sábado, 20 de fevereiro de 2010

Amores Irreversíveis - parte I

A mulher chora e com uma voz pesada que parece carregar todas as dores que o casal acumulou ao longo de cinco anos juntos diz que não merece isso, você não pode fazer isso comigo, por favor, não me deixe!, enquanto fala ela se aproxima do homem, ele fuma segurando o cigarro com a mão esquerda, alisa o cabelo e fica olhando para os lados e cuspindo após cada baforada que expele, a fumaça que o cigarro libera os envolve num clima filme noir. Um manto negro vai cobrindo o dia de noite, estrelas e lua dançam ao som das lágrimas que a mulher chora e vão pouco a pouco tomando conta do céu. O vento desalinha os cabelos dela, sua voz quase se perde em alguns momentos em meio ao zumbido dos carros que correm rumo ao infinito na estrada ao lado deles. O homem guarda seus medos no silêncio que oferece à mulher. Não quer falar, prefere o vazio às palavras que não acredita mais poder salvar a relação do fim certo. A mulher não aceita ser trocada pela liberdade, pela opção de escolha, pelo incerto do futuro. Quando criança ela acreditava que bastava rezar e agir de acordo com a ordem moral ditada pela igreja para que sua vida seguisse um bom caminho: marido, casa e filhos eram para ela o ponto culminante em sua escalada rumo à salvação pós-vida. Mas o tempo consumindo seus dias feito uma traça faminta a fez perceber que não seria assim tão fácil construir e sustentar esse edifício chamado vida. Com quarenta anos e solteira ela conheceu Pedro, a princípio relutou, mas acabou aceitando as investidas galantes do jovem de vinte e oito anos aspirante a pintor. Cinco meses depois estavam morando juntos na casa dela; todas as noites ela ainda rezava e agradecia a Deus a dádiva que ele a ofertara quando seus sonhos já não tinham mais cor. Então apareceu você e com as tintas da felicidade foi desenhando minha vida outra vez, riscou meu corpo de prazer, pintor da carne tirou de mim os traços de tristeza e velhice que começavam a querer emergir do fundo de mim e me fez mulher novamente, me encontrei em você, parei de rezar quando estávamos há três anos juntos, acreditava então que ser feliz era isso: ter você! Pedro pede que ela o solte, quer ir embora, acabou, você não consegue aceitar isso, hen?, desista de tentar achar motivos que possam nos fazer reatar, pra mim chega, dei tudo que podia, acreditei até o último momento, mas agora vejo que é impossível, aceite isso, o fim faz parte, é umas das conseqüências de todo início, tudo que começa um dia acaba, não poderia ser diferente com a gente, não tem porque ser diferente. Não, Pedro!, pra mim não é assim tão fácil, eu não consigo viver sem você, quando te conheci já com meus quarenta anos pensava que a vida não tinha mais nada a me oferecer, cansada da minha fé voltei a acreditar em Deus, você foi a luz que iluminou a noite em que tinha se tornado minha vida, chegar aos quarenta solteira e sem filhos numa família repleta de casamentos bem sucedidos não é fácil, ter de ouvir dos pais e irmãos que você escolheu demais por isso acabou assim dói, chega uma hora que você acaba topando qualquer coisa pra não se ver e se mostrar mais sozinha, mas aí você cansa, cansa porque espera algo sincero, não quer ir pra cama com qualquer um apenas pra acordar com a falsa sensação de alívio no dia seguinte, para os jovens é fácil ir a uma festa e ficar sem compromisso, mas quando se está com quarenta as coisas mudam, ou você assume uma postura que te dê respeito ou passa por velha safada que trepa com qualquer um. Ele acende outro cigarro e pensa no que fazer para ir logo embora, já está cansado desse debate arrastado que não os levará a lugar algum, está decidido a não ficar mais com ela, sente que a hora é essa, aos trinta e três anos não pode mais perder tempo, seu amor por ela acabou, escorreu feito tinta molhada numa tela, foi se apagando aos poucos, o tempo tem dessas coisas, vamos vivendo os dias encadeados uns nos outros sem nos darmos conta que ele está mesmo passando, então uma hora paramos e olhamos à nossa volta, só aí percebemos o que é a nossa vida, e ao se fazer uma espécie de auto-análise se constata que não se é feliz, por conta disso a necessidade de mudança aflora com força. Foi essa necessidade que Pedro sentiu quando conheceu Milena, no começo era apenas mais uma modelo que se ofereceu para ser pintada por ele, com o tempo, no entanto, olhar Milena durante duas, três horas seguidas criou nele uma outra necessidade: a de possuí-la. Aos trinta e três anos ele ainda se achava atraente a ponto de conquistar uma jovem de vinte anos, com malícia e charme ele foi desnudando a alma da menina como a desnudava antes de pintá-la, ela foi fisgada feito um peixe frágil ainda jovem que não conheceu certas artimanhas que o mundo reserva àqueles que mais tempo o conhecem. E assim ele conquistou Milena, tirou a moça do espaço pictórico de sua vida e a levou para o espaço carnal, desnudou não apenas sua aura de modelo, mas também todo seu belo corpo de menina. Branca como uma tela ainda virgem, esperando as tintas que lhe darão uma outra vida, Milena foi pintada pelo desejo de Pedro, com as cores quentes da sua volúpia ele rabiscou na moça os prazeres que o tempo foi acumulando dentro de si. Então amou outra vez. E por amar outra que não Ana Pedro chorou; suas lágrimas corriam por sua face inundando de tristeza seu olhar, afogado em meio a sua culpa Pedro decidiu que não podia mais ficar com Ana, Milena era o que queria, e com essa decisão tomada ele sentou-se à mesa da cozinha com sua velha caneca azul de café na mão acendeu um cigarro e disse pra Ana que a relação deles acabara, ele queria ficar só. Ana relutou em aceitar, disse que não, fez tudo que acreditava ser possível fazer, chorou e esperneou feito criança, bateu em Pedro, cuspiu em sua cara, perguntou quem era a puta que ele estava comendo, hen, fala, quem é a putinha?, Pedro mantinha seu silêncio como forma de se distanciar dela, pensava que falar apenas pioraria as coisas, queria ir embora o quanto antes, ficar sozinho para poder pensar e avaliar se havia decidido bem, mas ter Ana por perto dificultava as coisas, ele ainda gostava dela, o que ela não entendia era isso, o fato de terminar, de querer ficar só antes de talvez enveredar por outra relação com Milena não queria dizer que Pedro não gostasse mais de Ana, pelo contrário, ele a amava tanto que escolhia não trai-la, ficaria com Milena, mas não com as duas, o que, possivelmente, para Ana seria até mesmo uma opção. Na rua Ana pediu um cigarro a Pedro, ela que tanto reclamara durante cinco anos dos muitos cigarros que ele fumava não resistiu a tensão e acendeu um, olhava a fumaça de distanciar perdendo-se no céu e ficava pensando que Pedro também iria embora, que ele se perderia no mundo, seria para ela apenas uma lembrança, assim como aquela fumaça que saía do seu cigarro Pedro iria sumir, se acabaria; para ela, Ana, se tornaria um pequeno ponto brilhante num canto da memória que ficaria mais reluzente em noites solitárias, brilharia feito estrela cadente quando ela sentisse desejo e se perderia rapidamente ricocheteando em seu corpo sub a água fria de um banho. Pedro olha Ana bem nos olhos, ela abaixa a cabeça, sabe que ele vai embora, sabe que nada mais será dito, sabe que ficará só, que chorará quando chegar em casa, que não dormirá durante algumas noites, que sentirá saudades do corpo quente dele na cama, então se vira e caminha em direção à rua, ao movimento dos carros, Pedro apenas olha, pensa que ela vai embora magoada por isso não se despede, vira de costas e se põe a caminhar também, quando ouve o grito de Ana lhe chamando tenta não olhar, ela o chama uma, duas, três vezes, então Pedro olha, bem lentamente seu corpo vai se posicionando de frente para o lugar onde antes eles discutiam, ao completar o movimento ele percebe o que ela vai fazer, sua mente manda que ele corra, que a impeça de cometer tal ato, mas seu corpo está estático, como que paralisado de tanta vida, de tanta vontade de agir, de fazer alguma coisa que possa impedir Ana de andar em direção ao meio da estrada em que carros trafegam em alta velocidade, então fecha os olhos e ouve a canção que sua mãe cantava em sua infância (“dorme neném, que a cuca vai pegar, papai foi pra roça e mamãe foi trabalhar...”). Seu peito arde, sente uma vontade louca de fumar, enquanto corre não pode sentir suas pernas, o mundo balança a sua volta, o impacto dos seus pés batendo no chão o faz sentir-se vivo, um zumbido azucrinante tomou conta da rua, carros buzinam e o som das buzinas se mistura às muitas vozes que procuram compreender o que houve, olhos se arregalam olhando o corpo murcho de Ana no chão como se assim pudessem ver melhor o que é a morte, Pedro pensa que a vida é ar e que a morte nos esvazia, se ajoelha e com as mãos apertando o crânio deixa seus olhos pousarem em Ana, olha-a como da primeira vez que a viu imaginando como ficaria bem aquela mulher em uma pintura com seu corpo magro, de olhos pretos feito duas jabuticabas, cabelos lisos caindo por seus ombros feito uma queda de cachoeira, então chora, soluça sentindo as palavras se prenderem em sua garganta travando tudo que gostaria de ter dito a Ana nesses cinco anos e nunca fora capaz de falar. Levanta e acende um cigarro olhando o corpo de Ana espremido contra o asfalto, preso naquele pedaço escuro, silencioso, vazio de vida que recobre a terra, quer sair dali, correr para debaixo de uma coberta que o esconda do mundo, deitar no colo de sua mãe e pedir que ela lhe faça cafuné, depois dormir e se deixar perder em um sonho, andar pelas ruas descalço como quando era criança, olhar o céu azul e ficar imaginando o que há do outro lado daquela camada que parece tão fina, tão sensível como o rosto de Ana, agora banhado em sangue, sujo de morte. Pedro sente uma vontade louca de gritar, de mostrar a todos aqueles que olham Ana morta que a vida é isso: essa fragilidade, esse desejo incompleto, esse amor alucinante que transpassa o real, que envolve, que maltrata, machuca, faz doer, depois passa feito a nuvem no céu, levada pelo vento do tempo, assim foi com ele, amou tanto Ana, mas com o tempo foi percebendo e sentindo que ia acabar, que a vida é movimento e ele precisava se mexer, movimentar seus sentimentos, então amou Milena e foi vendo Ana se apagar, como uma pintura que vai desbotando pouco a pouco Ana foi perdendo espaço na vida dele, deixando de ser real para se tornar uma lembrança, apenas um resquício de memória que teima em permanecer vivo, e assim como um texto escrito ou uma tela pintada Ana depois de morta ganhou vida, transpôs a frágil e obscura linha que separa a obra de arte da vida, do mundo, se transfigurou, saiu da tela viva do cotidiano indo se fixar na tela morta do passado.

Carlos Henrique dos Santos. Novembro de 2006.

Um comentário:

Capitu disse...

Poxa, eu não acredito no amor.