quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Conto filme

Acendo um cigarro.
Fico olhando o nada enquanto você me olha. Sou seu nada, penso. Então falo.
A cena é a seguinte: o rapaz, mais ou menos vinte e cinco anos, vem se aproximando da esquina da casa da sua irmã (isso só descobrimos depois), a câmera o acompanha alternando entre subjetiva e um plano aberto que o mostra de frente andando; enquanto essas imagens se alternam na tela ouvimos uma voz que declama um poema (é a voz do próprio rapaz). Encerrado o poema há um corte, o que vemos agora é uma menina, doze, treze anos que vem descendo uma ladeira, silêncio. Outro corte. Voltamos ao jovem. Ele está a poucos metros da esquina. Corta para um plano aéreo que mostra ele e a menina, os dois estão próximos, mas ainda não se vêem devido à esquina que os separa. Ouve-se agora, meio que sem nexo, uma arma sendo engatilhada. A câmera vai descendo e sem corte, num plano belíssimo que não sei como foi feito, fecha na esquina em que os dois e encontram. Ela sorri. Ele também. Iniciam um passo mais acelerado. Então a menina pára. Close. Sua expressão é de espanto. A câmera abre num plano que sai do rosto do rapaz, ele ainda sorri. O plano vai abrindo bem lentamente até que um capuz cobre seu rosto. Corta. A menina está parada. Atônita. O livro que estava em sua mão cai. Close na capa. É um livro meu.
Você esqueceu.
De quê?
De mencionar o livro na mão da menina. Quando falou dela andando você não falou do livro em sua mão. E depois, o que acontece?
Na verdade o filme é meio chato, a típica história de um jovem comunistazinho que é preso e torturado, vai pro exílio, volta e se envolve com a própria sobrinha (a menina que carrega meu livro). Só fui ver porque um amigo disse que meu livro aparecia num filme argentino.
Legal.
É.
Acendo outro cigarro. Ela abaixa os olhos.
E o livro, ele aparece outra vez no filme?
Não. Isso que é mais engraçado. Não sei, não consigo saber o que ele está fazendo lá. No decorrer da história nenhuma menção é feita ao livro. Ele não marca a vida nem da menina nem do rapaz. Saí do cinema me perguntando qual o papel do meu livro no enredo e não achei nenhuma resposta.
Engraçado.
É.
Por que você não volta pra mim?
Trago fundo o cigarro. Agora sou eu quem abaixa os olhos. Ligo a câmera dos meus desejos e dou um close em sua boca, ela sorri, um riso grande e prateado, riso de menina com aparelho, seus olhos se acendem feito um sinal verde que me diz: vai, passa logo, avance todos os seus medos e me beije! Corta. Plano aberto de um quarto pequeno, dois corpos deitados num chão de taco: eu e ela.
Por que, me diz?
Não sei. Bem que queria saber, mas não sei. E o pior de tudo é que não sei o porque de não saber. Toda noite quando me deito fico pensando em você, me pergunto uma e muitas vezes o que me afasta de você, o que não me deixa voltar, refazer o caminho, e não consigo achar resposta, não dá, alguma coisa em mim se perdeu, como uma peça que se solta e atrapalha todo o funcionamento da máquina alguma coisa se soltou em mim, se perdeu pelo trajeto e me deixou assim, deslocado dentro de mim mesmo. É difícil explicar, sei disso, mas não me peça mais que isso, não queira de mim respostas concretas porque tudo que posso te oferecer é minha subjetividade, e essa, por mais que tento não ajuda em nada a te dar uma resposta.
Pra que se responder se você pode se perguntar?
Olha, eu gosto de você, posso até dizer que te amo (por mais que pra mim amar seja algo inexplicável, como aquela roupa velha que lavamos e pomos na corda sem sequer sabermos o porque de lavar e pôr na corda uma peça de roupa velha que nem gostamos mais de usar, e mesmo assim, contrariando todas as nossas expectativas lá estamos nós frente a um tanque cheio de sabão e água numa manhã ensolarada de sábado mergulhando a roupa e salvando-a do afogamento de mais um dia de uso, assim, sem explicação, sem quê nem porque eu gosto de ti) então não dá, não queira isso de mim: uma resposta, porque nem eu sei, e como você mesmo diz não adianta se responder, não tem porque, se há a possibilidade da pergunta, (acendo um cigarro e trago forte, como se quisesse deixar nele, cigarro, todos os meus problemas, transformando-os em fumaça: leve, azul, serena, flutuando pelo espaço/tempo, pelo vazio de significações que preenche o simples ato de acender e tragar fundo um cigarro, assim queria minha vida: simples, leve, azul e serena, mas não, preciso, ou assim querem que eu pense, dar respostas às perguntas que muitas vezes querem tanto, querem tudo, menos uma resposta, menos uma explicação) a própria pergunta em si perde sua razão de ser, a pergunta (sua no caso) já nasce com uma grande necessidade de resposta e o que menos me atrai agora é uma resposta, é dar a você algo que nem sei bem o que é (sua indagação) uma resposta.
Desculpe. Não quero tirar de você nada que você não queria me dar, é que essa situação, assim como está, me faz mal, me machuca, me maltrata, sei, ou acho que sei, que você não quer nem meu mal nem o seu, nem o nosso, mas não agüento mais viver nesse dilema, nessa constante indagação (não apenas minha), mas sua, e nossa também.
Ela pede um cigarro, acende e me olha. Não abaixo os olhos. Ela também não.
Você toca a minha boca, de leve, você me morde os lábios, me arranha o desejo, eu fraquejo (sim, fraquejo ante tamanho desejo), seu carro-língua percorre em disparada minha boca-túnel, você me acaricia a nuca, enrola suas mãos por meus cabelos, você sussurra baixinho que me adora, que me quer, que me gosta, eu te sinto abrir-me feito uma flor, você me desfolha pétala por pétala, lentamente você vai preenchendo meu vazio de você mesmo, você me transforma em palavras, significados e significantes de prazer se cruzam, se intercalam, se misturam, somos um só corpo (você e eu) eu e você, o chão frio sente o calor do meu corpo, você morde o canto da boca, me sorri, me beija, me chama de sua (só sua), assim feito a chuva que molha a terra e tira dela cheiro de vida você me molha, me encharca de vida, de você,e tira fora todos os meus medos, suga minhas angústias feito a terra que bebe gole a gole a chuva que cai cai cai...
Eu te adoro, sabia? Quero te dizer isso, mas não consigo, minha voz se perde, assim como naquela música do Gram eu me sinto como o gatinho que se entrega todo, que dá vida após vida até ficar igual a gatinha e depois se fode, é, ele se fode, ele muda e enquanto dura sua mudança ele se fode, perde a gatinha, fica mal, sozinho no alto de um prédio olhando o nada, o vazio de vida que se abre a sua frente, esperando as respostas que talvez nunca surjam, assim estou agora: no alto de um prédio qualquer te olhando (meu vazio) sem achar sequer uma resposta que me ajude a sair desse dilema, dessa porra de indagação que me faz querer tanto ficar perto de você e ao mesmo tempo longe. Acendo outro cigarro.
Foi o encanto que acabou, não foi?
O cigarro cai da minha mão, abaixo e pego, antes de tragar te olho, depois puxo fundo, bem fundo, até sentir a fumaça tocar aquela parte de mim que não sou capaz de chegar, apenas ela, a fumaça, é quem vai lá, quem entra e sai de mim como o vento que engolimos quando criança tentando comer o nada, pegar para nós aquilo que não existe, que é apenas uma sensação de vazio, de inexplicável. Assim me sinto: vazio, inexplicável para mim mesmo, apenas um vento engolido por você.
Vou embora.
Não.
Não?!Não?! Você pensa o quê, que eu vou ficar aqui o tempo todo te esperando, guardando meus medos e desejos de você só porque você está confuso? Isto não, cansei, sabia?! Já chorei muito outras vezes, não dá mais pra ficar esperando, quem espera um dia cansa e eu já estou mais do que cansada, não vou fazer como a menina do filme que fica esperando anos e anos até o tiozinho comunista voltar do exílio, se você quer ficar se exilando de mim vá, mas não volte mais, não há retorno, todo caminho é sem volta, na vida ou a gente vai ou a gente vai, não dá, não tem como ficar parado esperando as coisas passarem, acontecerem, ou vamos juntos ou cada um vai por si mesmo, e se você quer ficar aí se consumindo nas suas indagações fique, mas não me espere que não chegarei a tempo. Eu nunca chego a tempo, estou sempre atrasada pra mim mesma.
Ela levanta e vai embora. Ouço o som da porta batendo com força, ela não olha pra trás. Sento no chão e começo a chorar, as lágrimas caem com força, sinto todo meu corpo se desmanchando, é como se cada lágrima fosse um pedaço de mim que estivesse indo embora como ela foi batendo com força na porta das minhas dores, choro com força, com muita força, então a campainha toca, toca novamente, levanto e caminho lentamente até o portão contando cada passo que dou (setenta e sete no total), em silêncio abro o portão, ela me abraça, eu não choro mais, apenas olho a lua prateada que brilha no céu, como seu sorriso que se abre e fala que me adora.

Carlos Henrique dos Santos.

p.s. é curioso mas não lembro a data de quando escrevi esse texto e nem tenho anotado. acredito que deva ter pelo menos uns três anos.

4 comentários:

Fiama disse...

Gosto da maneira como você fuma.
Digo, da maneira como transcreve isso.
É incrível.

Uns beijos

Capitu disse...

Momento único, bem descrito e profundo. As vezes acho que o personagem principal é o cigarro.

Des-colorindo os dias disse...

Gostei do escrito!

Thauan Raposo disse...

Hoje tirei o dia para explorar novos mundos(blogs) e me deparei com o seu...te comparo, se me permite,a um excelente Dj que muda o estilo de música , sem fazer com que as pessoas parem de dançar.Você mudou a atenção das personagens com muita facilidade, parabéns...