domingo, 6 de junho de 2010

Céu azul

Para Gisele Veiga, Virginia Navarro e Tailane.
Quero escrever, mas não sei sobre o que falar. Então olho o céu, gosto do azul que se abre feito uma espécie de mar sólido e nos envolve, camada infinita aos olhos. Olhos. Lembro dos olhos verdes de uma menina bonita. Penso como seria se o céu fosse verde, assim como seus olhos. Então escrevo: céu verde. Depois leio: céu verde. Assim crio a imagem mental de um céu verde. Da mesma forma que associo céu e mar, não apenas pelas cores, mas também pela maneira como os dois se constroem para mim em sua suposta infinitude, criando-me certo desejo de mergulho rumo ao vazio, ao nada preenchido de cor e desconhecido, também penso nos seus olhos como um espaço no qual possa mergulhar me distanciando do mundo, bem lentamente ir me deixando perder dentro de você; e ao escrever isso penso em sexo, na entrega total do momento, no ir, também, se deixando perder dentro do outro, mas não só o dentro do ato sexual em si, não apenas essa construção física e carnal da penetração, mas sim e também o se deixar levar pelo outro, o corpo e o desejo se encontrando aqui enquanto pólos catalisadores de nossas ânsias e frustrações, porque sexo é prazer a partir do momento em que se deposita e encontra nele uma forma de superar nosso desconhecido, que talvez por não se conhecer nos leve a sofrer a eterna dor da pergunta sem resposta que é a vida. O prazer sexual não pode ou deve se construir apenas fisicamente enquanto um ato de expelir um líquido e depois deixar o corpo se perder na modorra do relaxamento, não que isso não seja bom, pelo contrário, é isso que somado ao mergulho no interior de si e do outro na busca de se conhecer nosso desconhecido que faz desse simples e belo ato um dos momentos sublimes da vida. Sublimação. A palavra já carrega em seu cerne certa idéia de subida, de encontro com algo maior, que liberta, acalenta, conforta. Seu beijo faz isso comigo. Toco sua boca e sinto meu desejo de fuga de mim se acentuar, meu eu e meu corpo se dissociam ao encontrar a fina doçura de seus lábios. Me perco de mim ao procurar-me, dentro de você sou todo meu desejo de fuga e encontro, meu sonho acorda e diz bom dia antes de mim quando te beijo e assim penso viver uma eterna mentira disfarçada de verdade: delírio. As palavras se juntam a minha frente, fazem, antes de jorrar na tela em branco feito chuva de verão com seu ímpeto que mescla beleza e destruição, assemelhando-se assim a um triste poema de amor (frustrado), fruto das dores amargas da paixão, um redemoinho de idéias que dançam em meu inconsciente pedindo para sair, mas para aonde querem ir vocês palavras?, grito, mas elas parecem não ouvir, ou pior, não querer ouvir, e dessa forma ficam assim, se jogando a você leitor com desejo de serem lidas, querem, penso, dizer algo, mas se nem eu que as escrevo sei o que quero dizer, então como lidar com isso, com essa necessidade de falar, de pôr no papel letras que formam palavras que se estruturam em frases criando idéias que levarão, de alguma forma, depois, quando as leio, a mim mesmo? Cortázar dizia que o conto é como um nocaute na luta de boxe, causa certo impacto, o tal efeito único lá da teoria da literatura, esse impacto pega o leitor, suspende, deixa-o fora de si, nocauteado mesmo, já o romance seria aquele tipo de luta mais arrastado, que consome todo o tempo sendo ao fim decido seu vencedor na contagem de pontos de toda a luta. Podemos então, a partir disso, pensar a escrita enquanto uma luta, quase uma batalha que o escritor trava com palavras e idéias, sensações se misturam no dia a dia, ao longo da vida, nas leituras que se acumulam com o tempo, depois, na hora de sentar e escrever se inicia a luta, o texto que daí surgirá poderá suscitar no leitor tanto a alegria e júbilo da vitória quanto a dor e frustração da derrota, ao escritor sobra apenas a triste constatação que ainda não foi dessa vez, então surge a necessidade de uma outra luta, nova batalha se travará entre escritor e palavras na construção de um outro texto. Eu o que faço é juntar fragmentos de mim, as histórias que daí surgem é o caminho que percorro para dentro do meu eu, se as palavras saem, as significações entram, se acomodam e me dão outra visão de vida e mundo, assim, digamos que, dialeticamente, escritor/texto/leitor se encontram num mesmo espaço (o texto), mas partindo e chegando a pontos diferentes. Quando olho pela janela e vejo a chuva caindo não fico triste nem penso nela, as lágrimas que já verti outrora são agora pequenas partículas que mancham a tela do meu passado, não há verdes campos, sol, céu, mar, bosque ou felicidades líquidas; de fundo negro, com pequenos pontos branco espalhados aleatoriamente, e formando uma espécie de círculo, cápsula protetora do grande objeto iluminado que se coloca à direita de quem olha a tela, no meu passado ela é a lua que ilumina, à distância, inatingível no céu do que ficou para trás. Todos os meus amores se constroem e destroem com facilidade, talvez por isso me embebede com freqüência na busca de viver um eterno estado de fragilidade frente à vida, dessa forma me liberto com facilidade das dores. Fico olhando meus dedos se amarelarem por conta dos muitos cigarros que fumo antes de sair de casa, chove, meu corpo está cansado, não tenho fome, sede ou sonhos, tudo que me sobra são desejos de encontrar você. No ônibus vou desenhando sua boca no vidro embaçado das minhas lembranças, ontem liguei para o seu trabalho e você já havia saído, agora não sei para onde vou, quero apenas me afastar das perguntas sobre nosso futuro. Você e sua vida nada têm a ver comigo, sou um penetra na festa da sua felicidade, seu casamento, seus filhos, tudo fazem de mim um estorvo para você, mas quando te olho, quando sinto a doce maciez das suas mãos tocando meus cabelos, quando ouço sua voz murmurar do telefone da cozinha que me ama ama ama com toda sua força e que tem de desligar pois seu marido está na sala assistindo tv eu fecho os olhos e fico olhando para a tela do meu passado, assim acabo acreditando, mesmo sem querer, que talvez o filme se repita, que como ela você pode um dia ser apenas um tela na parede da minha memória. Faz tempo que não choro, dispo meus medos toda noite antes de dormir, assim acredito que no dia seguinte poderei acordar mais disposto para encarar o mundo e suas desilusões, mas nada muda, acordo com gosto amargo de ontem na boca, saio para trabalhar, falo oi tudo bem é beleza isso aí até mais valeu sorrio meu riso de misericórdia um tanto amarelado e parto à procura de um bar, é lá que ressuscito minhas mágoas já que afogá-las é o que faço no decorrer do dia. Penso em você mais do que deveria, a razão nem sempre é lá tão racional assim, dessa forma consumo minha existência hoje a ingerir lembranças de alguns poucos bons momentos. Quando te conheci àquela noite sentada à beira da rua num bar tomando cerveja com amigos senti um aperto forte no peito, bebia e sentia uma prazer ainda maior em cada gole de cerveja, descobri depois, já em casa olhando no espelho a procura de algum resquício seu em mim, que o prazer vinha da sua presença, seus silêncios, seu riso grande se abrindo feito flor na primavera, a melodia da sua voz, que nessa mesma noite e durante muitas outras se pôs a embalar meu sono. Culpado. Culpa. Desculpa. São palavras que não deveríamos pronunciar um pro outro, não somos culpados, não fizemos nada de errado, apenas nos apaixonamos, se há algum problema nisso ele reside no fato de você ser uma mulher casada. De resto o que fizemos foi deixar nossos sentimentos falarem, e é claro que me dói não ter você junto a mim a maior parte do tempo, assim como dói saber que outro homem te toca, te beija, te ama, é nessas horas que penso em jogar tudo pro alto e sumir deixando-te apenas com o sabor das recordações, mas não consigo, não ainda, então caminho sem rumo como agora, entro em algum ônibus e tento me desligar do mundo a minha volta querendo assim te esquecer e me esquecer de mim mesmo, de nós, do nosso amor e de toda dor que ele desencadeia em mim. Queria te ver, ouvir seu riso grande se abrindo, tocar seu rosto deslizando o dedo de sua testa até seu queixo passando por seu nariz, desenhando com minhas mãos seu rosto no imaginário que trago preso ao peito, depois beijar sua boca de leve e falar bem baixinho no seu ouvido que te amo te amo te amo imaginando que possa com essas palavras fazer com que meu amor fique ainda mais claro para você. Não sei se te ligo ou se ajo “normalmente” esperando que você ligue, não sei se choro ou fico em silêncio sentindo as horas deslizarem por mim, não sei se desço do ônibus ou fico aqui sentado olhando o vazio da cidade lá fora, não sei se bebo ou fumo, não sei se sorrio de tudo isso pensando que um dia eu vá conseguir viver sem você e olharei para trás apenas com um boa dose de saudade, não sei se devo ou não pedir outra vez que você se separe de seu marido e venha com seus filhos morar comigo, não sei, não sei, não sei! A escrita risca meu corpo e rabiscado sigo meu rumo incerto com passos cambaleantes pelos tortuosos caminhos que se constroem dia a dia a minha frente. As histórias que conto são fragmentos de vida disfarçados, com máscaras literárias vou desnudando meus medos, desejos concretos tenho apenas um, que todos os outros sejam abstratos, na escrita não me encontro, o que faço é ir me perdendo ainda mais de mim, assim penso que possa continuar vivendo com a sensação de não ser completo e continuar a montar pelas palavras o quebra-cabeças do meu eu. Dito isso, o conto se encerra.
Carlos Henrique dos Santos. 14/07/2006.