sábado, 20 de março de 2010

No Picadeiro da Vida

O palhaço não está feliz.
Ele caminha pela rua com sua pasta de couro marrom, seu olhar sério fita o horizonte a sua frente, com passos duros o palhaço passa por mim e não me olha, muito menos me faz sorrir. O palhaço não deve mesmo estar feliz.
Assim como eu o palhaço deve ter um emprego e uma família a quem sustentar, talvez, também como eu, o palhaço não tenha pai, mãe ou qualquer outro parente a não ser sua mulher e filha, acredito ainda, que como eu, o palhaço foi um menino triste na infância daqueles que não sabia jogar futebol, bola de gude, rodar pião ou soltar cafifa e que depois, na adolescência, o palhaço era um desastre com as meninas, sempre se achando feio, assim como eu, o palhaço devia ser um jovem tímido que procurava se esconder por trás de algum subterfúgio seja ele uma roupa preta que procure denotar certo gosto musical ou mesmo jogos violentos nos quais o palhaço, como eu, matava com prazer todos os vilões que nos atormentavam dia a dia na escola e mais tarde no trabalho.
Acredito com sinceridade que o palhaço alimentou várias paixões impossíveis até encontrar num curso pré-vestibular à noite ou na oficina que cursou durante dois anos e meio para receber, numa tarde chuvosa de terça-feira como esta, seu diploma de palhaço a mulher com quem veio a se casar, mesmo sem ser ela o ideal de beleza que o palhaço alimento em sua puberdade, quando passava as noites vendo filmes de sacanagem na tv e correndo para o banheiro na ponta dos pés para que lá, no pequeno cômodo de sua casa onde ele se sentia mais livre, poder despejar na pia do lavatório ou no vaso sanitário, acontecendo de alguma vezes, quando seu desejo parecia maior e explodia em suas mãos antes mesmo que ele alcançasse o vaso ou a pia, de o palhaço ter que perder ainda alguns minutos a limpar o chão para que pela manhã sua mãe ou pai não vissem que o palhaço já era um homem, talvez nesse dia chuvoso em que recebeu seu certificado de palhaço o palhaço, quem sabe, tenha sorrido como sorriu, tenho certeza, no dia em que sua filha nasceu, é possível ver por trás do espelho que separa as crianças recém nascidas do mundo que as espera o olhar do palhaço que brilha feito lua em noite de verão, nesse dia o palhaço sorriu e também se embebedou, como tempos depois, não muito, antes mesmo de sua filha completar três anos, o palhaço passaria a fazer, todos os dias ao sair de casa para procurar emprego o palhaço corta caminho pelas ruas esburacadas e sujas do bairro em que mora para, antes de chegar ao ponto de ônibus, passar pelo boteco do seu Januário e tomar uma duas e algumas vezes até três doses de 51, bebida que o palhaço aprecia desde os tempos de jovem que se queria rebelde, mas no fundo era covarde e ia buscar, sem encontrar, no álcool momentos de evasão dos seus problemas nem tão grandes assim, o palhaço pode comprovar agora que está casado com uma filha para criar e sem ter emprego e comida que dê para o sustento dos três.
Vejo que como eu o palhaço é um homem triste daqueles que se fazem de durão e andam com passos duros e olhar sério fitando o horizonte que não vai além dos poucos metros que podemos ver a nossa frente ao andar na cidade, na verdade, assim como eu, o palhaço olha mais para dentro de si do que para o horizonte, e o que vemos, o palhaço e eu, é um buraco grande que parece se abrir cada dia mais ao constatarmos que nossas vidas se esgotarão antes mesmo que tenhamos tempo de ver nossas filhas crescerem, como o palhaço eu também tenho uma filha, sabemos, o palhaço e eu, que o tempo é algo fugaz, vazio, inconstante, e que por isso nossas existências são apenas pequenos fragmentos que talvez nem sirvam para montar esse grande quebra cabeças que é o mundo.
Talvez por isso o palhaço carregue em sua bolsa de couro marrom uma arma, assim como eu, e talvez, ainda, também como eu, o palhaço tenha em mente assaltar a loja de jóias que fica no centro comercial do centro da cidade, mas como sabe que há muitos seguranças no recinto o palhaço, assim como eu, pretende seguir a gerente da loja, a quem ele, assim como eu, já acompanha a algumas semanas e sabe de cor sua rotina, então vamos, o palhaço e eu, forjar um encontro casual com ela no meio da rua, o palhaço vestido de palhaço e eu como alguém que o auxilia quando ele passar mal, e juntos, o palhaço e eu, vamos pedir socorro a gerente da loja de jóias do centro comercial que fica no centro da cidade (seria isso o acaso?), e quando estivermos, o palhaço e eu, em seu carro é que vamos, juntos, o palhaço e eu, revelarmos nossas verdadeiras intenções, o problema é que, assim como eu, o palhaço não vai estar preparado para uma concorrência desse tipo, e tanto eu quanto o palhaço vamos ficar por alguns segundos meio atordoados com o inusitado da situação, e quando nos dermos conta, o palhaço e eu, iremos perceber que tiros já foram disparados, e sem saber ao certo quem foi atingido, a gerente da loja de jóias do centro comercial que fica no centro da cidade sairá correndo aproveitando-se da confusão em que o palhaço e eu nos metemos, e sem olhar para trás ela irá correr por cerca de uns quarenta cinqüenta metros até ser atingida por um disparo da arma do palhaço, mas por minhas mãos, já que o palhaço estará nesse momento caído entre o banco da parte traseira do carro e o chão, com os olhos meio turvos, uma lágrima a correr por sua face manchando assim sua maquiagem de palhaço, e como eu, o palhaço deve estar pensando como a vida é engraçada, por isso agora, nesse exato momento enquanto abro a porta do carro para fugir antes que a polícia se aproxime, vejo um sorriso se abrir no rosto manchado de sangue do palhaço que vai pouco a pouco fechando os olhos.

Carlos Henrique dos Santos.
29/08/2006.

2 comentários:

bruna disse...

Foi um dos meus preferidos, não que eu tenha lido aqui ultimamente, estou tendo um bloqueio de leitura e um bloqueio de escrita, é complicado.
Tem uma escrita levemente dramática de como seria e é a situação do personagem, e aparentemente eu tenho uma queda pelo drama. Pelo meu ponto de vista tive essa impressão, na verdade. ^^

Lunna disse...

ah, esse você ja leu lá na sala. eu adooooooro seus textos *-* rs