segunda-feira, 16 de maio de 2011

Vestido de Palavras

O jovem escritor acorda decido a conquistar a menina; pensa que escrever poder ser o melhor caminho para chegar a ela; após um rápido banho veste-se com seus mais belos sonhos e indaga-se se é ele, escritor, ou ele personagem quem quer, realmente, despertar a atenção da moça; caminha até a cozinha, acende um cigarro e enche uma caneca de café. Sentado exposto ao sol o jovem escritor procura um motivo, um fato ou acontecimento qualquer que possa desencadear uma história, cata na memória pequenos resquícios de vivências assim como a criança cata as migalhas de pão que esfarelou pelo tapete e agora, receosa e com medo de uma bronca da mãe, vai lentamente removendo um a um os minúsculos pedaços de pão que cobrem o tapete, também lentamente o jovem vai desenterrando esboços de lembranças que o habitam, seu medo, diferentemente do da criança, não é ser repreendido pela mãe mas sim não ser capaz, logo ele, que escreve, de construir uma história que possa, não apenas encantar a bela jovem mas também possuir suas qualidades literárias. Certa vez indagado se em suas narrativas era ele mesmo quem servia de base para a construção daqueles personagens que vagavam solitários e apaixonados por bares sujos noites a fio ele sorriu e disse não, nem sempre mas ao acordar ainda com aquele gosto um tanto amargo de ontem na boca ele refletiu outra vez e pensou que sim, em alguns momentos, é ele mesmo, escritor, quem veste a máscara do apaixonado triste e solitário a vagar sem destino pelas noites. Cigarro apagado e caneca vazia ele ainda se mantém sob o forte sol que inunda a manhã de calor; sente um leve calafrio a percorrer-lhe o corpo e arrepia-se, é justamente essa mesma sensação, pensa, que almeja desencadear em seus leitores e, principalmente, na moça a quem quer conquistar. Sabe que nunca foi dos melhores na arte tão sublime da conquista e, mais precisamente, vem vivendo uma fase em que “as coisas”, como costuma dizer vez ou outra aos mais chegados, não tem sido das melhores, ainda assim, um tanto quanto desmotivado, ele sente-se, pelo menos agora, nessa ensolarada manhã em que o céu parece querer saltar lá de cima e vir parar aqui em baixo, um pouco animado, pensa que talvez tudo não passe de uma motivação passageira, causada pela proximidade com a jovem há alguns dias mas no fundo sabe que mais importante que o motivo que o leva a querer, não só conquistá-la como ainda oferecer-lhe um texto, é sim voltar a amar, a sentir-se como o pássaro branco que costuma olhar voando sobre o mar apreciando os peixes que movem-se rapidamente sob as águas mas ele, pássaro, se sabe mais rápido que o peixe e isso, ele tem consciência, lhe garantirá mais uma refeição, é com essa certeza de vida que o jovem escritor quer se encontrar novamente; sente-se perdido em uma esquina escura com a vida que vem levando, sabe, mas guarda apenas para si, que seu jeito de amar já o fez sofrer, o que nem sempre pode ser visto como algo ruim, acredita, pois pensa no que seria da vida sem as fortes sensações, sem os fortes sentimentos que acarretam risos e lágrimas e o fazem sentir-se vivo, presente no mundo, assim ele gosta de ver-se no espelho que traz guardado na consciência. Pensando em seus textos antigos ele espera poder encontrar outra vez o caminho, a saída, ou a entrada, não sabe muito bem, pois não tem certeza de onde se encontra: caso encontre a saída é porque está preso em algum lugar, já se a sua frente o que se construir for uma outra porta que o leve a algum lugar é porque ele está fora, mas fora (ou dentro) de quê?, a pergunta o envolve e o dispersa de suas lembranças. Com outro cigarro aceso entre os dedos o jovem escritor se deixa levar pela fumaça que se desprende e pensa que se fosse tão leve quanto essa mesma fumaça teria uma quase certeza, como as que o envolve na pequena morte de sono em que os sonhos são tão reais que chegam a doer quando acorda, que seu texto não só agradaria a bela moça como também carregaria uma forte carga de emotividade e literariedade; são esses seus objetivos: conquistar a jovem e produzir um texto denso, consistente, que tenha o mínimo de valor enquanto obra, que emocione e envolva a quem o lê, que consiga fazer com que o leitor sinta mesmo algo durante a leitura, um texto que sirva de material de análise aos estudantes de letras e, ainda, faça com que o leitor dito comum, que não se dispõe a ler movido por outros motivos que não apenas o prazer de ler também crie seus laços de identificação com o texto, que a leitura de seu texto possa desencadear reflexões naquele que lê, que sua escrita não seja repleta de floreios mas sim objetiva, claro, uma objetividade poética, pois acredita que mesmo a prosa deva sim vir carregada de poesia, pensa na obra escrita como um passo além no campo da linguagem, dessa forma o texto que se pretende literário deve ser aquele que contribui para a expansão da língua enquanto meio expressivo-comunicativo. Sua preocupação se centra nesses dois pilares e, acredita ele, mais difícil do que atingir os objetivos almejados na escrita é conquistar a jovem, sabe ele que nessa difícil e tensa batalha pelo coração (ou nem tanto isso, o coração - profundo recanto que cada homem traz dentro si sendo “indesvendável” a qualquer um) mas pelo menos a atenção, o carinho e a admiração, talvez com esses ou outros fatos que não o vem à mente nesse instante seja possível desenvolver uma pequena, mas também ela consistente como a escrita que deseja, um esboço de relação ou “ligação” (em alguns momentos as palavras lhe fogem e se vê debilitado nas dificuldades que encontra para se expressar, não, ligação não é a melhor palavra, ele sabe disso, mas seu nervosismo vem aumentando antes mesmo que ele se sente, papel e caneta a mão, e se ponha a rabiscar um rápido e pequeno plano do texto que pretende desenvolver, mas ainda assim ele está disposto, mesmo envolto por uma neblina densa de dúvidas e receios não só literários como também emocionais, ele está se colocando a disposição da escrita, tem mesmo a convicção de que por meio da escrita é possível chegar ao coração da moça, lembra do dia em que, ainda menino, na escola, ouviu da professora, a quem havia dito que não conseguia ter idéias para escrever um texto de ficção, que sua cabeça doía demais quando era obrigado a escrever algo, que não, eu não consigo, professora, ela então o olhou e disse, tão baixo que ele quase não pôde ouvir, vou te contar um segredo: feche os olhos e respire fundo por dois, três segundos, depois comece a pensar nas coisas boas e ruins que você já viveu, escolha uma delas e escreva, ficção é isso, sua vida vista por um outro ângulo, ou mesmo um outro ângulo usado para ver as outras vidas, das outras pessoas, essas que passam por você na rua e depois somem para nunca mais, agora ali sentado exposto ao sol ele se dá conta de que foi ali, ao ouvir em um quase sussurro da professora que ele se iniciou como alguém que escreve, ali, aos treze anos que ele se deu conta de que tudo na vida pode não passar de invenção, ali, na sala de aula que ele fechou seus olhos e viu como via filmes antigos com sua mãe, sempre com pressa que este acabasse logo e ele pudesse ir pra rua bater bola ou mesmo ficar parado a toa, vendo-sentindo o tempo passar, assim como as imagens confusas e inexplicáveis daqueles filmes que sua mãe o obrigava a assistir foi que ele viu o que seria sua primeira história, e agora ele faz o mesmo, fecha os olhos, respira fundo, dois, três segundos, e o filme começa: a jovem é bela, o encanta, sentada no bar ela atrai seus olhares, ele está com alguns amigos, ela, em outra mesa, conversa com amigos também e, vez ou outra, vira lentamente a cabeça, num gesto simples, despretensioso como o olhar que lançamos através da janela do ônibus, não para ver onde estamos mas apenas para desviar a vista, já cansada, da nuca que se desenha a nossa frente, e o olha, ele percebe, sorri para si mesmo pensando em que motivo leva aquela bela jovem a olhá-lo, sente-se feliz com esse gesto, levanta e caminha até o banheiro, na volta acende um cigarro e sai com o pensamento ainda na bela moça, senta-se e se surpreende quando percebe que ela levantou e vem andando em direção a sua mesa, sacando um cigarro ela – ele abre os olhos e pensa que não, não está ficando bom, não é esse o destino que pretende dar ao texto, batido demais, simples demais, até mesmo banal para o resultado que espera alcançar. O sol agora o incomoda, levanta decidido a tomar um banho, vai aos fundos da casa e retorna com uma pequena mangueira na mão, prende-a a torneira e abre o rgistro, primeiro molha os pulsos (como seu pai o ensinou a fazer quando está com o corpo quente), em seguida abaixa a cabeça e deixa a água cair até encharcar todo seu cabelo, fecha os olhos incomodado pela água, o sol agora parece mais fraco, seu corpo vai aos poucos se refrescando, pensa que é o ele personagem quem poderia conquistar a moça, uma moça também ela personagem, dessas que habitam o mundo dos livros que lê e dos sonhos que têm como homem, assim seria mais fácil, bastaria construir uma história em que o ele autor teria total controle e domínio sobre o ele personagem, sobre a moça personagem e também sobre o destino, inventado por ele, para os dois, sim, dessa forma tudo ficaria mais fácil, mais simples, mas não, a vida não é nem fácil nem simples, e ele é o autor apenas de histórias, não da vida, o ponto final, nesse caso, pode estar em qualquer esquina, escondido sob qualquer árvore, preso por trás do sorriso mais ingênuo e doce de uma criança ou mesmo no beijo molhado da bela moça, fruto de sua imaginação, apenas um resquício dos desejos que carrega para as histórias que escreverá vestindo a nudez da vida de palavras.

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