sábado, 30 de janeiro de 2010

Sorriso verde de esperança

Para Bruna Dantas, que aceitou pular no abismo comigo.

do beijo, o recheio, é o pulo no abismo.


Ela diz que a idéia é um tanto absurda, mas aceitou sem relutar muito, bastaram alguns beijos e carinhos e euteamotanto pra que ela sorrisse e dissesse sim eu topo amanhã pela manhã pulamos do abismo.
Agora enquanto estamos nos preparando ela parece mais empolgada do que eu, corre toda serelepe de um para outro lado, arruma e desarruma bolsas e pastas dizendo que quer tudo em ordem na volta, segunda é dia de trabalhar, hoje é sábado, amanhã é dia de pular no abismo, e me sorri seu riso verde de esperança, enquanto eu me troco no canto do quarto olho pra estante e vejo Grande Sertão: Veredas, penso no nada, ela não pára, vezenquando me manda um beijinho, eu releio a dedicatória que pus no Anticristo que lhe dei de natal, sinto fome, mas não quero pular de barriga cheia.
Deito feliz por ela ter aceitado o convite, sei que não conseguirei dormir, então levanto e fico lendo A teus pés; quando dou por mim já é dia, dia de pular no abismo, vou ao banheiro, tomo um banho frio e ouço ela se levantar e ir preparar nosso chá de cogumelo, ela disse que não pularia se não tomasse seu chá matinal, saio do banho e a vejo linda sendo iluminada pela luz do sol, sua pele branca brilha, parece ser ela quem irradia toda aquela luz, sinto-me bem por poder pular no abismo com alguém assim como ela, com esse estilo de ser/viver.
Na cozinha ela me olha e sorri, tomamos nosso chá e enquanto me visto ela toma seu banho, peço para que ela não demore, porque quanto mais cedo se pula mais se sente o abismo; meia hora depois estamos prontos, a caminhada dura dez minutos, chegamos felizes, ela está empolgada, o que me deixa feliz, não seria bom pular sem vontade; mostro a ela o abismo, ela se diz encantada em poder me acompanhar nesse pulo, nos afastamos, trocamos alguns olhares e abraços, pergunto-a se tudo está pronto, ela diz que sim e sorri, então seguro em sua mão e corremos.

Carlos Henrique dos Santos.
12/04/2004.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Cinzas Sem Quarta

Terça-feira de carnaval e o homem aceita sair de mulher, liga para a irmã que o arruma e maquia, parece uma florzinha, murcha, do campo, desce as escadas de salto e mini-saia, top azul, turquesa, batom vermelho, cabelos presos num rabo-de-cavalo, parece a Malu Mader, alguém grita, ruas cheias, muita cerveja, um teco?, nem pensa, lança-perfume, hum!, ele dança, ele canta, ele rebola, ele ri, ele grita, ele peida, ele se excita com a loira(?) que lhe toca o pau, ele pula, ele sua, ele grita, ele olha o céu, ele pensa no pai, ele cai, ele levanta, ele sangra, mas só um pouquinho, ele pára num bar, ele mija, ele lava as mãos, o rosto, mas com cuidado para não borrar a maquiagem, ele bebe água da bica, ele solta os cabelos, ainda mais Malu, ele volta ao bloco e canta e dança e pula e grita e sua e rebola e rebola e cansa e pára e come e o bloco se dispersa e agora num clube qualquer, terça-feira de carnaval, noite alta, e ele lá, muita empolgação, um teco?, ele lá, muita empolgação, um teco?, e o baile acaba, na rua céu clareando, os pés doem, calos e bolhas, dois passos, sandálias, de altos saltos, na mão, decote grande, peitos à mostra, alguém passa e buzina, a calcinha lhe entra na bunda, antes de sentar no meio fio procura um relógio, não acha, ajeita o decote, seios duros e empinados, abre a bolsa e retira seu espelhinho, olhos nos olhos, cinzas sem quarta é o que ela vê, corpo cansado, indisposta, um táxi?, ah!, se fosse filme... maquiagem borrada, ruas vazias, pensa no mar, levanta, senta outra vez, pôe a bolsa no chão, olha o céu, deita a cabeça na bolsa e dorme pensando que bom seria se fosse homem.

Carlos Henrique dos Santos. 23/02/2004.