quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Ela, ou a mulher arco-íris

Para Fernanda Sant’Clair

Ando pela rua e olho o céu. Azul. Assim como o mar. Como seus olhos. Os olhos dela eram azuis. Olhos de céu, de mar. Olhos nos quais eu me deixei afogar uma e muitas vezes. Olhos mortos e ainda assim azuis. Olhos sempre azuis. Seus olhos.
Você morreu e me deixou aqui com esse céu azul. Sozinho, eu e o céu, a procura de você, a procura de qualquer coisa que me faça lembrar você, que me faça, de alguma forma inexplicável, tê-la outra vez junto a mim. Seria melhor que o azul deixasse de existir e que eu ainda pudesse ter você junto a mim, viveria mais feliz sem o azul do que vivo (vivo?) sem você. Sem você não vivo, sobre-vivo, vivo por sobre a vida, feito pássaro que voa e se deixa levar pelo vento, perdido na imensidão do vazio que preenche o mundo, o espaço, eu vou vivendo, me coloco por sobre a vida e vou me deixando levar, assim feito um bêbado que vaga pelas noites a procura de algum bar aberto, eu vago (vago: eu) pela imensidão do mundo procurando você, procurando o que pode (ainda) restar de você por aí.
Seus olhos azuis, seus cabelos vermelhos, sua pele verde, seu sorriso laranja, você conseguia ser sempre linda, estar sempre linda, você foi o arco-íris que pintou de amor o céu do meu coração, mas depois, assim como o arco-íris que vai se desfazendo com o passar do tempo, você foi também se desfazendo, lentamente vi sua degradação, dia a dia você foi perdendo cor, seus cabelos vermelhos foram tornando-se pretos, depois brancos, por fim incolores; sua pele passou de verde a rosa, roxa, ficou incolor e depois sumiu, deixando-te transparente; seu sorriso ainda durou algum tempo, era possível ver-te transparente e de cabelos incolores com um sorriso laranja, eu ainda brincava, dizia que você passava por uma fase camaleônica, que não se preocupasse, logo logo voltaria tudo ao normal. Mas você sabia que não voltaria, que nada voltaria ao normal. Eu também. Mas eu ainda queria acreditar, eu tentei acreditar, mas foi em vão. Por fim seu sorriso também entrou em mutação: marrom, lilás, incolor, depois acabou, você, que já era transparente e de cabelos incolores, ficou também sem sorriso. Apenas seus olhos se mantiveram azuis, e eu os amei até o fim, com todas as minhas forças eu te amei.
Te amei com e sem cor, te amei durante todo o período de sua degradação, lenta e tristemente você foi se perdendo, sumindo, pouco a pouco eu podia perceber a desfiguração dos seus traços, as linhas do seu rosto a se apagarem, feito borracha o tempo ia operando o apagar de você, apenas os olhos resistiam, apenas eles, azuis, se mantiveram até o fim.
Na última vez em que te vi você quase não era mais visível, um pequeno ponto azul sobre a cama me indicava que era você, ainda você, a persistir frente toda aquela dor, forte como sempre foi você não se deixou vencer tão facilmente, lutou até o fim, até não ser mais possível se manter com cor, se manter viva, se manter você.
A mim restou apenas a triste incumbência de estar a seu lado, triste porque sofri (e ainda sofro) por ter acompanhado passo a passo seu desaparecimento. Se pudesse teria fugido, teria corrido sem rumo pelo mundo, para nunca mais voltar, para não ter a certeza do seu fim, vagaria a esmo por aí, sozinho, sem procurar por conhecidos, esquecendo o passado como se esquece de fechar a porta por uma noite, meio displicentemente, mas não, eu não fui, não fui capaz, ou não consegui, não sei ao certo, sei apenas que fiquei, fiquei porque te amava (te amo ainda), porque tinha, mesmo que inocentemente, a esperança de que ainda fosse possível, de que você, de alguma forma milagrosa, conseguisse escapar, que você desse a volta por cima e se mantivesse com cor, com vida, que você não me deixasse só, que você não se apagasse.
Hoje tenho a nítida impressão de que sempre soube que isso aconteceria, de que fiquei com você apenas por já saber, por ter a certeza de que acabaria de alguma forma triste e banal (por que se apagar como você se apagou só pode ser classificado de banal, como é banal o fim da vida), não fosse assim eu não me deixaria envolver, fugiria como fugira até então. E me incomoda também saber que tudo aconteceria com você, que não seria eu o motivo de nossa separação, mas você, por isso aceitei, por isso fiquei até o fim como nunca havia ficado até então, por isso, acredito, te amei, porque se não te amasse não teria graça, não teria porque, de nada valeria toda essa epopéia dramática se eu não te amasse, e é então que sofro ainda mais.
Sofro pela certeza de ter amado, sinto em mim a dor de saber, desde o começo, que acabaria, que você se acabaria, e que eu ficaria aqui, assim, feito um narrador que conta uma história sabendo de antemão o rumo que ela seguirá, tendo a certeza de matar esse ou aquele personagem, fico aqui, eu, Carlos Henrique dos Santos, autor de você, mulher arco-íris, sabendo que seu fim era certo, que era fato, porque assim eu quero, porque assim o quis desde o princípio, porque assim acaba uma história triste: como a vida.


Carlos Henrique dos Santos
Maio de 2005.

3 comentários:

Lucas Carvalho disse...

ai já me inscrevi lá só espero receber o e-mail de confirmação

Thuany Rezende disse...

no inicio, achei o narrador um tolo.
no fim adorei o Carlos Henrique dos Santos.

gostei do ritmo

Lucas Carvalho disse...

Ai carlos me manda o texto lá pra eu fazer o desenho e na parada eu num ganhei nada fiquei em 33° vlw