terça-feira, 19 de maio de 2009

O beijo

Não, as bocas não se encontram e não há beijo, essa é a verdade, mas no terreno da literatura as verdades são frágeis demais, assim como o coração do jovem que temos sentado frente a essa menina que faz poucos dias ele conheceu.
Eles apenas se olham em um momento de silêncio. As mãos do jovem deslizam suavemente por sobre as mãos pequenas e macias da menina, ela sorri, ele se mantém sério e pensa no que dizer, um ônibus passa em alta velocidade atravessando o sinal prestes a se fechar, eles se distraem com o barulho. A menina tem o olhar perdido por alguns instantes, é como se pensasse em algo que não está ali, junto deles sentado em um banco de praça, mas sim em outro lugar, distante, bem distante; seus olhos traduzem esse distanciamento. Ele, por sua vez, está todo ali, sua presença vai além do seu próprio corpo (que deseja o da menina), suas ideias trafegam em alta velocidade assim como o ônibus que passou.
A menina vai, pouco a pouco, trazendo seus pensamentos novamente para o local em que eles se encontram, de leve ela retira sua mão de sob a dele, sorri, ele se constrange um pouco e cata no bolso da camisa um cigarro, acende, traga, solta a fumaça para o alto (inclinando o pescoço um pouco para cima) em seguida leva outra vez seus olhos para junto dos olhos da menina, sorriem um riso branco amarelado silencioso, então ele diz que talvez seja melhor ir embora.
Não, ela responde enfaticamente. Depois, mais branda, ainda é cedo, vamos conversar. Outro silêncio se constrói junto à fumaça expelida por ele. Em seguida ela se põe a falar que também gostaria que tudo fosse diferente, que eles bem que podiam ter se conhecido em um outro momento, mas infelizmente não foi assim, e ela não pode fazer nada para mudar; até pode, ele diz; sim, posso, mas não quero, não agora, nesse momento, preciso pensar mais e melhor, ter certeza, sabe? Não, ele não sabe mas também não diz, traga de novo seu cigarro com força e deixa a fumaça se alojar toda em seu pulmão, sente como este se infla e preenche todo de fumaça. Ela percebe que ele se chateou e pousa de leve sua mão sobre a dele, assim como uma ave aterriza lentamente sobre uma árvore a procura de algo que a alimente ela procura a mão do jovem para alimentar os muitos desejos que sente por ele, mas que, infelizmente, ela pensa em seu silêncio, não pode realizar. Ele sente novamente se acender o desejo que tem por ela, sente uma vontade descontrolada de levantar, segurá-la firmemente, reter entre suas mãos o pequeno rosto dela e beijá-la, beijá-la muito, com força, enfiar avidamente sua língua dentro da boca dela, assim como o mendigo que viu há alguns dias a chafurdar no lixo em um desespero contido entremeado por palavras desconexas a procura de algo que lhe saciasse a fome ele quer entrar todo nela: língua e pênis, se perder no pequeno corpo da jovem, uma perdição como aquela que experimentamos quando boiamos na praia, quando todo nosso corpo fica leve a flutuar sobre as águas, assim, perdido de si mesmo, leve, solto no ar como um balão de gás ele quer ficar.
Controlando sua vontade ele lembra do sonho que teve com ela mas prefere calar, não dizer nada talvez tenha sua utilidade, ele acredita, pois dessa forma pode se manter distante de alguma forma da invasão dela que teima em tocar seus pensamentos nos momentos mais inoportunos.
O sonho: conversamos sentados em uma sala ouvindo música até que chega uma menina com quem não me dou muito bem, dessa forma te chamo para sairmos dali. De um momento para o outro já estamos em um quarto, deitados em uma cama que fica bem embaixo de uma janela; uma forte luz ilumina o ambiente e deixa seus olhos castanhos com um brilho que eu nunca vira antes, digo que eles estão bonitos e você sorri em silêncio, deitamos, eu quase que na sua barriga, meio de lado, e faço minha mão correr de leve por entre suas pernas, você continua a olhar pela janela e, ao sentir meu toque, sorri. Levo minha mão bem para o centro de suas pernas e assim como o corpo que afunda depois de boiar, se perdendo agora de uma maneira mais profunda, sem controle, disperso de si mesmo, assim vou me perdendo de mim ao procurar abrigo em você.
Como não haverá beijo me pergunto sobre qual a utilidade desse texto. Se o beijo emerge aqui como elemento desencadeador de uma história como pode sua ausência gerar algo? Talvez essa pergunta não passe pela cabeça desses dois personagens, por conta disso eles (e principalmente ele) continuem sentados nesse banco de praça nessa noite que lentamente vestiu de negro o azul do céu, ele ainda alimenta esse desejo doce e amargo ao mesmo tempo de beijá-la, de poder tirar dela um pouco do prazer que vem catando dias e dias, há tempos já, numa procura que se mostra cansativa, toda noite, na pequena morte do sono ele se embrenha por entre pensamentos tortuosos sobre a fragilidade da vida, dos medos e desejos que o invadem sem pedir licença; respostas não há, ele pensa, mas mesmo assim continua a procura delas como o mendigo lá de cima; sua fome, como a do mendigo, não se sacia, não se encerra porque não existe alimento suficiente para ele, o mendigo sofre as mazelas do capitalismo e nosso personagem as mazelas da própria vida, entre a objetividade da fome e a subjetividade do amor os dois se veem num beco sem saída: o que fazer se o mundo parece conspirar contra mim?
Essa é a pergunta que por alguns momentos os assombra mas que rapidamente se desvanece, a própria vida pede pressa, o tempo os engole a cada segundo, a morte está a espreita nas esquinas desse mesmo tempo, o caminho é apenas um: para frente, sempre para frente. E assim, presos nas rodas do destino, o que lhes resta é esse pouco de comida jogada fora (para o mendigo), e essa jovem sentada em uma praça qualquer (para o jovem), atados pelos invisíveis laços da existência eles se encontram e se debatem consigo mesmo em um desespero contido e é pena não poderem estar de mãos dadas feito duas crianças a brincar de roda, girando girando girando...

Carlos Henrique dos Santos
abril-maio de 2009.