quarta-feira, 12 de maio de 2010

Apenas Mais Uma História de Amor

O que é o amor pra você?
Ela me pergunta, mas não tenho coragem de responder. Fico em silêncio. Olho as folhas caídas pelo chão, lembro de um filme com o Orson Welles, essas árvores grandes que nos cercam, esse dia cinza (o filme era P&B), olho-a de lado, vejo seu queixo fino; sei a resposta, sei o que responder, mas não posso dizê-la. Não posso porque o amor não existe para que se possa defini-lo em palavras, o amor somos nós dois aqui, é a saudade que sinto quando ela vai embora, é a ânsia nas horas que passo esperando-a, são as lágrimas depois da briga, é a leveza que o corpo experimenta depois do amor, é a chuva que molha meu rosto quando volto para casa lembrando do seu sorriso, daí choro, choro um choro alegre e triste, o amor é o que sinto ao te olhar enquanto dormes, pensando que não seria feliz se não estivesse ali, naquele exato momento, enquanto você dorme, é isso o amor.
Você não vai responder?
E se você não me entender?, não posso, não consigo. Fico pensando em meu silêncio. O amor é assistir Acossado a teu lado e ficar te comparando com a Jean Seberg, é ver o quanto você é linda, sei que não tenho muito de Jean – Paul Belmondo (sou branco e baixo), mas toco os lábios com o polegar, faço-o correr da direita à esquerda e vou assim preenchendo o meu silêncio, e é desse mesmo silêncio que vejo a ascensão do nosso amor, é isso, mas não lhe digo.
Ela resmunga algo que não decifro.
Sinto-me um cego na corda bamba, um bêbado no meio fio, um louco na bolsa de valores, um vascaíno na Raça, um peixe na frigideira (ainda vivo), um pai amamentando, um suíço no Jacarezinho, um pássaro que voa sem asas, um escritor sem memória, sinto todo o meu silêncio gritando dentro de mim.
Ela não diz nada.
Penso se ela saberá responder o que é o amor, às vezes penso que na verdade não amamos ao outro, mas sim que amamos o que de nós está no outro, amamos aquilo que não somos capazes de ver em nós mesmos, daí usamos o outro como espelho, nos refletimos no outro, e é isso que amamos, esse nosso reflexo, mas se eu disser isso a ela, será que ela entenderá?
“O meu amor, tem um jeito manso que é só seu E que me deixa louca, quando me beija a boca E a minha pele toda fica arrepiada(...) "
Ela canta, posso imaginar seus olhos se enchendo de lágrimas, seus passos tornam-se mais firmes, ela soluça, eu tenho vontade de morrer, de sentir uma dor que me faça sofrer mais que ela, não a quero triste, quero ver seu sorriso, quero-a no meio de uma Avenida francesa com jornais na mão, olhando-me como se eu fosse o Belmondo, e sorrindo-me como se eu fosse uma câmera a lhe dar um close, não quero me inundar em seu choro, não chore, não chore porque eu te amo, mas não sai nada, estou mudo, estou surdo, tenho medo de estar ficando louco. Vejo-a levar à mão ao rosto, novo soluço. É... murmuro.
Ela pára.
Como no cinema vou ficando à sua frente, sinto-me uma câmera em movimento enquadrando seu rosto, seus olhos são o mar onde quero me afogar, penso e tenho medo de também chorar, ela me encara, seus olhos me perguntam O que é o amor? e eu vejo um caminhão vindo em minha direção e jogando-me pra cima, caio ali, à sua frente, naquela estrada de terra cercada de árvores, como naquele filme com o Orson Welles, em P&B como meus pensamentos, e então te respondo, como o Jean – Paul Belmondo responderia a Jean Seberg (passando antes o polegar pelos lábios, da direita para a esquerda).
Carlos Henrique dos Santos. 16/03/2004.