quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Ela, ou a mulher arco-íris

Para Fernanda Sant’Clair

Ando pela rua e olho o céu. Azul. Assim como o mar. Como seus olhos. Os olhos dela eram azuis. Olhos de céu, de mar. Olhos nos quais eu me deixei afogar uma e muitas vezes. Olhos mortos e ainda assim azuis. Olhos sempre azuis. Seus olhos.
Você morreu e me deixou aqui com esse céu azul. Sozinho, eu e o céu, a procura de você, a procura de qualquer coisa que me faça lembrar você, que me faça, de alguma forma inexplicável, tê-la outra vez junto a mim. Seria melhor que o azul deixasse de existir e que eu ainda pudesse ter você junto a mim, viveria mais feliz sem o azul do que vivo (vivo?) sem você. Sem você não vivo, sobre-vivo, vivo por sobre a vida, feito pássaro que voa e se deixa levar pelo vento, perdido na imensidão do vazio que preenche o mundo, o espaço, eu vou vivendo, me coloco por sobre a vida e vou me deixando levar, assim feito um bêbado que vaga pelas noites a procura de algum bar aberto, eu vago (vago: eu) pela imensidão do mundo procurando você, procurando o que pode (ainda) restar de você por aí.
Seus olhos azuis, seus cabelos vermelhos, sua pele verde, seu sorriso laranja, você conseguia ser sempre linda, estar sempre linda, você foi o arco-íris que pintou de amor o céu do meu coração, mas depois, assim como o arco-íris que vai se desfazendo com o passar do tempo, você foi também se desfazendo, lentamente vi sua degradação, dia a dia você foi perdendo cor, seus cabelos vermelhos foram tornando-se pretos, depois brancos, por fim incolores; sua pele passou de verde a rosa, roxa, ficou incolor e depois sumiu, deixando-te transparente; seu sorriso ainda durou algum tempo, era possível ver-te transparente e de cabelos incolores com um sorriso laranja, eu ainda brincava, dizia que você passava por uma fase camaleônica, que não se preocupasse, logo logo voltaria tudo ao normal. Mas você sabia que não voltaria, que nada voltaria ao normal. Eu também. Mas eu ainda queria acreditar, eu tentei acreditar, mas foi em vão. Por fim seu sorriso também entrou em mutação: marrom, lilás, incolor, depois acabou, você, que já era transparente e de cabelos incolores, ficou também sem sorriso. Apenas seus olhos se mantiveram azuis, e eu os amei até o fim, com todas as minhas forças eu te amei.
Te amei com e sem cor, te amei durante todo o período de sua degradação, lenta e tristemente você foi se perdendo, sumindo, pouco a pouco eu podia perceber a desfiguração dos seus traços, as linhas do seu rosto a se apagarem, feito borracha o tempo ia operando o apagar de você, apenas os olhos resistiam, apenas eles, azuis, se mantiveram até o fim.
Na última vez em que te vi você quase não era mais visível, um pequeno ponto azul sobre a cama me indicava que era você, ainda você, a persistir frente toda aquela dor, forte como sempre foi você não se deixou vencer tão facilmente, lutou até o fim, até não ser mais possível se manter com cor, se manter viva, se manter você.
A mim restou apenas a triste incumbência de estar a seu lado, triste porque sofri (e ainda sofro) por ter acompanhado passo a passo seu desaparecimento. Se pudesse teria fugido, teria corrido sem rumo pelo mundo, para nunca mais voltar, para não ter a certeza do seu fim, vagaria a esmo por aí, sozinho, sem procurar por conhecidos, esquecendo o passado como se esquece de fechar a porta por uma noite, meio displicentemente, mas não, eu não fui, não fui capaz, ou não consegui, não sei ao certo, sei apenas que fiquei, fiquei porque te amava (te amo ainda), porque tinha, mesmo que inocentemente, a esperança de que ainda fosse possível, de que você, de alguma forma milagrosa, conseguisse escapar, que você desse a volta por cima e se mantivesse com cor, com vida, que você não me deixasse só, que você não se apagasse.
Hoje tenho a nítida impressão de que sempre soube que isso aconteceria, de que fiquei com você apenas por já saber, por ter a certeza de que acabaria de alguma forma triste e banal (por que se apagar como você se apagou só pode ser classificado de banal, como é banal o fim da vida), não fosse assim eu não me deixaria envolver, fugiria como fugira até então. E me incomoda também saber que tudo aconteceria com você, que não seria eu o motivo de nossa separação, mas você, por isso aceitei, por isso fiquei até o fim como nunca havia ficado até então, por isso, acredito, te amei, porque se não te amasse não teria graça, não teria porque, de nada valeria toda essa epopéia dramática se eu não te amasse, e é então que sofro ainda mais.
Sofro pela certeza de ter amado, sinto em mim a dor de saber, desde o começo, que acabaria, que você se acabaria, e que eu ficaria aqui, assim, feito um narrador que conta uma história sabendo de antemão o rumo que ela seguirá, tendo a certeza de matar esse ou aquele personagem, fico aqui, eu, Carlos Henrique dos Santos, autor de você, mulher arco-íris, sabendo que seu fim era certo, que era fato, porque assim eu quero, porque assim o quis desde o princípio, porque assim acaba uma história triste: como a vida.


Carlos Henrique dos Santos
Maio de 2005.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

onde andará lívia b.?

para lívia b., é claro!
lívia b. lívia b. lívia b.!, onde andará você? saio de casa sob uma puta chuva e fico rodando pelo centro à procura de lívia b.: bares, livrarias, farmácias, padarias, lojas de roupa e restaurantes: nem sinal de lívia b. em nenhum desses lugares ah!, lívia b., onde andará você? meus pés doem, quero mijar, acendo um cigarro: outro outro outro, o tempo passa, me leva junto, eu vou, sigo-o: caminho caminho caminho, meu corpo parece de vidro, a cada passo sinto que algo em mim se parte, desliza, resvala por meu silêncio e desce pelo bueiro mais próximo; um beijo beijo beijo, quero um beijo de verdade em meus lábios, mas porra! lívia b.onde andará você? a noite cai sobre mim com força, pesa em meu coração a escuridão da sua ausência: caralho caralho caralho, pra onde ir?, em que rua dobrar?, a quem pedir informação?, sentado fico olhando o céu, uma estrela: outra outra outra, cochilo, minha cabeça tomba pro lado, acordo, minhas roupas continuam molhadas e meus pés não param de doer, tenho fome, como um sanduíche: mais um mais um mais um e uma cerveja: e outra e outra e outra; pego um ônibus, desço, fumo, entro num bar, mijo, no espelho sujo procuro resquícios de você em mim: lívia b. lívia b. lívia b., novamente na rua, cansado, minha cabeça dói, fecho os olhos l í v i a b. o n d e a n d a r á v o c ê ? é tudo que consigo pensar, acho que vou desistir, não sei mais o que faço, ando há horas atrás de uma mulher que nem sei se quer alguma coisa comigo, em geral elas apenas me usam & abusam da minha fragilidade, não me faço de vítima, não é isso, mas penso que a relação deva ser compartilhada e não dividida, não quero comer uma parte do bolo e deixar a outra para aquela que estiver junto a mim, quero poder comer o bolo junto, compartilhando-o, é isso, é simples, mas não não não, ficam sempre me dizendo que sou um cara complicado, que exijo muito, mas porra!, se me entrego muito tenho o direito de exigir muito, ou não? ?hei, você que tá aí me lendo, por acaso não viu nenhuma lívia b. passando por aí, não? começo a sentir frio com essas roupas molhadas, cada minuto que passa deixa meu corpo mais pesado: exausto! procuro um lugar qualquer para sentar, de longe avisto uma mulher atravessando a rua, levanto, corro: rápido rápido rápido, passo por entre carros & motos & ônibus, o sinal abre, ouço buzinas: maluco, viado, quer morrer!, gritam gritam gritam, continuo a correr, a mulher está mais perto: mais mais mais, já posso sentir seu cheiro: êpa!, páro, cansado, abaixo a cabeça: não não não, ainda não foi dessa vez, essa não é lívia b. deu na rádio nacional, deu no jb, deu na globo, deu na cbn, deu na veja, deu no new york times, deu na voz do brasil, deu no olé, deu no fígaro, deu na mec am, deu no sbt: lívia b. desapareceu!, ajudem a achar lívia b.! volto pra casa caminhando, o corpo em frangalhos, restos de mim vão ficando pelas ruas que passo, quero o cheiro de lívia b., quero o sorriso de lívia b., quero o gosto de lívia b., tudo que tenho são lembranças: saudade saudade saudade, tomo banho, choro: lágrimas lágrimas lágrimas, deito nu, olho o teto, desenho lívia b. nas sombras que entram pela janela e durmo: em meu sonho encontro um duende azul, ele me sorri sorri sorri, depois me pergunta em mandarim (e eu entendo) o que quero: respondo que quero lívia b., então ele me manda fechar os olhos: fecho; o sonho acaba, tenho medo de abrir os olhos e ver que estou só, alguém puxa minha coberta, meus olhos não se abrem: medo medo medo; ?lívia b. lívia b. lívia b., onde andará você? abro os olhos e vejo um beija-flor a meu lado: sorrio sorrio sorrio e o conto termina com lívia b. me beijando, assim:

carlos henrique dos santos. 04/01/06

sábado, 3 de julho de 2010

Exílio

Até hoje não sei se a decisão foi a mais correta, mas isso talvez eu nunca saiba, o que importa é que depois que vim para cá minha vida, se não melhorou, ao menos deixou de ser tão ruim como vinha sendo. Sei que tomar decisões precipitadas pode trazer conseqüências futuras prejudiciais, mas no estado em que me encontrava dificilmente conseguiria levar adiante minha existência, por conta disso, e da dor de assistir passo a passo à morte de M. foi que optei por me passar por louco até atingir a meta proposta, que era ser internado num hospital psiquiátrico, acreditando que dessa forma poderia me ver livre das dores que me atormentavam. No dia em que M. morreu eu estava no cinema, ver filmes foi meu primeiro passo rumo a fuga do mundo, passava, muitas vezes, a tarde toda e o início da noite assistido desde o lançamento cult do ano as mais bestas comédias adolescentes; quando cheguei em casa e recebi de minha mãe a notícia não fiz nada, sem conseguir sair de onde estava me pus a chorar feito uma criança que acaba de deixar seu doce cair e não consegue esboçar reação, minha mãe me deu um copo de água com açúcar e ficou me olhando, depois disse que eu devia ser forte para encarar a situação de frente, e que isso era o melhor para M., que já vinha sofrendo com seu câncer a mais de um ano. M. havia ficado internada os últimos três meses, eu a visitava muito pouco, não conseguia ficar olhando a mulher que amava naquele estado de degradação por mais de meia hora, ir ao hospital era um martírio para mim, saía de lá com uma vontade louca de morrer antes de M., não sabia se seria forte o bastante para “encarar a situação de frente”, como disse minha mãe, mas sabia que morrer antes de M. seria fazê-la sofrer ainda mais, se é que isso era possível. Três dias depois do enterro de M. saí de casa sem saber aonde ir, não queria mais ficar assistindo filmes a tarde toda, a motivação que minha credencial de crítico de cinema antes me dava ficou presa em algum canto do cemitério, até a semana anterior a da morte de M. eu fazia até dez críticas por semana, o que me valia uma boa quantia em dinheiro, mas com a qual eu não sabia o que fazer; no período em que M. esteve doente era possível encontrar críticas de filmes feitas por mim em mais de dez jornais nos mais diversos estados do Brasil, agora o que eu menos queria era sentar frente a um computador e escrever sobre filmes. Caminhei a esmo por entre esquinas sem nome e pessoas sem rosto, feito um cachorro perdido fui me deixando levar, visualizava o rosto de M. triste, deitado naquela cama olhando para mim como se soubesse que eu não seria forte o bastante para viver sem ela, fazia tempo que não falávamos sobre nosso futuro, desde o dia em que ela chegou em casa falando que ia morrer o futuro passou a ser uma palavra a menos em nosso dicionário, os planos de ter filhos que tanto nos acalentava foi se escondendo por entre bulas de remédio e idas freqüentes ao médico, o que antes eram as economias que proveriam o futuro de nosso filho agora escorriam de nossa conta bancária feito as lágrimas que eu deixava à noite no travesseiro. Quando começava a me cansar da caminhada foi que tive a idéia, dias antes de M. morrer eu lera uma reportagem sobre O Alienista de Machado enquanto esperava a hora do próximo filme, não sei porque, mas alguma coisa no texto me tocou de tal forma que ao chegar em casa corri à estante de livros e fui reler o conto, fazia tempo que não lia nada, a literatura passou a ser algo distante de mim, que não tinha mais a capacidade de me concentrar num livro sem pensar em M., cinco páginas era o máximo que podia suportar antes que as lágrimas começassem a correr por meu rosto movidas pela lembrança da faculdade de Letras que cursei com M. Machado sempre fora um dos nossos preferidos, chegamos a criar um grupo de estudos sobre ele com outras meninas de nossa turma e apresentamos alguns trabalhos, mas depois que parti para as críticas de cinema e M. foi fazer seu mestrado em literatura latino-americana deixamos alguns hábitos antigos_ como a leitura em conjunto dos autores que mais admirávamos_ para trás, mas nesse dia em que reli O Alienista a força da ironia machadiana, sua sutileza e acidez ao nos revelar as mazelas desse mundo me despertaram alguma coisa que na hora não fui capaz de perceber, e só enquanto parava para descansar da longa caminhada que havia feito foi que me dei conta do que Machado queria dizer, pelo menos para mim, com seu conto; cheguei a conclusão de que eu deveria fugir desse mundo, que nós, eu e o mundo, éramos incompatíveis, que um do dois deveria se render ao outro, e foi o que fiz. Na manhã seguinte dei o primeiro passo para minha fuga, acordei cedo e fiquei nu na varanda com uma foto de M. nas mãos gritando que a amava, meus pais acordaram assustados com o barulho e ficaram atônitos ao me ver, antes de me virar para eles ainda ouvi quando minha mãe falou: coitado, agora só falta pirar de vez. Com cara de criança carente me deixei ser levado ao quarto por meu pai, lá sentei na cama e comecei a chorar dizendo que estava com muitas saudades de M. e que queria logo ir visitá-la outra vez em sua nova casa, perguntei ao meu pai quando ela ligaria para mim dizendo se estava melhor e se eu já poderia ir vê-la, antes que ele pudesse responder levantei e fui à sala colocar uma música, ao som de um samba antigo dancei nu pela casa ante olhares irreconhecíveis de mamãe, que parecia não acreditar no que via; quando o samba acabou fui pro banheiro tomar banho, ao terminar disse que ia sair e que dormiria na casa de M. naquela noite, eles não precisavam me esperar para jantar, dei um beijo em minha mãe e saí cantando como se estivesse feliz da vida, foi difícil conseguir fingir felicidade quando meu corpo todo doía de saudades de M., mas tentei ser forte o bastante, pois naquele momento acreditava que minha única chance de continuar vivendo era dando um adeus ao mundo, e isso eu só achava ser possível indo viver num lugar onde nada lembrasse minha existência até ali. Uma semana depois meus pais me levaram para conversar com um médico amigo deles, me preparei o máximo que pude para dar a entender a ele que eu deveria ser internado por um tempo, e foi o que ele decidiu com meus pais enquanto eu esperava do lado de fora da sala reclamando com sua secretária que meus pais já estavam demorando muito e pedindo que ela os chamasse dizendo que eu ainda queria ir almoçar com M. naquele dia. Quando vim para cá, admito, tive alguns receios, lembrei de alguns filmes que mostravam os mau tratos a que eram submetidos os pacientes de hospitais desse tipo, mas como eu passava a maior parte do tempo dentro do meu quarto escrevendo ou vagando pelos jardins, pude perceber que enquanto agisse dessa forma estaria isento do verdadeiro tratamento que eles ofereciam a maioria dos internos. Amanhã faz um ano que M. morreu, todos os dias quando acordo ainda tenho a sensação de que ela está lá fora me esperando, que basta eu atravessar os portões e lá estará ela, linda com o vestido azul que lhe dei quando completou 25 anos, mas a ilusão dura pouco, e quando vejo a foto dela que mantenho pendurada ao lado da minha cama tenho certeza de que a morte não mata apenas a quem morre, mas também a quem ama o que morreu. Não tenho vontade de sair daqui, muito menos tenho sonhos ou esperanças, tudo isso morreu junto com M., o que ficou foi apenas essa encenação, esse fingir de louco para encontrar uma razão de viver.
Carlos Henrique dos Santos. 12/01/2005.

domingo, 6 de junho de 2010

Céu azul

Para Gisele Veiga, Virginia Navarro e Tailane.
Quero escrever, mas não sei sobre o que falar. Então olho o céu, gosto do azul que se abre feito uma espécie de mar sólido e nos envolve, camada infinita aos olhos. Olhos. Lembro dos olhos verdes de uma menina bonita. Penso como seria se o céu fosse verde, assim como seus olhos. Então escrevo: céu verde. Depois leio: céu verde. Assim crio a imagem mental de um céu verde. Da mesma forma que associo céu e mar, não apenas pelas cores, mas também pela maneira como os dois se constroem para mim em sua suposta infinitude, criando-me certo desejo de mergulho rumo ao vazio, ao nada preenchido de cor e desconhecido, também penso nos seus olhos como um espaço no qual possa mergulhar me distanciando do mundo, bem lentamente ir me deixando perder dentro de você; e ao escrever isso penso em sexo, na entrega total do momento, no ir, também, se deixando perder dentro do outro, mas não só o dentro do ato sexual em si, não apenas essa construção física e carnal da penetração, mas sim e também o se deixar levar pelo outro, o corpo e o desejo se encontrando aqui enquanto pólos catalisadores de nossas ânsias e frustrações, porque sexo é prazer a partir do momento em que se deposita e encontra nele uma forma de superar nosso desconhecido, que talvez por não se conhecer nos leve a sofrer a eterna dor da pergunta sem resposta que é a vida. O prazer sexual não pode ou deve se construir apenas fisicamente enquanto um ato de expelir um líquido e depois deixar o corpo se perder na modorra do relaxamento, não que isso não seja bom, pelo contrário, é isso que somado ao mergulho no interior de si e do outro na busca de se conhecer nosso desconhecido que faz desse simples e belo ato um dos momentos sublimes da vida. Sublimação. A palavra já carrega em seu cerne certa idéia de subida, de encontro com algo maior, que liberta, acalenta, conforta. Seu beijo faz isso comigo. Toco sua boca e sinto meu desejo de fuga de mim se acentuar, meu eu e meu corpo se dissociam ao encontrar a fina doçura de seus lábios. Me perco de mim ao procurar-me, dentro de você sou todo meu desejo de fuga e encontro, meu sonho acorda e diz bom dia antes de mim quando te beijo e assim penso viver uma eterna mentira disfarçada de verdade: delírio. As palavras se juntam a minha frente, fazem, antes de jorrar na tela em branco feito chuva de verão com seu ímpeto que mescla beleza e destruição, assemelhando-se assim a um triste poema de amor (frustrado), fruto das dores amargas da paixão, um redemoinho de idéias que dançam em meu inconsciente pedindo para sair, mas para aonde querem ir vocês palavras?, grito, mas elas parecem não ouvir, ou pior, não querer ouvir, e dessa forma ficam assim, se jogando a você leitor com desejo de serem lidas, querem, penso, dizer algo, mas se nem eu que as escrevo sei o que quero dizer, então como lidar com isso, com essa necessidade de falar, de pôr no papel letras que formam palavras que se estruturam em frases criando idéias que levarão, de alguma forma, depois, quando as leio, a mim mesmo? Cortázar dizia que o conto é como um nocaute na luta de boxe, causa certo impacto, o tal efeito único lá da teoria da literatura, esse impacto pega o leitor, suspende, deixa-o fora de si, nocauteado mesmo, já o romance seria aquele tipo de luta mais arrastado, que consome todo o tempo sendo ao fim decido seu vencedor na contagem de pontos de toda a luta. Podemos então, a partir disso, pensar a escrita enquanto uma luta, quase uma batalha que o escritor trava com palavras e idéias, sensações se misturam no dia a dia, ao longo da vida, nas leituras que se acumulam com o tempo, depois, na hora de sentar e escrever se inicia a luta, o texto que daí surgirá poderá suscitar no leitor tanto a alegria e júbilo da vitória quanto a dor e frustração da derrota, ao escritor sobra apenas a triste constatação que ainda não foi dessa vez, então surge a necessidade de uma outra luta, nova batalha se travará entre escritor e palavras na construção de um outro texto. Eu o que faço é juntar fragmentos de mim, as histórias que daí surgem é o caminho que percorro para dentro do meu eu, se as palavras saem, as significações entram, se acomodam e me dão outra visão de vida e mundo, assim, digamos que, dialeticamente, escritor/texto/leitor se encontram num mesmo espaço (o texto), mas partindo e chegando a pontos diferentes. Quando olho pela janela e vejo a chuva caindo não fico triste nem penso nela, as lágrimas que já verti outrora são agora pequenas partículas que mancham a tela do meu passado, não há verdes campos, sol, céu, mar, bosque ou felicidades líquidas; de fundo negro, com pequenos pontos branco espalhados aleatoriamente, e formando uma espécie de círculo, cápsula protetora do grande objeto iluminado que se coloca à direita de quem olha a tela, no meu passado ela é a lua que ilumina, à distância, inatingível no céu do que ficou para trás. Todos os meus amores se constroem e destroem com facilidade, talvez por isso me embebede com freqüência na busca de viver um eterno estado de fragilidade frente à vida, dessa forma me liberto com facilidade das dores. Fico olhando meus dedos se amarelarem por conta dos muitos cigarros que fumo antes de sair de casa, chove, meu corpo está cansado, não tenho fome, sede ou sonhos, tudo que me sobra são desejos de encontrar você. No ônibus vou desenhando sua boca no vidro embaçado das minhas lembranças, ontem liguei para o seu trabalho e você já havia saído, agora não sei para onde vou, quero apenas me afastar das perguntas sobre nosso futuro. Você e sua vida nada têm a ver comigo, sou um penetra na festa da sua felicidade, seu casamento, seus filhos, tudo fazem de mim um estorvo para você, mas quando te olho, quando sinto a doce maciez das suas mãos tocando meus cabelos, quando ouço sua voz murmurar do telefone da cozinha que me ama ama ama com toda sua força e que tem de desligar pois seu marido está na sala assistindo tv eu fecho os olhos e fico olhando para a tela do meu passado, assim acabo acreditando, mesmo sem querer, que talvez o filme se repita, que como ela você pode um dia ser apenas um tela na parede da minha memória. Faz tempo que não choro, dispo meus medos toda noite antes de dormir, assim acredito que no dia seguinte poderei acordar mais disposto para encarar o mundo e suas desilusões, mas nada muda, acordo com gosto amargo de ontem na boca, saio para trabalhar, falo oi tudo bem é beleza isso aí até mais valeu sorrio meu riso de misericórdia um tanto amarelado e parto à procura de um bar, é lá que ressuscito minhas mágoas já que afogá-las é o que faço no decorrer do dia. Penso em você mais do que deveria, a razão nem sempre é lá tão racional assim, dessa forma consumo minha existência hoje a ingerir lembranças de alguns poucos bons momentos. Quando te conheci àquela noite sentada à beira da rua num bar tomando cerveja com amigos senti um aperto forte no peito, bebia e sentia uma prazer ainda maior em cada gole de cerveja, descobri depois, já em casa olhando no espelho a procura de algum resquício seu em mim, que o prazer vinha da sua presença, seus silêncios, seu riso grande se abrindo feito flor na primavera, a melodia da sua voz, que nessa mesma noite e durante muitas outras se pôs a embalar meu sono. Culpado. Culpa. Desculpa. São palavras que não deveríamos pronunciar um pro outro, não somos culpados, não fizemos nada de errado, apenas nos apaixonamos, se há algum problema nisso ele reside no fato de você ser uma mulher casada. De resto o que fizemos foi deixar nossos sentimentos falarem, e é claro que me dói não ter você junto a mim a maior parte do tempo, assim como dói saber que outro homem te toca, te beija, te ama, é nessas horas que penso em jogar tudo pro alto e sumir deixando-te apenas com o sabor das recordações, mas não consigo, não ainda, então caminho sem rumo como agora, entro em algum ônibus e tento me desligar do mundo a minha volta querendo assim te esquecer e me esquecer de mim mesmo, de nós, do nosso amor e de toda dor que ele desencadeia em mim. Queria te ver, ouvir seu riso grande se abrindo, tocar seu rosto deslizando o dedo de sua testa até seu queixo passando por seu nariz, desenhando com minhas mãos seu rosto no imaginário que trago preso ao peito, depois beijar sua boca de leve e falar bem baixinho no seu ouvido que te amo te amo te amo imaginando que possa com essas palavras fazer com que meu amor fique ainda mais claro para você. Não sei se te ligo ou se ajo “normalmente” esperando que você ligue, não sei se choro ou fico em silêncio sentindo as horas deslizarem por mim, não sei se desço do ônibus ou fico aqui sentado olhando o vazio da cidade lá fora, não sei se bebo ou fumo, não sei se sorrio de tudo isso pensando que um dia eu vá conseguir viver sem você e olharei para trás apenas com um boa dose de saudade, não sei se devo ou não pedir outra vez que você se separe de seu marido e venha com seus filhos morar comigo, não sei, não sei, não sei! A escrita risca meu corpo e rabiscado sigo meu rumo incerto com passos cambaleantes pelos tortuosos caminhos que se constroem dia a dia a minha frente. As histórias que conto são fragmentos de vida disfarçados, com máscaras literárias vou desnudando meus medos, desejos concretos tenho apenas um, que todos os outros sejam abstratos, na escrita não me encontro, o que faço é ir me perdendo ainda mais de mim, assim penso que possa continuar vivendo com a sensação de não ser completo e continuar a montar pelas palavras o quebra-cabeças do meu eu. Dito isso, o conto se encerra.
Carlos Henrique dos Santos. 14/07/2006.

sábado, 29 de maio de 2010

decálogo para um amor quase perfeito ou é impossível ser feliz sem o silêncio

prólogo

não, não sei ao certo o que é amar.
1- quando me ponho assim a olhar seus olhos fechados enquanto tu dormes, nada mais se faz necessário a minha felicidade; hoje, nesse exato instante enquanto aprecio a beleza do seu silêncio, com esse agudo senso de solidão que me preenche e faz-me vazio ao mesmo tempo, dando a sensação (sublime!) de uma deliciosa angústia composta de receio e euforia, sinto-me extremamente feliz, porque é nesse silêncio de pálpebras cerradas que guardo o que sinto por você; assim como guardo uma peça de roupa antes de tê-la passado, displicentemente vou pondo-te para dentro de mim, vou guardando-te com seu silêncio no mais fundo do meu eu. é então que tenho a mais [plena] sensação de liberdade possível: a liberdade do sentimento.
2- gosto quando tu me olhas nua da porta do banheiro e pergunta se não quero tomar banho com você. sinto-me mais que imortal: sinto-me eu.
3- no sonho que tive ontem não conseguia distinguir seu rosto, mas sei que era você, impossível seria se não fosse, pois apenas você me olhava daquele jeito: assim meio tímida assim meio dissimulada. sabe, fico meio triste depois de acordar quando sonho esse tipo de sonho; porque nele nunca consigo ser feliz, o mesmo acontece aqui nesse real chamado vida, a felicidade pra mim se torna algo extremamente distante, da mesma forma que o sonho fica quando acordo no dia seguinte, a felicidade é apenas uma lembrança obscura e que nem sei mais se aconteceu mesmo ou não. no sonho você anda sem me olhar, passas por mim e segue em frente, feito a atriz daquele filme do carol reed você continua andando e sai de quadro, como a câmera que busca uma imagem fico à sua procura e o que encontro são apenas vultos, sombras; tento andar em sua direção mas não consigo, é impossível seguir, estou preso, estático feito uma pintura, sem movimento. posso apenas sentir sua presença, como quando estás distante [assim como nesse momento] a sensação que tenho é de que estás e não estás comigo ao mesmo tempo, fico ainda com um gosto de angústia nauseante na boca, o gosto da sua saudade, o gosto amargo da sua perda.
4- os olhos que vejo no espelho não parecem os meus sinto como se uma névoa os envolvesse a porta está fechada ou deveria estar não tenho certeza de mais nada a não ser que te amo te amo te amo fico repetindo sem conseguir controlar as palavras que saem da minha boca minha boca sua boca lembro de nosso primeiro beijo a garagem escura um cachorro sem rosto latindo não conseguíamos distingui-lo lembra? e ele lá nos olhando espreitando nosso primeiro beijo foi aquele cachorro vira - latas da sua prima quem presenciou um dos momentos mais magníficos da minha vida logo eu que sempre tive medo de cachorro fui encontrar num deles um aliado para os meus momentos de tristeza pois toda vez que lembro do beijo lembro também do cachorro sua boca minha boca e eu lá sentindo sua língua feito um pássaro preso tentando escapar e rodopiando de um lado para o outro dentro da minha boca e sem saber o que fazer eu ficava correndo atrás da sua língua com a minha querendo pegá-la prendê-la guardá-la só para mim e entre minhas pernas algo crescia e gritava vida vida vida antes de molhar-me a calça bem de leve assim como a primeira gota de um dilúvio de amor que viria me inundar de você.
5- gostava de dormir ouvindo você ler quintana pra mim, depois sonhava um sonho preto & branco com você dançando nua um tango do gardel, agora bebo café em demasia com medo de sonhar outra vez, durmo apenas quando o corpo, frágil demais, não resiste ao peso do sono e cai pro lado...
6- lembra do retrato que tiramos juntos no nosso primeiro natal? rasguei ontem.
7- seu som: engenheiros do havaí, radiohead, nirvana, sonic youth, pink floyd, the cramberries, pearl jam, black crowes, pato fú, violeta de outono, devotos do ódio, os replicantes, camisa de vênus, mutantes, ira!, los hermanos, sistem of a down, the cult, the cure, faith no more, weezer, pixies, the smiths, stone temple pilots, green day, bad religion, jane’s addiction, oasis, the smashing pumpkins, live, metalica, led zeppelin, the doors, iron maiden, frank zappa, secos e molhados, o terço, dinosaur jr, alice in chains, placebo, foo fighters, ramones, rancid, the clash, beck; meu silêncio e algumas palavras: um coração de papel se acaba em qualquer chuva de sentimentos, um coração de pedra dura mais que uma vida, dura um amor inteiro. eu duro o tempo que o silêncio percorre antes de encontrar o som. eu sou a flecha que rasga a noite escura, eu sou a meta que se atinge antes do fim, eu sou a boca que beija o vazio do seu sono, eu sou o gozo que te arrepia a pele, eu sou o doce que provas na felicidade, eu sou o riso que seca tua tristeza, eu sou o nada que tudo seria se nada fosse, eu. sou.
8- olho seus olhos como quem aprecia a profundidade de um abismo. me deixaria cair todo dentro deles, dentro de você; assim feito chuva de verão me atiraria com ímpeto e força sobre você, e quando percebesse já estaria toda inundada de mim. quando beijei o azul da sua boca descobri que ela é macia assim como o azul dos seus olhos, deu vontade de entrar neles para nunca mais sair.
9- porque ser feliz em algum momento machuca, dói, incomoda; porque a dor de perder a felicidade é imensa, e quando se perde a felicidade uma vez fica difícil querer ser feliz novamente.
10- deslizo minha mão por sua pele, sinto a maciez da sua beleza em meus dedos, sigo tateando cada recanto obscuro do seu corpo, te viro pelo avesso: dentro de você sou uma seta luminosa em noite escura, sou a morte à procura da vida, sou sono sem sonho, sou a paz na guerra, sou a boca que grita no silêncio da noite, sou a água que evita o incêndio, sou o vôo do pássaro sem asa, sou o beijo não dado na infância, sou o carinho que a mãe não fez, sou o futuro antes do presente, sou o desejo disfarçado de medo, sou o filho morto sem mãe, sou a queda antes da subida, sou o peso que não se sente, sou o azul do céu incolor, sou o silêncio da música que tu ouves. sua boca me encharca o desejo, por suas pernas caminho rumo ao infinito de você, antes que peças lhe dou, antes que seja somos; sugo dos seus seios a luz que ilumina meu caminho na escuridão, vou tirando, pouco a pouco, de dentro de você as partes que virão me preencher, gozo de amor é liberdade sem limites, é descontrole da razão, é fuga do absurdo, é silêncio de absoluto, é des-construção do eu, é você. epílogo no princípio era o verbo, e o verbo se fez corpo, e o corpo se fez homem, e o homem se fez eu, e o eu se fez amor, e o amor se fez você.

Carlos Henrique dos Santos. Setembro/Outubro de 2005.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Apenas Mais Uma História de Amor

O que é o amor pra você?
Ela me pergunta, mas não tenho coragem de responder. Fico em silêncio. Olho as folhas caídas pelo chão, lembro de um filme com o Orson Welles, essas árvores grandes que nos cercam, esse dia cinza (o filme era P&B), olho-a de lado, vejo seu queixo fino; sei a resposta, sei o que responder, mas não posso dizê-la. Não posso porque o amor não existe para que se possa defini-lo em palavras, o amor somos nós dois aqui, é a saudade que sinto quando ela vai embora, é a ânsia nas horas que passo esperando-a, são as lágrimas depois da briga, é a leveza que o corpo experimenta depois do amor, é a chuva que molha meu rosto quando volto para casa lembrando do seu sorriso, daí choro, choro um choro alegre e triste, o amor é o que sinto ao te olhar enquanto dormes, pensando que não seria feliz se não estivesse ali, naquele exato momento, enquanto você dorme, é isso o amor.
Você não vai responder?
E se você não me entender?, não posso, não consigo. Fico pensando em meu silêncio. O amor é assistir Acossado a teu lado e ficar te comparando com a Jean Seberg, é ver o quanto você é linda, sei que não tenho muito de Jean – Paul Belmondo (sou branco e baixo), mas toco os lábios com o polegar, faço-o correr da direita à esquerda e vou assim preenchendo o meu silêncio, e é desse mesmo silêncio que vejo a ascensão do nosso amor, é isso, mas não lhe digo.
Ela resmunga algo que não decifro.
Sinto-me um cego na corda bamba, um bêbado no meio fio, um louco na bolsa de valores, um vascaíno na Raça, um peixe na frigideira (ainda vivo), um pai amamentando, um suíço no Jacarezinho, um pássaro que voa sem asas, um escritor sem memória, sinto todo o meu silêncio gritando dentro de mim.
Ela não diz nada.
Penso se ela saberá responder o que é o amor, às vezes penso que na verdade não amamos ao outro, mas sim que amamos o que de nós está no outro, amamos aquilo que não somos capazes de ver em nós mesmos, daí usamos o outro como espelho, nos refletimos no outro, e é isso que amamos, esse nosso reflexo, mas se eu disser isso a ela, será que ela entenderá?
“O meu amor, tem um jeito manso que é só seu E que me deixa louca, quando me beija a boca E a minha pele toda fica arrepiada(...) "
Ela canta, posso imaginar seus olhos se enchendo de lágrimas, seus passos tornam-se mais firmes, ela soluça, eu tenho vontade de morrer, de sentir uma dor que me faça sofrer mais que ela, não a quero triste, quero ver seu sorriso, quero-a no meio de uma Avenida francesa com jornais na mão, olhando-me como se eu fosse o Belmondo, e sorrindo-me como se eu fosse uma câmera a lhe dar um close, não quero me inundar em seu choro, não chore, não chore porque eu te amo, mas não sai nada, estou mudo, estou surdo, tenho medo de estar ficando louco. Vejo-a levar à mão ao rosto, novo soluço. É... murmuro.
Ela pára.
Como no cinema vou ficando à sua frente, sinto-me uma câmera em movimento enquadrando seu rosto, seus olhos são o mar onde quero me afogar, penso e tenho medo de também chorar, ela me encara, seus olhos me perguntam O que é o amor? e eu vejo um caminhão vindo em minha direção e jogando-me pra cima, caio ali, à sua frente, naquela estrada de terra cercada de árvores, como naquele filme com o Orson Welles, em P&B como meus pensamentos, e então te respondo, como o Jean – Paul Belmondo responderia a Jean Seberg (passando antes o polegar pelos lábios, da direita para a esquerda).
Carlos Henrique dos Santos. 16/03/2004.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Reflexo do desejo ou que pena tudo ser apenas uma ilusão

Para uma moça bonita
A jovem pára frente ao espelho grande do banheiro e começa a se despir pensando que bem podia ser ele a despi-la, ele o jovem que a deseja e vem, insistentemente, dia a dia, declarando sua admiração e desejo por ela. Lentamente levanta a blusa branca que veste, tira-a pela cabeça e, enquanto o faz, fecha os olhos sentindo como se a boca do rapaz se aproximasse da sua e fosse, bem de leve, tocando seus lábios, um primeiro toque denso, repleto de medos e desejos guardados nas últimas semanas, ela sente como os lábios dele tateiam o seu, assim como um cego se põe a reconhecer uma superfície ainda não tocada por ele ela, a bela jovem de longos cabelos pretos, sente que os macios lábios do rapaz tateiam os seus também macios lábios de um jeito cego, tateante mas nem por isso menos saboroso. Em seguida, ainda de olhos fechados ela abre o fecho de seu sutiã como se fosse ele a abrir, de maneira um tanto desajeitada como é comum entre os homens ao se deparar com tão simples e complicado acessório feminino, agora os beijos dele, ela gostaria, tornam-se mais intensos, com leves mordidas que vão, assim como as cantadas e palavras lindas ditas por ele, num crescendo, tornando-se mais fortes, mais intensos e agressivos mas de uma agressividade sutil e delicada ao mesmo tempo, como a brincadeira de dois grandes felinos que, aos olhares humanos mais parecem uma briga não sendo nada mais que carinhosas expressões de amor, paixão ou qualquer outro sentimento confuso assim como a cabeça dessa linda jovem de nariz arrebitado tem andado nos últimos dez, onze dias, tempo que marca o desenvolver dessa tão estranha, aos olhos da jovem, relação. Será que posso chamar assim ela pensa enquanto as mãos passeiam por seus seios, uma para cada seio: a direita toca o mamilo esquerdo, operando em círculos seus dedos correm de um para outro lado, o contato da mão com o bico do seio lhe causa leves e deliciosos arrepios que, somados aos que sua mão esquerda desperta no bico do seio direito, a colocam num estado de êxtase intenso. Por um pequeno instante ela abre os olhos e vê refletida uma imagem que ousaria, pensa, definir como a imagem do prazer. Sim, para ela, nesse momento, nesses pequenos e já encerados momentos em que olha-se ao espelho e se vê nua da cintura pra cima com uma mão a tocar cada seio ela acredita que isso é desejo, é prazer, não tão somente por estar impregnada e mergulhada em desejo-prazer mas também por acreditar que o que se reflete não é apenas ela mas sim tudo que o jovem vem despertando nela, vem lhe atiçando: o desejo. Novamente de olhos fechado ela abre bem lentamente o zíper do short jeans que veste, um jeans azul escuro que em contato com sua pele branca torna ainda mais bela a cena: enquanto abre com a mão direita o short ela não se desgruda, com a esquerda, do seio, e assim ainda produz pequenos e ritmados movimentos que a arrepiam, mexe-se para que o short desça, sacode as pernas até que o mesmo fique perdido junto da blusa pelo chão, apenas de calcinha, uma calcinha rosa, um tanto infantil, ela sente como se o rapaz a surpreendesse por trás, então ele levanta seu cabelo, beija uma, duas, muitas vezes sua nuca, um beijo babado, molhado, lambido mesmo, em seguida desce por suas costas, vai até sua cintura e volta, marca o corpo da bela jovem com seus lábios, mapeia todo caminho que acredita ser de prazer, então sobe, chega à orelha da moça e lambe-a, lambuza-se e lambuza-a com seus beijos, ela sente quando a mão dele-dela invade de surpresa sua calcinha e toca seu sexo molhado, encharcado de desejo, assim como um mergulhador se joga no mar ele solta sua mão no sexo da jovem e deixa-a se perder, leve, solta feito o mergulhador no fundo do mar a mão dele-dela produz agora espasmos no corpo da jovem, ela sente as pernas tremerem, solta o seio e escora-se na parede para não cair, abre novamente os olhos e vê exatamente como vai, olhos cerrados, semi-abertos, boca também levemente aberta, deixando que seu corpo deslize ancorado na parede até chegar ao chão, então ela tira toda a calcinha e imagina que agora o rapaz começa a beijar-lhe os pés e inicia por eles um outro percurso por seu corpo-caminho, lentamente ele sobe pelas trilhas de suas pernas até encontrar novamente seu molhado sexo, ela quase geme tamanho o prazer que sente, sua mão direita massageia seu sexo enquanto a esquerda aperta com força seu seio direito, queria a boca do jovem ali agora, grudada na sua, mordendo-a com força, chamando-a de linda, gostosa, minha menina, minha linda e gostosa menina, assim ela o imagina sussurrar em seu ouvido antes de penetrá-la com força, tomando-a para si, fazendo dela seu objeto de desejo prazer, enquanto ela o faz de seu objeto de desejo prazer.

Carlos Henrique dos Santos. Abril de 2010.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

De Quando o Leão Invadiu o Paraíso

Para Tarsila, com um pedaço de saudade.

Naquele momento de nada mais adiantava amar, o espaço era grande demais para ser preenchido pelo amor, agora, só havia o leão e sua jaula; e nós, perdidos longe um do outro, iríamos sofrer com a invasão do paraíso. Você indo embora não imaginava o que viria a ocorrer, mas quando o leão surgiu pela primeira vez, no caminho da gula, eu sabia que ele iria nos pegar.
Você parece que também se deu conta disso, mas seu orgulho, ou o que quer que seja isso que você carrega no peito, te fez não me dar razão e ouvidos em minhas reclamações. Para você era normal a presença do leão desde que ele ficasse em seu lugar, apenas nos espreitando, apreciando sua(S) próxima presa, ponho esse S, pois eu também fui presa dele, não foi só você quem sofreu quando ele fugiu de sua jaula e nos atacou, pelo contrário, fui eu quem mais sentiu na pele a força destruidora do leão.
Quando ele adentrou em nosso espaço, no paraíso da nossa existência, eu já sabia que o pior iria acontecer.
Os leões não conhecem o amor, por isso fazem o que fazem com quem cai em suas garras. Sofrer pela perda do nosso paraíso me deixou assim, como estou agora, louco e triste pensando no passado; nesse passado onde o paraíso era nossa casa, era, porque depois veio o leão e acabou com nossa alegria, com a minha alegria, porque a sua ainda durou um certo tempo ao lado do leão.
O leão te tirou de mim e você aceitou isso, você foi com o leão, deixou apenas a jaula vazia para mim; uma grade começou então a nos manter separados, e até hoje nada pôde ser feito para nos manter juntos outra vez.
A jaula vazia me olhando, me fazendo lembrar de você. Eu sozinho no paraíso a espera de que você voltasse um dia. E você voltou, mas já não era mais a mesma coisa, já não era mais o nosso paraíso; agora havia aquele leão que invadiu nosso paraíso e devorou meu coração.
Não quero mais sofrer.
Vou ficar apenas com minha loucura na espera de que um dia o passado volte e me traga de volta a felicidade, a felicidade que o leão levou quando invadiu nosso paraíso.


Carlos Henrique dos Santos.
16/07/2003.
p.s. conto bem antigo, do início do meu "processo" de alguém que escreve. feito num momento de tristeza mas refletindo certa alegria. a dedicatória é da época e a mantenho aqui pois acredito que mesmo com o passar do tempo ela mantém certo caráter e identidade que o texto procura, à época de sua produção, construir.

sábado, 20 de março de 2010

No Picadeiro da Vida

O palhaço não está feliz.
Ele caminha pela rua com sua pasta de couro marrom, seu olhar sério fita o horizonte a sua frente, com passos duros o palhaço passa por mim e não me olha, muito menos me faz sorrir. O palhaço não deve mesmo estar feliz.
Assim como eu o palhaço deve ter um emprego e uma família a quem sustentar, talvez, também como eu, o palhaço não tenha pai, mãe ou qualquer outro parente a não ser sua mulher e filha, acredito ainda, que como eu, o palhaço foi um menino triste na infância daqueles que não sabia jogar futebol, bola de gude, rodar pião ou soltar cafifa e que depois, na adolescência, o palhaço era um desastre com as meninas, sempre se achando feio, assim como eu, o palhaço devia ser um jovem tímido que procurava se esconder por trás de algum subterfúgio seja ele uma roupa preta que procure denotar certo gosto musical ou mesmo jogos violentos nos quais o palhaço, como eu, matava com prazer todos os vilões que nos atormentavam dia a dia na escola e mais tarde no trabalho.
Acredito com sinceridade que o palhaço alimentou várias paixões impossíveis até encontrar num curso pré-vestibular à noite ou na oficina que cursou durante dois anos e meio para receber, numa tarde chuvosa de terça-feira como esta, seu diploma de palhaço a mulher com quem veio a se casar, mesmo sem ser ela o ideal de beleza que o palhaço alimento em sua puberdade, quando passava as noites vendo filmes de sacanagem na tv e correndo para o banheiro na ponta dos pés para que lá, no pequeno cômodo de sua casa onde ele se sentia mais livre, poder despejar na pia do lavatório ou no vaso sanitário, acontecendo de alguma vezes, quando seu desejo parecia maior e explodia em suas mãos antes mesmo que ele alcançasse o vaso ou a pia, de o palhaço ter que perder ainda alguns minutos a limpar o chão para que pela manhã sua mãe ou pai não vissem que o palhaço já era um homem, talvez nesse dia chuvoso em que recebeu seu certificado de palhaço o palhaço, quem sabe, tenha sorrido como sorriu, tenho certeza, no dia em que sua filha nasceu, é possível ver por trás do espelho que separa as crianças recém nascidas do mundo que as espera o olhar do palhaço que brilha feito lua em noite de verão, nesse dia o palhaço sorriu e também se embebedou, como tempos depois, não muito, antes mesmo de sua filha completar três anos, o palhaço passaria a fazer, todos os dias ao sair de casa para procurar emprego o palhaço corta caminho pelas ruas esburacadas e sujas do bairro em que mora para, antes de chegar ao ponto de ônibus, passar pelo boteco do seu Januário e tomar uma duas e algumas vezes até três doses de 51, bebida que o palhaço aprecia desde os tempos de jovem que se queria rebelde, mas no fundo era covarde e ia buscar, sem encontrar, no álcool momentos de evasão dos seus problemas nem tão grandes assim, o palhaço pode comprovar agora que está casado com uma filha para criar e sem ter emprego e comida que dê para o sustento dos três.
Vejo que como eu o palhaço é um homem triste daqueles que se fazem de durão e andam com passos duros e olhar sério fitando o horizonte que não vai além dos poucos metros que podemos ver a nossa frente ao andar na cidade, na verdade, assim como eu, o palhaço olha mais para dentro de si do que para o horizonte, e o que vemos, o palhaço e eu, é um buraco grande que parece se abrir cada dia mais ao constatarmos que nossas vidas se esgotarão antes mesmo que tenhamos tempo de ver nossas filhas crescerem, como o palhaço eu também tenho uma filha, sabemos, o palhaço e eu, que o tempo é algo fugaz, vazio, inconstante, e que por isso nossas existências são apenas pequenos fragmentos que talvez nem sirvam para montar esse grande quebra cabeças que é o mundo.
Talvez por isso o palhaço carregue em sua bolsa de couro marrom uma arma, assim como eu, e talvez, ainda, também como eu, o palhaço tenha em mente assaltar a loja de jóias que fica no centro comercial do centro da cidade, mas como sabe que há muitos seguranças no recinto o palhaço, assim como eu, pretende seguir a gerente da loja, a quem ele, assim como eu, já acompanha a algumas semanas e sabe de cor sua rotina, então vamos, o palhaço e eu, forjar um encontro casual com ela no meio da rua, o palhaço vestido de palhaço e eu como alguém que o auxilia quando ele passar mal, e juntos, o palhaço e eu, vamos pedir socorro a gerente da loja de jóias do centro comercial que fica no centro da cidade (seria isso o acaso?), e quando estivermos, o palhaço e eu, em seu carro é que vamos, juntos, o palhaço e eu, revelarmos nossas verdadeiras intenções, o problema é que, assim como eu, o palhaço não vai estar preparado para uma concorrência desse tipo, e tanto eu quanto o palhaço vamos ficar por alguns segundos meio atordoados com o inusitado da situação, e quando nos dermos conta, o palhaço e eu, iremos perceber que tiros já foram disparados, e sem saber ao certo quem foi atingido, a gerente da loja de jóias do centro comercial que fica no centro da cidade sairá correndo aproveitando-se da confusão em que o palhaço e eu nos metemos, e sem olhar para trás ela irá correr por cerca de uns quarenta cinqüenta metros até ser atingida por um disparo da arma do palhaço, mas por minhas mãos, já que o palhaço estará nesse momento caído entre o banco da parte traseira do carro e o chão, com os olhos meio turvos, uma lágrima a correr por sua face manchando assim sua maquiagem de palhaço, e como eu, o palhaço deve estar pensando como a vida é engraçada, por isso agora, nesse exato momento enquanto abro a porta do carro para fugir antes que a polícia se aproxime, vejo um sorriso se abrir no rosto manchado de sangue do palhaço que vai pouco a pouco fechando os olhos.

Carlos Henrique dos Santos.
29/08/2006.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Amores Irreversíveis - parte I

A mulher chora e com uma voz pesada que parece carregar todas as dores que o casal acumulou ao longo de cinco anos juntos diz que não merece isso, você não pode fazer isso comigo, por favor, não me deixe!, enquanto fala ela se aproxima do homem, ele fuma segurando o cigarro com a mão esquerda, alisa o cabelo e fica olhando para os lados e cuspindo após cada baforada que expele, a fumaça que o cigarro libera os envolve num clima filme noir. Um manto negro vai cobrindo o dia de noite, estrelas e lua dançam ao som das lágrimas que a mulher chora e vão pouco a pouco tomando conta do céu. O vento desalinha os cabelos dela, sua voz quase se perde em alguns momentos em meio ao zumbido dos carros que correm rumo ao infinito na estrada ao lado deles. O homem guarda seus medos no silêncio que oferece à mulher. Não quer falar, prefere o vazio às palavras que não acredita mais poder salvar a relação do fim certo. A mulher não aceita ser trocada pela liberdade, pela opção de escolha, pelo incerto do futuro. Quando criança ela acreditava que bastava rezar e agir de acordo com a ordem moral ditada pela igreja para que sua vida seguisse um bom caminho: marido, casa e filhos eram para ela o ponto culminante em sua escalada rumo à salvação pós-vida. Mas o tempo consumindo seus dias feito uma traça faminta a fez perceber que não seria assim tão fácil construir e sustentar esse edifício chamado vida. Com quarenta anos e solteira ela conheceu Pedro, a princípio relutou, mas acabou aceitando as investidas galantes do jovem de vinte e oito anos aspirante a pintor. Cinco meses depois estavam morando juntos na casa dela; todas as noites ela ainda rezava e agradecia a Deus a dádiva que ele a ofertara quando seus sonhos já não tinham mais cor. Então apareceu você e com as tintas da felicidade foi desenhando minha vida outra vez, riscou meu corpo de prazer, pintor da carne tirou de mim os traços de tristeza e velhice que começavam a querer emergir do fundo de mim e me fez mulher novamente, me encontrei em você, parei de rezar quando estávamos há três anos juntos, acreditava então que ser feliz era isso: ter você! Pedro pede que ela o solte, quer ir embora, acabou, você não consegue aceitar isso, hen?, desista de tentar achar motivos que possam nos fazer reatar, pra mim chega, dei tudo que podia, acreditei até o último momento, mas agora vejo que é impossível, aceite isso, o fim faz parte, é umas das conseqüências de todo início, tudo que começa um dia acaba, não poderia ser diferente com a gente, não tem porque ser diferente. Não, Pedro!, pra mim não é assim tão fácil, eu não consigo viver sem você, quando te conheci já com meus quarenta anos pensava que a vida não tinha mais nada a me oferecer, cansada da minha fé voltei a acreditar em Deus, você foi a luz que iluminou a noite em que tinha se tornado minha vida, chegar aos quarenta solteira e sem filhos numa família repleta de casamentos bem sucedidos não é fácil, ter de ouvir dos pais e irmãos que você escolheu demais por isso acabou assim dói, chega uma hora que você acaba topando qualquer coisa pra não se ver e se mostrar mais sozinha, mas aí você cansa, cansa porque espera algo sincero, não quer ir pra cama com qualquer um apenas pra acordar com a falsa sensação de alívio no dia seguinte, para os jovens é fácil ir a uma festa e ficar sem compromisso, mas quando se está com quarenta as coisas mudam, ou você assume uma postura que te dê respeito ou passa por velha safada que trepa com qualquer um. Ele acende outro cigarro e pensa no que fazer para ir logo embora, já está cansado desse debate arrastado que não os levará a lugar algum, está decidido a não ficar mais com ela, sente que a hora é essa, aos trinta e três anos não pode mais perder tempo, seu amor por ela acabou, escorreu feito tinta molhada numa tela, foi se apagando aos poucos, o tempo tem dessas coisas, vamos vivendo os dias encadeados uns nos outros sem nos darmos conta que ele está mesmo passando, então uma hora paramos e olhamos à nossa volta, só aí percebemos o que é a nossa vida, e ao se fazer uma espécie de auto-análise se constata que não se é feliz, por conta disso a necessidade de mudança aflora com força. Foi essa necessidade que Pedro sentiu quando conheceu Milena, no começo era apenas mais uma modelo que se ofereceu para ser pintada por ele, com o tempo, no entanto, olhar Milena durante duas, três horas seguidas criou nele uma outra necessidade: a de possuí-la. Aos trinta e três anos ele ainda se achava atraente a ponto de conquistar uma jovem de vinte anos, com malícia e charme ele foi desnudando a alma da menina como a desnudava antes de pintá-la, ela foi fisgada feito um peixe frágil ainda jovem que não conheceu certas artimanhas que o mundo reserva àqueles que mais tempo o conhecem. E assim ele conquistou Milena, tirou a moça do espaço pictórico de sua vida e a levou para o espaço carnal, desnudou não apenas sua aura de modelo, mas também todo seu belo corpo de menina. Branca como uma tela ainda virgem, esperando as tintas que lhe darão uma outra vida, Milena foi pintada pelo desejo de Pedro, com as cores quentes da sua volúpia ele rabiscou na moça os prazeres que o tempo foi acumulando dentro de si. Então amou outra vez. E por amar outra que não Ana Pedro chorou; suas lágrimas corriam por sua face inundando de tristeza seu olhar, afogado em meio a sua culpa Pedro decidiu que não podia mais ficar com Ana, Milena era o que queria, e com essa decisão tomada ele sentou-se à mesa da cozinha com sua velha caneca azul de café na mão acendeu um cigarro e disse pra Ana que a relação deles acabara, ele queria ficar só. Ana relutou em aceitar, disse que não, fez tudo que acreditava ser possível fazer, chorou e esperneou feito criança, bateu em Pedro, cuspiu em sua cara, perguntou quem era a puta que ele estava comendo, hen, fala, quem é a putinha?, Pedro mantinha seu silêncio como forma de se distanciar dela, pensava que falar apenas pioraria as coisas, queria ir embora o quanto antes, ficar sozinho para poder pensar e avaliar se havia decidido bem, mas ter Ana por perto dificultava as coisas, ele ainda gostava dela, o que ela não entendia era isso, o fato de terminar, de querer ficar só antes de talvez enveredar por outra relação com Milena não queria dizer que Pedro não gostasse mais de Ana, pelo contrário, ele a amava tanto que escolhia não trai-la, ficaria com Milena, mas não com as duas, o que, possivelmente, para Ana seria até mesmo uma opção. Na rua Ana pediu um cigarro a Pedro, ela que tanto reclamara durante cinco anos dos muitos cigarros que ele fumava não resistiu a tensão e acendeu um, olhava a fumaça de distanciar perdendo-se no céu e ficava pensando que Pedro também iria embora, que ele se perderia no mundo, seria para ela apenas uma lembrança, assim como aquela fumaça que saía do seu cigarro Pedro iria sumir, se acabaria; para ela, Ana, se tornaria um pequeno ponto brilhante num canto da memória que ficaria mais reluzente em noites solitárias, brilharia feito estrela cadente quando ela sentisse desejo e se perderia rapidamente ricocheteando em seu corpo sub a água fria de um banho. Pedro olha Ana bem nos olhos, ela abaixa a cabeça, sabe que ele vai embora, sabe que nada mais será dito, sabe que ficará só, que chorará quando chegar em casa, que não dormirá durante algumas noites, que sentirá saudades do corpo quente dele na cama, então se vira e caminha em direção à rua, ao movimento dos carros, Pedro apenas olha, pensa que ela vai embora magoada por isso não se despede, vira de costas e se põe a caminhar também, quando ouve o grito de Ana lhe chamando tenta não olhar, ela o chama uma, duas, três vezes, então Pedro olha, bem lentamente seu corpo vai se posicionando de frente para o lugar onde antes eles discutiam, ao completar o movimento ele percebe o que ela vai fazer, sua mente manda que ele corra, que a impeça de cometer tal ato, mas seu corpo está estático, como que paralisado de tanta vida, de tanta vontade de agir, de fazer alguma coisa que possa impedir Ana de andar em direção ao meio da estrada em que carros trafegam em alta velocidade, então fecha os olhos e ouve a canção que sua mãe cantava em sua infância (“dorme neném, que a cuca vai pegar, papai foi pra roça e mamãe foi trabalhar...”). Seu peito arde, sente uma vontade louca de fumar, enquanto corre não pode sentir suas pernas, o mundo balança a sua volta, o impacto dos seus pés batendo no chão o faz sentir-se vivo, um zumbido azucrinante tomou conta da rua, carros buzinam e o som das buzinas se mistura às muitas vozes que procuram compreender o que houve, olhos se arregalam olhando o corpo murcho de Ana no chão como se assim pudessem ver melhor o que é a morte, Pedro pensa que a vida é ar e que a morte nos esvazia, se ajoelha e com as mãos apertando o crânio deixa seus olhos pousarem em Ana, olha-a como da primeira vez que a viu imaginando como ficaria bem aquela mulher em uma pintura com seu corpo magro, de olhos pretos feito duas jabuticabas, cabelos lisos caindo por seus ombros feito uma queda de cachoeira, então chora, soluça sentindo as palavras se prenderem em sua garganta travando tudo que gostaria de ter dito a Ana nesses cinco anos e nunca fora capaz de falar. Levanta e acende um cigarro olhando o corpo de Ana espremido contra o asfalto, preso naquele pedaço escuro, silencioso, vazio de vida que recobre a terra, quer sair dali, correr para debaixo de uma coberta que o esconda do mundo, deitar no colo de sua mãe e pedir que ela lhe faça cafuné, depois dormir e se deixar perder em um sonho, andar pelas ruas descalço como quando era criança, olhar o céu azul e ficar imaginando o que há do outro lado daquela camada que parece tão fina, tão sensível como o rosto de Ana, agora banhado em sangue, sujo de morte. Pedro sente uma vontade louca de gritar, de mostrar a todos aqueles que olham Ana morta que a vida é isso: essa fragilidade, esse desejo incompleto, esse amor alucinante que transpassa o real, que envolve, que maltrata, machuca, faz doer, depois passa feito a nuvem no céu, levada pelo vento do tempo, assim foi com ele, amou tanto Ana, mas com o tempo foi percebendo e sentindo que ia acabar, que a vida é movimento e ele precisava se mexer, movimentar seus sentimentos, então amou Milena e foi vendo Ana se apagar, como uma pintura que vai desbotando pouco a pouco Ana foi perdendo espaço na vida dele, deixando de ser real para se tornar uma lembrança, apenas um resquício de memória que teima em permanecer vivo, e assim como um texto escrito ou uma tela pintada Ana depois de morta ganhou vida, transpôs a frágil e obscura linha que separa a obra de arte da vida, do mundo, se transfigurou, saiu da tela viva do cotidiano indo se fixar na tela morta do passado.

Carlos Henrique dos Santos. Novembro de 2006.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Sorriso verde de esperança

Para Bruna Dantas, que aceitou pular no abismo comigo.

do beijo, o recheio, é o pulo no abismo.


Ela diz que a idéia é um tanto absurda, mas aceitou sem relutar muito, bastaram alguns beijos e carinhos e euteamotanto pra que ela sorrisse e dissesse sim eu topo amanhã pela manhã pulamos do abismo.
Agora enquanto estamos nos preparando ela parece mais empolgada do que eu, corre toda serelepe de um para outro lado, arruma e desarruma bolsas e pastas dizendo que quer tudo em ordem na volta, segunda é dia de trabalhar, hoje é sábado, amanhã é dia de pular no abismo, e me sorri seu riso verde de esperança, enquanto eu me troco no canto do quarto olho pra estante e vejo Grande Sertão: Veredas, penso no nada, ela não pára, vezenquando me manda um beijinho, eu releio a dedicatória que pus no Anticristo que lhe dei de natal, sinto fome, mas não quero pular de barriga cheia.
Deito feliz por ela ter aceitado o convite, sei que não conseguirei dormir, então levanto e fico lendo A teus pés; quando dou por mim já é dia, dia de pular no abismo, vou ao banheiro, tomo um banho frio e ouço ela se levantar e ir preparar nosso chá de cogumelo, ela disse que não pularia se não tomasse seu chá matinal, saio do banho e a vejo linda sendo iluminada pela luz do sol, sua pele branca brilha, parece ser ela quem irradia toda aquela luz, sinto-me bem por poder pular no abismo com alguém assim como ela, com esse estilo de ser/viver.
Na cozinha ela me olha e sorri, tomamos nosso chá e enquanto me visto ela toma seu banho, peço para que ela não demore, porque quanto mais cedo se pula mais se sente o abismo; meia hora depois estamos prontos, a caminhada dura dez minutos, chegamos felizes, ela está empolgada, o que me deixa feliz, não seria bom pular sem vontade; mostro a ela o abismo, ela se diz encantada em poder me acompanhar nesse pulo, nos afastamos, trocamos alguns olhares e abraços, pergunto-a se tudo está pronto, ela diz que sim e sorri, então seguro em sua mão e corremos.

Carlos Henrique dos Santos.
12/04/2004.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Cinzas Sem Quarta

Terça-feira de carnaval e o homem aceita sair de mulher, liga para a irmã que o arruma e maquia, parece uma florzinha, murcha, do campo, desce as escadas de salto e mini-saia, top azul, turquesa, batom vermelho, cabelos presos num rabo-de-cavalo, parece a Malu Mader, alguém grita, ruas cheias, muita cerveja, um teco?, nem pensa, lança-perfume, hum!, ele dança, ele canta, ele rebola, ele ri, ele grita, ele peida, ele se excita com a loira(?) que lhe toca o pau, ele pula, ele sua, ele grita, ele olha o céu, ele pensa no pai, ele cai, ele levanta, ele sangra, mas só um pouquinho, ele pára num bar, ele mija, ele lava as mãos, o rosto, mas com cuidado para não borrar a maquiagem, ele bebe água da bica, ele solta os cabelos, ainda mais Malu, ele volta ao bloco e canta e dança e pula e grita e sua e rebola e rebola e cansa e pára e come e o bloco se dispersa e agora num clube qualquer, terça-feira de carnaval, noite alta, e ele lá, muita empolgação, um teco?, ele lá, muita empolgação, um teco?, e o baile acaba, na rua céu clareando, os pés doem, calos e bolhas, dois passos, sandálias, de altos saltos, na mão, decote grande, peitos à mostra, alguém passa e buzina, a calcinha lhe entra na bunda, antes de sentar no meio fio procura um relógio, não acha, ajeita o decote, seios duros e empinados, abre a bolsa e retira seu espelhinho, olhos nos olhos, cinzas sem quarta é o que ela vê, corpo cansado, indisposta, um táxi?, ah!, se fosse filme... maquiagem borrada, ruas vazias, pensa no mar, levanta, senta outra vez, pôe a bolsa no chão, olha o céu, deita a cabeça na bolsa e dorme pensando que bom seria se fosse homem.

Carlos Henrique dos Santos. 23/02/2004.