sábado, 29 de maio de 2010

decálogo para um amor quase perfeito ou é impossível ser feliz sem o silêncio

prólogo

não, não sei ao certo o que é amar.
1- quando me ponho assim a olhar seus olhos fechados enquanto tu dormes, nada mais se faz necessário a minha felicidade; hoje, nesse exato instante enquanto aprecio a beleza do seu silêncio, com esse agudo senso de solidão que me preenche e faz-me vazio ao mesmo tempo, dando a sensação (sublime!) de uma deliciosa angústia composta de receio e euforia, sinto-me extremamente feliz, porque é nesse silêncio de pálpebras cerradas que guardo o que sinto por você; assim como guardo uma peça de roupa antes de tê-la passado, displicentemente vou pondo-te para dentro de mim, vou guardando-te com seu silêncio no mais fundo do meu eu. é então que tenho a mais [plena] sensação de liberdade possível: a liberdade do sentimento.
2- gosto quando tu me olhas nua da porta do banheiro e pergunta se não quero tomar banho com você. sinto-me mais que imortal: sinto-me eu.
3- no sonho que tive ontem não conseguia distinguir seu rosto, mas sei que era você, impossível seria se não fosse, pois apenas você me olhava daquele jeito: assim meio tímida assim meio dissimulada. sabe, fico meio triste depois de acordar quando sonho esse tipo de sonho; porque nele nunca consigo ser feliz, o mesmo acontece aqui nesse real chamado vida, a felicidade pra mim se torna algo extremamente distante, da mesma forma que o sonho fica quando acordo no dia seguinte, a felicidade é apenas uma lembrança obscura e que nem sei mais se aconteceu mesmo ou não. no sonho você anda sem me olhar, passas por mim e segue em frente, feito a atriz daquele filme do carol reed você continua andando e sai de quadro, como a câmera que busca uma imagem fico à sua procura e o que encontro são apenas vultos, sombras; tento andar em sua direção mas não consigo, é impossível seguir, estou preso, estático feito uma pintura, sem movimento. posso apenas sentir sua presença, como quando estás distante [assim como nesse momento] a sensação que tenho é de que estás e não estás comigo ao mesmo tempo, fico ainda com um gosto de angústia nauseante na boca, o gosto da sua saudade, o gosto amargo da sua perda.
4- os olhos que vejo no espelho não parecem os meus sinto como se uma névoa os envolvesse a porta está fechada ou deveria estar não tenho certeza de mais nada a não ser que te amo te amo te amo fico repetindo sem conseguir controlar as palavras que saem da minha boca minha boca sua boca lembro de nosso primeiro beijo a garagem escura um cachorro sem rosto latindo não conseguíamos distingui-lo lembra? e ele lá nos olhando espreitando nosso primeiro beijo foi aquele cachorro vira - latas da sua prima quem presenciou um dos momentos mais magníficos da minha vida logo eu que sempre tive medo de cachorro fui encontrar num deles um aliado para os meus momentos de tristeza pois toda vez que lembro do beijo lembro também do cachorro sua boca minha boca e eu lá sentindo sua língua feito um pássaro preso tentando escapar e rodopiando de um lado para o outro dentro da minha boca e sem saber o que fazer eu ficava correndo atrás da sua língua com a minha querendo pegá-la prendê-la guardá-la só para mim e entre minhas pernas algo crescia e gritava vida vida vida antes de molhar-me a calça bem de leve assim como a primeira gota de um dilúvio de amor que viria me inundar de você.
5- gostava de dormir ouvindo você ler quintana pra mim, depois sonhava um sonho preto & branco com você dançando nua um tango do gardel, agora bebo café em demasia com medo de sonhar outra vez, durmo apenas quando o corpo, frágil demais, não resiste ao peso do sono e cai pro lado...
6- lembra do retrato que tiramos juntos no nosso primeiro natal? rasguei ontem.
7- seu som: engenheiros do havaí, radiohead, nirvana, sonic youth, pink floyd, the cramberries, pearl jam, black crowes, pato fú, violeta de outono, devotos do ódio, os replicantes, camisa de vênus, mutantes, ira!, los hermanos, sistem of a down, the cult, the cure, faith no more, weezer, pixies, the smiths, stone temple pilots, green day, bad religion, jane’s addiction, oasis, the smashing pumpkins, live, metalica, led zeppelin, the doors, iron maiden, frank zappa, secos e molhados, o terço, dinosaur jr, alice in chains, placebo, foo fighters, ramones, rancid, the clash, beck; meu silêncio e algumas palavras: um coração de papel se acaba em qualquer chuva de sentimentos, um coração de pedra dura mais que uma vida, dura um amor inteiro. eu duro o tempo que o silêncio percorre antes de encontrar o som. eu sou a flecha que rasga a noite escura, eu sou a meta que se atinge antes do fim, eu sou a boca que beija o vazio do seu sono, eu sou o gozo que te arrepia a pele, eu sou o doce que provas na felicidade, eu sou o riso que seca tua tristeza, eu sou o nada que tudo seria se nada fosse, eu. sou.
8- olho seus olhos como quem aprecia a profundidade de um abismo. me deixaria cair todo dentro deles, dentro de você; assim feito chuva de verão me atiraria com ímpeto e força sobre você, e quando percebesse já estaria toda inundada de mim. quando beijei o azul da sua boca descobri que ela é macia assim como o azul dos seus olhos, deu vontade de entrar neles para nunca mais sair.
9- porque ser feliz em algum momento machuca, dói, incomoda; porque a dor de perder a felicidade é imensa, e quando se perde a felicidade uma vez fica difícil querer ser feliz novamente.
10- deslizo minha mão por sua pele, sinto a maciez da sua beleza em meus dedos, sigo tateando cada recanto obscuro do seu corpo, te viro pelo avesso: dentro de você sou uma seta luminosa em noite escura, sou a morte à procura da vida, sou sono sem sonho, sou a paz na guerra, sou a boca que grita no silêncio da noite, sou a água que evita o incêndio, sou o vôo do pássaro sem asa, sou o beijo não dado na infância, sou o carinho que a mãe não fez, sou o futuro antes do presente, sou o desejo disfarçado de medo, sou o filho morto sem mãe, sou a queda antes da subida, sou o peso que não se sente, sou o azul do céu incolor, sou o silêncio da música que tu ouves. sua boca me encharca o desejo, por suas pernas caminho rumo ao infinito de você, antes que peças lhe dou, antes que seja somos; sugo dos seus seios a luz que ilumina meu caminho na escuridão, vou tirando, pouco a pouco, de dentro de você as partes que virão me preencher, gozo de amor é liberdade sem limites, é descontrole da razão, é fuga do absurdo, é silêncio de absoluto, é des-construção do eu, é você. epílogo no princípio era o verbo, e o verbo se fez corpo, e o corpo se fez homem, e o homem se fez eu, e o eu se fez amor, e o amor se fez você.

Carlos Henrique dos Santos. Setembro/Outubro de 2005.

Um comentário:

a_rosa disse...

valeu a pena ler os dez, mas meu preferido foi o quarto. :D

uma frase vai ficar em mim: "a mais [plena] sensação de liberdade possível: a liberdade do sentimento."