quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Amanda

Para Bianca Manzani

Amanda sabia que merecia ser amada e toda vez que bebia demais era isso o que ela dizia; sua voz fina e macia preenchia o ar (e nossos corações) de tristeza, pois Amanda emitia tais palavras (Eu mereço ser amada) num misto de choro e exaltação, seus olhos se inundavam de lágrimas, lágrimas que não caiam, que não desciam por sua face, e ficavam ali, em seus olhos, feito uma piscina, então depois Amanda sentava num canto qualquer e ficava murmurando algo indecifrável a olhar o céu, em seguida dormia.
Conheci Amanda na faculdade, cursávamos Letras e sonhávamos ser escritoras; eu, poeta, Amanda, romancista; fomos criando cumplicidade em nossas diferenças e anseios, eu acabara de abortar um feto de um puto que me comeu e depois sumiu, voltou para a casa dos pais no Sul e pediu desculpas por telefone, assim como se o que tivesse feito fosse apenas pisar no meu pé, entrei em crise e fiz um ano e meio de análise, foi nesse período analítico que passei no vestibular e conheci Amanda.
Foi Amanda quem falou comigo primeiro, saí de sala no meio de uma discussão morfológica e fui fumar no corredor, Amanda saiu em seguida: bebeu água e me pediu um cigarro, fumamos em silêncio olhando uma para a outra, quando acabamos ela disse que algumas aulas a cansavam muito, o que a dava a impressão de perda de tempo, eu sorri concordando com ela e a chamei para tomar uma cerveja, era verão, e tudo era melhor que uma sala de aula as cinco da tarde. Foi no bar, depois de cinco cervejas, que Amanda falou pela primeira vez (Eu mereço ser amada), ela me contava sobre sua vida, falou de seus pais que morreram quando ela estava aprendendo a falar: mamãe foi minha primeira palavra, depois, dizem meus tios, passei três meses chamando mamãe toda noite, e que de uma hora para outra parei, nunca mais a chamei, mas três dias depois falei minha segunda palavra: papai; então, dizem, passei um mês chamando-o enquanto dormia sem nem ao menos lembrar como ele era, hoje, quando vejo fotos deles, o que faço muito pouco, já que sinto náuseas quando as olho, é como se olhasse estranhos, não reconheço meus próprios pais, e isso é tão chato e triste que em seguida choro e sinto vontade de chamá-los novamente, e sem saber porque não consigo, é como se algo travasse dentro de mim, e a voz não sai. Meus tios, que me criaram até os sete, depois passei dez anos num colégio de freiras, de onde fugi para morar com uma outra interna, contavam que quando aprendi a escrever, aos cinco anos, eu sempre comia o n do meu nome, então ficava Amada: Amada Amada Amada Amada, eu enchia folhas e folhas com meu (quase) nome, talvez venha daí esse meu desejo de ser amada; meus tios nunca me maltrataram, mas, acredito, também nunca me amaram pra valer, eles tinham decidido não ter filhos, e já eram vinte (vinte!) anos de casados quando meus pais (mamãe era irmã mais nova de tia Bi, era assim que a chamávamos) morreram, e ficar comigo não foi muito o que eles queriam, mas o câncer foi rápido com mamãe, e em três meses a levou, nesse entretempo ela implorou a meus tios que ficassem comigo, não sei se já sabia o que papai faria duas horas depois que ela morreu, mas as instruções que deixou já o descartavam de cuidar de mim, o que anuncia, inconscientemente, o tiro que ele daria na boca sentado frente ao último retrato tirado por ela, dizem que eu gritei na hora do tiro, mas não lembro.
E assim fui conhecendo a trágica história de Amanda, história que ela contava como se fosse a de um filme ou livro, procurando se colocar apenas como expectadora (alguém que olha de fora), quando na verdade era ela a grande protagonista de toda a história. Construímos nossa amizade com base no desespero de Amanda, depois do primeiro dia no bar passamos a andar sempre juntas pela faculdade, para achar uma bastava procurar a outra; trabalhos, prova em dupla, estávamos sempre eu e Amanda, e, claro, não podia faltar o bar, era nele que Amanda mais se soltava e contava (ou repetia) fragmentos de sua história: a fuga do colégio de freiras foi uma grande aventura, eu não agüentava mais aquela hipocrisia de rezas e ladainhas que todo dia me azucrinavam, deus não podia existir, não pra mim, órfã de pai e mãe antes dos dois anos, aos sete sozinha, sem ninguém, daí tentaram me dar deus, mas eu não quis, eu recusei deus, por isso fugi; agora, cinco anos depois, mantenho mais forte minha negação divina, e o pouco que tenho (e o muito que não tenho) nada tem a ver com deus. Quando fugi fui de carona pra Bahia, pra casa da irmã da minha amiga Zita, depois de três meses lá dabandei e vim pro Rio, foi difícil, mas me virei sozinha, é claro que foi meio brabo no começo, mas meus tios (mesmo sem me amarem) me arrumaram um dinheiro (que já paguei), daí descolei esse emprego de professora (graças ao colégio de freiras, quem diria, hen!?) e fui conseguindo me virar sozinha, agora falta apenas encontrar um amor, alguém que me ame, pois eu mereço ser amada, e sei disso.
No terceiro período da faculdade Amanda me convidou a morar com ela, sabia que eu não gostava da república onde morava e me mostrou que os gastos seriam praticamente os mesmos, no dia que mudei faltamos à aula e fomos a um bar comemorar, lá contei à Amanda sobre o Pedro (o puto que me comeu), não gostava muito de ficar relembrando, já bastava o ano e meio de análise gasto por conta disso, mas agora o Pedro era apenas uma rasura na história do meu passado, uma letra fora do lugar no meu alfabeto: fui apaixonada por ele, me entreguei toda como nunca havia feito até então, e o que recebi foi um espermatozóide dentro de mim que não viveu mais de dois meses, não deu nem tempo de ver a barriga, troquei o carro que ganharia pelo aborto e ando de ônibus feliz e sem remorsos. Amanda dizia que eu era um tanto perversa por ter abortado, eu evito discutir esse assunto, pra mim já foi e pronto, acabou, tirar o feto foi o mesmo que matar o Pedro e minha história com ele.
Eu mereço ser amada!
Amanda exclamava em prantos e seus olhos se inundavam e me afogavam em meio a tanta tristeza e desespero, eu queria ajudar, mas não sabia como, então ficava olhando, me partia o coração ver Amanda andar se escorando pelas paredes, trôpega, buscando a janela, e sentava e murmurava e dormia. Toda vez que bebíamos isso acontecia, Amanda parecia fugir de si mesma, sobrava então um vazio, esse vazio de ser amada. Foi aí que percebi: eu amava Amanda.
Como sempre acontece, o amor chegou sem que eu me desse conta, quando pensamos que estamos gostando de alguém já gostamos, é como chuva de verão: cai com força quando menos se espera, depois restam apenas os estragos,e, no meu caso, os estragos foram grandes.
Eu nunca havia sentido atração por mulher, Amanda, pelo que conhecia dela, também não; passei a viver um dilema: como me declarar à Amanda?, como mostrar-lhe meu amor?, como dizer a ela que não precisava mais se desesperar, agora ela era amada, eu a amava, eu amava Amanda.
Estamos na praia, o tempo fecha ameaçando chuva, Amanda fala vamos embora, eu digo não, vamos ver se chove, e se chover tomamos banho de chuva na praia, ela sorri, é tão linda sorrindo, parece um arco-íris a se desenhar no céu, seu rosto transborda de cor quando sorri, ajeitamos nossas coisas sob o guarda sol e caminhamos juntas para a água, deixo que Amanda se adiante um pouco e admiro seu corpo, pela primeira vez sinto tesão por uma mulher, corro, estamos nadando quando a chuva cai, Amanda corre à areia, eu a sigo, é hoje, penso, vou me declarar, Amanda rodopia sob a chuva, penso que ela vai gritar eu mereço ser amada, mas ela está sóbria, seguro suas mãos e brincamos de roda, estamos sozinhas, a praia está deserta, a chuva aperta, eu me aproximo de Amanda e a beijo, sua boca é salgada, procuro sua língua que foge, ela me empurra, eu caio, eu te amo Amanda, tomo coragem e digo, ela está muda, você não quer ser amada, então, eu te amo Amanda, ela está parada, as mãos na boca, chora?, não sei, chove muito e as lágrimas, se existem, se misturam à chuva, me levanto e vou até ela, abraço-a, ela chora, você não você não você não ela diz seguidamente, você não pode, ela chora, você é minha amiga, minha melhor amiga, e tem mais, você é mulher, você não você não você não, me aproximo, ela se acalma, seguro-a pela mão e a levo ao mar, olho seus olhos, penso beijá-la outra vez, recuo, aliso-lhe os cabelos molhados, toco seu nariz, a água está a altura do nosso peito, beijo a face de Amanda, então afogo-a, seguro com força (toda força que tenho) sua cabeça sob a água, ela se debate desesperada, arranha-me as pernas, tira-me o biquíni e chora, tenho certeza que Amanda chora por sob a água, os movimentos cessam, eu seguro um pouco mais e solto, Amanda bóia, ando até a areia, sento e fico olhando o corpo de Amanda se perder, Amanda, a que não merecia ser amada por mim.


Carlos Henrique dos Santos/ Dezembro de 2004.