que conhece tão pouco? Do que ela gosta nele? Por que os dois estão juntos? De onde veio seu interesse por ele? Sim, ele é bonito com seus olhos verdes, seu cabelo que desce em cachos até o ombro, seu nariz fino e sua boca macia (o beijo dele a faz lembrar das nuvens de sua infância), mas e aí, o que tem isso de importante? Por que ele e não outro? Por que ele, justamente ele, esse menino que apareceu há três meses em sua vida e fica ao lado dela, tocando-lhe a boca com sua boca, alisando-lhe as pernas, o peito, a bunda nas noites que passam sentados na varanda? E aquele jeito dele de morder a orelha dela, de ficar lambendo a orelha dela, de querer enfiar a mão fina de dedos curtos dentro da blusa e da calça dela, de ficar falando que gostaria de vê-la nua, por que ela sente suas pernas tremerem quando ele a beija avidamente no pescoço e toca-lhe o seio bem de leve? Por que seu coração dispara quando ele a alisa a bunda e solta a língua dentro de sua boca, sua língua-peixe que se debate a procura de ar? Por que ela sente medo de nunca mais vê-lo mas ao mesmo tempo acha que não sentirá saudades se ele simplesmente desaparecer da sua vida? Por que ela não pensa sobre quanto tempo eles ficarão juntos? Por que ela nem mesmo sabe ao certo por que estão juntos?
Parados, no meio de uma rua esburacada de um bairro de periferia, assim está o casal de jovens, dezesseis anos apenas, ela com os óculos em uma das mãos e a outra presa por entre os dedos dele que procura uma maneira de fazê-la andar (acha tão bonito o jeito descompromissado que ela tem de andar, parece não querer chegar a lugar algum, apenas anda, um andar feliz, alegre, doce e belo como ela), sente-se um idiota, um verdadeiro idiota parado no meio de uma rua que não conhece muito bem de mãos dadas com essa menina que apareceu faz três meses em sua vida mas que despertou nele um forte desejo, o que gostaria mesmo era de poder ficar com ela em seu quarto, nu, a cabeça por entre os belos seios dela, lambendo-a como aquele cara do filme fez com a loira de peitos grandes, fazer sua língua correr loucamente pelos bicos dos seios dela, apertá-la contra si, com força, ir lhe mordendo a orelha aos poucos (as mulheres enlouquecem com uma boa mordida em suas orelhas, o pai disse certa vez), até finalmente poder se perder dentro dela (mulher gostosa é aquela que te faz ficar perdido, sem chão quando começa a comê-la, assim ouviu o amigo do irmão mais velho falando: comer, comê-la, mastigá-la, morder morder morder até saber que sabor tem uma mulher) isso sim é o que ele quer, não ficar ali com cara de babaca parado no meio da rua, pensa em chamá-la, em acordá-la desse transe em que ela parece metida mas tudo que sua boca é capaz de produzir é um simples:

Enquanto a olha parada com os óculos na mão. Gosta dela, sabe disso, gosta quando ela o beija na escola na frente dos amigos, gosta quando ela o espera para irem embora juntos ao fim das aulas, gosta de olhá-la enquanto bate com força em sua bateria durante os shows (sempre a procura do ritmo do ritmo do ritmo), gosta quando sente que ela quer que ele a beije, gosta do beijo dela, do gosto doce que saboreia quando a beija, gosta da quentura que o corpo dela proporciona no seu, gosta quando sente seu sexo duro no meio da noite ao pensar nela, gosta de tomar banho imaginando como deve ser belo o corpo dela nu, aquela pele branca e macia (sua mão é macia, parece mão de criança, ele a disse no primeiro encontro) mas não gosta nem um pouco de estar ali parado sem saber o que fazer, o tempo parece ter congelado assim como as pernas dela.
O amor é um sentimento que não conhecemos, apenas sentimos, disse seu professor de literatura certa vez; ela guardou com carinho essas palavras, da mesma forma que se guarda um presente desejado ou uma lembrança feliz ela pôs essas palavras naquele canto da memória reservado aos acontecimentos importantes da vida. Mas como sentir o amor ele não disse. Talvez seja essa a pergunta que ela esteja se fazendo agora, talvez sua parada seja apenas uma forma de se proteger não dele mas dela mesma, de se manter distante, imóvel para a própria vida e o que vem junto desta quando se procura viver. Desliza seu olhar pela rua na tentativa de encontrar respostas para o que se move dentro dela, depois solta a mão dele e se senta no meio fio. Coloca os óculos, olha para ele, em seguida desamarra o cadarço do tênis que calça e começa a amarrá-lo outra vez. Seus dedos seguram pela ponta o cadarço, bem lentamente ela os entrelaça, um para a direita e outro para a esquerda, depois se colocam um por sobre o outro, em seguida perfazem uma espécie de laço e novamente se encontram, agora os laços se envolvem, rodopiam juntos como um casal que dança, se interpenetram e finalmente atam-se, firmes, presos, amarrados.

Carlos Henrique dos Santos.
Janeiro de 2009.