sábado, 3 de julho de 2010

Exílio

Até hoje não sei se a decisão foi a mais correta, mas isso talvez eu nunca saiba, o que importa é que depois que vim para cá minha vida, se não melhorou, ao menos deixou de ser tão ruim como vinha sendo. Sei que tomar decisões precipitadas pode trazer conseqüências futuras prejudiciais, mas no estado em que me encontrava dificilmente conseguiria levar adiante minha existência, por conta disso, e da dor de assistir passo a passo à morte de M. foi que optei por me passar por louco até atingir a meta proposta, que era ser internado num hospital psiquiátrico, acreditando que dessa forma poderia me ver livre das dores que me atormentavam. No dia em que M. morreu eu estava no cinema, ver filmes foi meu primeiro passo rumo a fuga do mundo, passava, muitas vezes, a tarde toda e o início da noite assistido desde o lançamento cult do ano as mais bestas comédias adolescentes; quando cheguei em casa e recebi de minha mãe a notícia não fiz nada, sem conseguir sair de onde estava me pus a chorar feito uma criança que acaba de deixar seu doce cair e não consegue esboçar reação, minha mãe me deu um copo de água com açúcar e ficou me olhando, depois disse que eu devia ser forte para encarar a situação de frente, e que isso era o melhor para M., que já vinha sofrendo com seu câncer a mais de um ano. M. havia ficado internada os últimos três meses, eu a visitava muito pouco, não conseguia ficar olhando a mulher que amava naquele estado de degradação por mais de meia hora, ir ao hospital era um martírio para mim, saía de lá com uma vontade louca de morrer antes de M., não sabia se seria forte o bastante para “encarar a situação de frente”, como disse minha mãe, mas sabia que morrer antes de M. seria fazê-la sofrer ainda mais, se é que isso era possível. Três dias depois do enterro de M. saí de casa sem saber aonde ir, não queria mais ficar assistindo filmes a tarde toda, a motivação que minha credencial de crítico de cinema antes me dava ficou presa em algum canto do cemitério, até a semana anterior a da morte de M. eu fazia até dez críticas por semana, o que me valia uma boa quantia em dinheiro, mas com a qual eu não sabia o que fazer; no período em que M. esteve doente era possível encontrar críticas de filmes feitas por mim em mais de dez jornais nos mais diversos estados do Brasil, agora o que eu menos queria era sentar frente a um computador e escrever sobre filmes. Caminhei a esmo por entre esquinas sem nome e pessoas sem rosto, feito um cachorro perdido fui me deixando levar, visualizava o rosto de M. triste, deitado naquela cama olhando para mim como se soubesse que eu não seria forte o bastante para viver sem ela, fazia tempo que não falávamos sobre nosso futuro, desde o dia em que ela chegou em casa falando que ia morrer o futuro passou a ser uma palavra a menos em nosso dicionário, os planos de ter filhos que tanto nos acalentava foi se escondendo por entre bulas de remédio e idas freqüentes ao médico, o que antes eram as economias que proveriam o futuro de nosso filho agora escorriam de nossa conta bancária feito as lágrimas que eu deixava à noite no travesseiro. Quando começava a me cansar da caminhada foi que tive a idéia, dias antes de M. morrer eu lera uma reportagem sobre O Alienista de Machado enquanto esperava a hora do próximo filme, não sei porque, mas alguma coisa no texto me tocou de tal forma que ao chegar em casa corri à estante de livros e fui reler o conto, fazia tempo que não lia nada, a literatura passou a ser algo distante de mim, que não tinha mais a capacidade de me concentrar num livro sem pensar em M., cinco páginas era o máximo que podia suportar antes que as lágrimas começassem a correr por meu rosto movidas pela lembrança da faculdade de Letras que cursei com M. Machado sempre fora um dos nossos preferidos, chegamos a criar um grupo de estudos sobre ele com outras meninas de nossa turma e apresentamos alguns trabalhos, mas depois que parti para as críticas de cinema e M. foi fazer seu mestrado em literatura latino-americana deixamos alguns hábitos antigos_ como a leitura em conjunto dos autores que mais admirávamos_ para trás, mas nesse dia em que reli O Alienista a força da ironia machadiana, sua sutileza e acidez ao nos revelar as mazelas desse mundo me despertaram alguma coisa que na hora não fui capaz de perceber, e só enquanto parava para descansar da longa caminhada que havia feito foi que me dei conta do que Machado queria dizer, pelo menos para mim, com seu conto; cheguei a conclusão de que eu deveria fugir desse mundo, que nós, eu e o mundo, éramos incompatíveis, que um do dois deveria se render ao outro, e foi o que fiz. Na manhã seguinte dei o primeiro passo para minha fuga, acordei cedo e fiquei nu na varanda com uma foto de M. nas mãos gritando que a amava, meus pais acordaram assustados com o barulho e ficaram atônitos ao me ver, antes de me virar para eles ainda ouvi quando minha mãe falou: coitado, agora só falta pirar de vez. Com cara de criança carente me deixei ser levado ao quarto por meu pai, lá sentei na cama e comecei a chorar dizendo que estava com muitas saudades de M. e que queria logo ir visitá-la outra vez em sua nova casa, perguntei ao meu pai quando ela ligaria para mim dizendo se estava melhor e se eu já poderia ir vê-la, antes que ele pudesse responder levantei e fui à sala colocar uma música, ao som de um samba antigo dancei nu pela casa ante olhares irreconhecíveis de mamãe, que parecia não acreditar no que via; quando o samba acabou fui pro banheiro tomar banho, ao terminar disse que ia sair e que dormiria na casa de M. naquela noite, eles não precisavam me esperar para jantar, dei um beijo em minha mãe e saí cantando como se estivesse feliz da vida, foi difícil conseguir fingir felicidade quando meu corpo todo doía de saudades de M., mas tentei ser forte o bastante, pois naquele momento acreditava que minha única chance de continuar vivendo era dando um adeus ao mundo, e isso eu só achava ser possível indo viver num lugar onde nada lembrasse minha existência até ali. Uma semana depois meus pais me levaram para conversar com um médico amigo deles, me preparei o máximo que pude para dar a entender a ele que eu deveria ser internado por um tempo, e foi o que ele decidiu com meus pais enquanto eu esperava do lado de fora da sala reclamando com sua secretária que meus pais já estavam demorando muito e pedindo que ela os chamasse dizendo que eu ainda queria ir almoçar com M. naquele dia. Quando vim para cá, admito, tive alguns receios, lembrei de alguns filmes que mostravam os mau tratos a que eram submetidos os pacientes de hospitais desse tipo, mas como eu passava a maior parte do tempo dentro do meu quarto escrevendo ou vagando pelos jardins, pude perceber que enquanto agisse dessa forma estaria isento do verdadeiro tratamento que eles ofereciam a maioria dos internos. Amanhã faz um ano que M. morreu, todos os dias quando acordo ainda tenho a sensação de que ela está lá fora me esperando, que basta eu atravessar os portões e lá estará ela, linda com o vestido azul que lhe dei quando completou 25 anos, mas a ilusão dura pouco, e quando vejo a foto dela que mantenho pendurada ao lado da minha cama tenho certeza de que a morte não mata apenas a quem morre, mas também a quem ama o que morreu. Não tenho vontade de sair daqui, muito menos tenho sonhos ou esperanças, tudo isso morreu junto com M., o que ficou foi apenas essa encenação, esse fingir de louco para encontrar uma razão de viver.
Carlos Henrique dos Santos. 12/01/2005.

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