quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Cinzas Sem Quarta

Terça-feira de carnaval e o homem aceita sair de mulher, liga para a irmã que o arruma e maquia, parece uma florzinha, murcha, do campo, desce as escadas de salto e mini-saia, top azul, turquesa, batom vermelho, cabelos presos num rabo-de-cavalo, parece a Malu Mader, alguém grita, ruas cheias, muita cerveja, um teco?, nem pensa, lança-perfume, hum!, ele dança, ele canta, ele rebola, ele ri, ele grita, ele peida, ele se excita com a loira(?) que lhe toca o pau, ele pula, ele sua, ele grita, ele olha o céu, ele pensa no pai, ele cai, ele levanta, ele sangra, mas só um pouquinho, ele pára num bar, ele mija, ele lava as mãos, o rosto, mas com cuidado para não borrar a maquiagem, ele bebe água da bica, ele solta os cabelos, ainda mais Malu, ele volta ao bloco e canta e dança e pula e grita e sua e rebola e rebola e cansa e pára e come e o bloco se dispersa e agora num clube qualquer, terça-feira de carnaval, noite alta, e ele lá, muita empolgação, um teco?, ele lá, muita empolgação, um teco?, e o baile acaba, na rua céu clareando, os pés doem, calos e bolhas, dois passos, sandálias, de altos saltos, na mão, decote grande, peitos à mostra, alguém passa e buzina, a calcinha lhe entra na bunda, antes de sentar no meio fio procura um relógio, não acha, ajeita o decote, seios duros e empinados, abre a bolsa e retira seu espelhinho, olhos nos olhos, cinzas sem quarta é o que ela vê, corpo cansado, indisposta, um táxi?, ah!, se fosse filme... maquiagem borrada, ruas vazias, pensa no mar, levanta, senta outra vez, pôe a bolsa no chão, olha o céu, deita a cabeça na bolsa e dorme pensando que bom seria se fosse homem.

Carlos Henrique dos Santos. 23/02/2004.

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