terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Nós

“Faço o amor, é verdade; que mal pode haver nisso? Querias que aos dezesseis anos eu ficasse por aí como uma coruja?...” – Canção triestina

Para Graciela, com carinho.

O casal vem andando lentamente, com dezesseis anos vivem uma de suas primeiras relações. Caminham em silêncio, as mãos entrelaçadas procura traduzir uma espécie de laço que os une. Ele pensa no que dizer, cata na memória palavras que ouviu de homens mais velhos sobre como tratar uma mulher. Ela não consegue pensar em nada, cada passo parece levá-la para mais longe dele, mesmo ali, de mãos dadas, sente-se distante, perdida dentro de si mesma. Com a ponta do dedo ela ajeita os óculos, dá um leve toque na parte do aro que se coloca bem acima do nariz, sente o sol incomodando, pisca e ajeita novamente os óculos, então pára. Abruptamente ela pára. Assim, sem mais nem menos, suas pernas travam, não a deixam seguir adiante. Silêncio. Ela leva novamente a mão aos óculos e o retira, olha de soslaio para ele que está um tanto desnorteado, continua a catar na memória palavras, mas procura agora aquelas que possam servir de combustível para que ela se mexa. Sente que sua mão sua mas não quer soltá-la da mão dela, pensa que isso seria demonstrar fraqueza, insegurança, então aperta ainda com mais força a mão da menina (assim como faz quando bate com força suas baquetas nos pratos da bateria, tentando sempre seguir o ritmo o ritmo o ritmo). Com os óculos na mão ela olha o céu, sua cabeça parece um vulcão a destilar larvas de idéias, pensamentos confusos e fragmentados bailam a sua frente. Tudo que queria nesse momento era estar em casa, deitada no colo da mãe, sentindo como os dedos da mãe se perdem por entre seus cabelos pretos e finos, ouvindo como a voz da mãe a acalma, lembra de quando era criança e ficava se imaginando sentada nas nuvens, achava que as nuvens deviam ser bem macias e doces, e então se via deitada comendo pequenos pedaços de nuvens, a boca cheia de nuvem, o corpo esticado por sob uma fina camada rosa-amarelada de nuvem, e a mãe ali, alisando-lhe os cabelos e deixando-a calma, leve, solta como um pássaro.
Mas não está em casa e a rua a assusta, por que está ali, de mãos dadas com aquele menino que conhece tão pouco? Do que ela gosta nele? Por que os dois estão juntos? De onde veio seu interesse por ele? Sim, ele é bonito com seus olhos verdes, seu cabelo que desce em cachos até o ombro, seu nariz fino e sua boca macia (o beijo dele a faz lembrar das nuvens de sua infância), mas e aí, o que tem isso de importante? Por que ele e não outro? Por que ele, justamente ele, esse menino que apareceu há três meses em sua vida e fica ao lado dela, tocando-lhe a boca com sua boca, alisando-lhe as pernas, o peito, a bunda nas noites que passam sentados na varanda? E aquele jeito dele de morder a orelha dela, de ficar lambendo a orelha dela, de querer enfiar a mão fina de dedos curtos dentro da blusa e da calça dela, de ficar falando que gostaria de vê-la nua, por que ela sente suas pernas tremerem quando ele a beija avidamente no pescoço e toca-lhe o seio bem de leve? Por que seu coração dispara quando ele a alisa a bunda e solta a língua dentro de sua boca, sua língua-peixe que se debate a procura de ar? Por que ela sente medo de nunca mais vê-lo mas ao mesmo tempo acha que não sentirá saudades se ele simplesmente desaparecer da sua vida? Por que ela não pensa sobre quanto tempo eles ficarão juntos? Por que ela nem mesmo sabe ao certo por que estão juntos?
Parados, no meio de uma rua esburacada de um bairro de periferia, assim está o casal de jovens, dezesseis anos apenas, ela com os óculos em uma das mãos e a outra presa por entre os dedos dele que procura uma maneira de fazê-la andar (acha tão bonito o jeito descompromissado que ela tem de andar, parece não querer chegar a lugar algum, apenas anda, um andar feliz, alegre, doce e belo como ela), sente-se um idiota, um verdadeiro idiota parado no meio de uma rua que não conhece muito bem de mãos dadas com essa menina que apareceu faz três meses em sua vida mas que despertou nele um forte desejo, o que gostaria mesmo era de poder ficar com ela em seu quarto, nu, a cabeça por entre os belos seios dela, lambendo-a como aquele cara do filme fez com a loira de peitos grandes, fazer sua língua correr loucamente pelos bicos dos seios dela, apertá-la contra si, com força, ir lhe mordendo a orelha aos poucos (as mulheres enlouquecem com uma boa mordida em suas orelhas, o pai disse certa vez), até finalmente poder se perder dentro dela (mulher gostosa é aquela que te faz ficar perdido, sem chão quando começa a comê-la, assim ouviu o amigo do irmão mais velho falando: comer, comê-la, mastigá-la, morder morder morder até saber que sabor tem uma mulher) isso sim é o que ele quer, não ficar ali com cara de babaca parado no meio da rua, pensa em chamá-la, em acordá-la desse transe em que ela parece metida mas tudo que sua boca é capaz de produzir é um simples:

Enquanto a olha parada com os óculos na mão. Gosta dela, sabe disso, gosta quando ela o beija na escola na frente dos amigos, gosta quando ela o espera para irem embora juntos ao fim das aulas, gosta de olhá-la enquanto bate com força em sua bateria durante os shows (sempre a procura do ritmo do ritmo do ritmo), gosta quando sente que ela quer que ele a beije, gosta do beijo dela, do gosto doce que saboreia quando a beija, gosta da quentura que o corpo dela proporciona no seu, gosta quando sente seu sexo duro no meio da noite ao pensar nela, gosta de tomar banho imaginando como deve ser belo o corpo dela nu, aquela pele branca e macia (sua mão é macia, parece mão de criança, ele a disse no primeiro encontro) mas não gosta nem um pouco de estar ali parado sem saber o que fazer, o tempo parece ter congelado assim como as pernas dela.
O amor é um sentimento que não conhecemos, apenas sentimos, disse seu professor de literatura certa vez; ela guardou com carinho essas palavras, da mesma forma que se guarda um presente desejado ou uma lembrança feliz ela pôs essas palavras naquele canto da memória reservado aos acontecimentos importantes da vida. Mas como sentir o amor ele não disse. Talvez seja essa a pergunta que ela esteja se fazendo agora, talvez sua parada seja apenas uma forma de se proteger não dele mas dela mesma, de se manter distante, imóvel para a própria vida e o que vem junto desta quando se procura viver. Desliza seu olhar pela rua na tentativa de encontrar respostas para o que se move dentro dela, depois solta a mão dele e se senta no meio fio. Coloca os óculos, olha para ele, em seguida desamarra o cadarço do tênis que calça e começa a amarrá-lo outra vez. Seus dedos seguram pela ponta o cadarço, bem lentamente ela os entrelaça, um para a direita e outro para a esquerda, depois se colocam um por sobre o outro, em seguida perfazem uma espécie de laço e novamente se encontram, agora os laços se envolvem, rodopiam juntos como um casal que dança, se interpenetram e finalmente atam-se, firmes, presos, amarrados.

Carlos Henrique dos Santos.
Janeiro de 2009.

2 comentários:

Neto disse...

muito bom!!! desperta um certo interesse em saber a causa do estranho e inesperado momento no qual ela pára...
forma livre, real, e ao mesmo tempo literária!
muito bom mesmo.

Bruna disse...

foi o primeiro post que li então comentei aqui...
os textos tem um tom tão jovem que eu não esperava mesmo, jovem e muito bem escrito, li o primeiro texto, 'nós', umas duas ou tres vezes...
meu preferidos foram o da Ana Hickmann e esse. (:

Bruna, a que não sabe fazer comentários rs