quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Os anjos estão caindo

ara Iza Quelhas, Virginia Navarro e Gigi Veiga

Acordo decidido a parar de fumar. Levanto e jogo o maço de cigarros que estava sobre a estante na lixeira do banheiro. Tiro a roupa lentamente, sentindo cada pedaço de sono que ainda se gruda a minha pele se soltar. Tomo um banho frio e de olhos fechados experimento uma sensação de alívio, uma luz azul me ilumina todo por dentro, resquícios de você descem pelo ralo em direção ao vazio sujo da cidade lá fora.
Caminho pela casa com uma caneca de café na mão. A vontade de fumar cresce, fecho os olhos respirando fundo e penso no meu pai morto, não choro. Pego um livro do Pessoa em cima do sofá e saio. A rua me absorve com seu hálito quente de mais uma manhã de verão, o barulho de vida que sobe pelos poros da cidade me irrita, vejo pessoas diferentes, mas com a mesma cara, o mesmo rosto disforme, transfigurado pela rotina, pela pobreza de humanidade que envolve o cotidiano.
Ando cerca de trinta minutos até chegar na casa da minha mãe, ela me olha com seus olhos vesgos, sinto uma náusea subir pelo meu estomago a apertar com força minha garganta, penso em ir ao banheiro e vomitar, mas acho que não vou conseguir, olho minha mãe enquanto ela fala, tento prestar atenção em suas palavras, mas tudo que ouço é o zumbido do ventilador de teto: mosca varejeira de metal que zumbe triste e monotonamente uma cantiga fastidiosa. Digo a minha mãe que tenho que ir, ela abaixa a cabeça e pergunta numa voz arrastada se sinto falta do meu pai, saio sem fechar a porta.
Na rua outra vez o bafo do calor me envolve, suo, estalo os dedos e fico olhando os maços de cigarros bem arrumados de uma padaria, o ônibus demora, quero tirar meus sapatos, sinto cede, entro na padaria e peço uma cerveja, ontem à noite queria te ligar, mas fiquei com medo de qual seria sua reação, estava cansado e dormi antes mesmo de ver o fim do jogo, acordei quando já era de madrugada, estava com sede e fui tomar banho.
A cerveja acaba e o ônibus ainda não passou, peço outra e a vontade de fumar aumenta. Fecho os olhos e mijo com força, sinto saudades da minha infância, de olhar o céu azul e ficar imaginando os anjos caindo feito pingos de chuva. Abro o livro e leio:
Se sou mais que uma pedra ou uma planta? Não sei.
Sou diferente. Não sei o que é mais ou menos.
Um engarrafamento começa a se formar, vou ao orelhão e ligo pra livraria avisando que chegarei tarde. Penso em ligar pra você, fico olhando o número de créditos que ainda tenho no cartão tentando contar quantos usarei pra dizer que te amo e que quero voltar. Disco e fecho os olhos, os anjos da minha infância caíam me olhando, me acenavam e sorriam pra mim, vejo-os sérios agora enquanto espero a ligação ser atendida.
O silêncio me deixa cansado, quero tomar banho, tirar de mim essa camada de poeira saudade e melancolia que me invade pelas manhãs. Peço mais uma cerveja acreditando que seja a última; preciso trabalhar, preciso desculpar a mim mesmo por não ter te ligado ontem, preciso voltar pra você, preciso de mais amor, mais carinho, mais atenção, mais respeito, preciso de tanta coisa junta que acabo tendo medo de um dia não precisar de mais nada. Entre o mais e o menos do poema do Pessoa me situo no entremeio, entre ser e não ser fico tentando achar a resposta certa, pedra ou planta? Não sei, não quero saber, tenho medo, e mesmo assim pergunto, cato na memória meu primeiro beijo, a primeira transa, o primeiro baseado, o choro mais triste, o mais longo, busco camuflar a resposta dando-me outras perguntas, outra atividade que possa de alguma forma diminuir meu anseio, minha angústia tem gosto de café amargo pós noite de porre.
Saio da padaria, o engarrafamento está grande, olho o céu à procura dos anjos da minha infância, minha cabeça roda um pouco, a garganta parece coçar pedindo cigarro, pigarreio, cuspo e trinco os dentes tentando afastar a vontade de fumar. Faz calor, suo, quero um banho; terminei e quero voltar, será que você não entende isso? Então não posso mais me arrepender? O que te faz ficar assim tão irreversível em sua decisão? Durante três anos te amei com todas as minhas forças, tentei te guardar dentro de mim feito a roupa que acabamos de passar e vamos bem lentamente pondo na gaveta com cuidado excessivo para não amassá-la, busquei ao máximo não amassar você, procurei te guardar inteira dentro de mim, fechei os olhos pro mundo, vesti máscaras de homem feliz e sincero para encenar o grandioso espetáculo da nossa relação, mas quando mudei de atitude, quando passei a ver você não como a mulher ideal, perfeita, a mulher da minha vida, quando te disse, naquele dia chuvoso sob a marquise de um ponto de ônibus que você era pra mim como qualquer outra mulher, mas que em você eu me deixava mergulhar, que no mar do seu corpo eu era mais eu do que fora até então, penso que você não foi capaz de perceber, de enxergar a diferença fundamental entre ser igual a todas as outras e ser, dentre todas as outras, a única em que o mergulho, a entrega, era total, verdadeira, sincera, fatal, e por isso mesmo necessária.
Tão necessária quanto o passo no caminho, a idéia na cabeça, a dor na doença, você é pra mim algo fisiológico, do qual preciso, você é como o ar que respiro, não quero ser sentimentalista e piegas, mas quando acordo e vejo que terei de encarar mais um dia de vida, quando sinto o ar entrando por meus pulmões sujos de nicotina, quando escancaro as janelas da minha casa e olho o céu a procura dos anjos da minha infância e percebo que você é real, que a camada de sonho que recobria minha pele durante o sono era apenas um fragmento de vida disfarçado, quando tenho a certeza de que vivo, de que há vida em mim, que algo pulsa e arde com força me levando à certeza da existência, é aí, nesse exato instante, nesse intervalo de segundos entre o ato de respirar e o de sentir o ar entrando, preenchendo, ocupando seu lugar no pulmão, é então que sinto sua falta, que me vejo fraco, vulnerável, e quando me dou conta do tamanho do vazio que seu amor deixa em mim é que tenho ainda mais medo de não ter mais você.
Volto à padaria compro um maço de cigarros, uma caixa de fósforos e peço outra cerveja, bebo olhando os vinte cigarros prensados uns contra os outros e não fumo, apenas olho cada um deles: alcatrão: 4mg; nicotina: 0,4mg; monóxido de carbono: 6mg. Termino a cerveja e saio, os carros parados zumbem feito abelhas, olho a minha volta a procura de um orelhão, mas desisto de te ligar, caminho até um banco do outro lado da rua, sento, olho o céu, os anjos começam a cair, descem bem lentamente: como em uma cena de filme mudo em câmera lenta cada um deles me acena enquanto cai, fecho os olhos e fico sentindo o cheiro doce de cada anjo, começa a ventar, uma brisa leve, suave, macia como suas mãos quando me acaricia a pele, enfio a mão no bolso a cata da caixa de fósforos e ponho um cigarro na boca, fico assim por um instante: o cigarro na boca e o palito na mão apagado, um anjo chega ao chão e corre em minha direção, pára ao meu lado e sussurra seu nome em meu ouvido, então risco o fósforo acendo um cigarro e fecho os olhos pensando num poema do Pessoa:
Quando tornar a vir a Primavera
Talvez já não me encontre no mundo.
(...)
Há outros dias suaves.
Nada torna, nada se repete, porque tudo é real.

Carlos Henrique dos Santos.
Setembro de 2006.

O homem e a mulher

Para Karine Luiz

O homem está sentado na mesa do bar, um cigarro na mão, o copo de cerveja sobre a mesa e um sorriso no rosto, ele olha a imensidão da noite que se estende pelo infinito de sua visão, sente o vento que passa por ele a lhe tocar a pele, seu riso é fruto de algo que ele não sabe o que seja, apenas está ali em seu rosto, não um riso grande e aberto, mas sim um pequeno riso, contido, comportado, silencioso.
A mulher vem descendo as escadas, em sua cabeça pensamentos dispersos tentam se montar feito um quebra cabeças, ela vê que o homem está sentado no bar do outro lado da rua e pensa: esse é meu homem, então sorri um riso grande, pra dentro, só dela, assim como o homem, ela pensa.
Do outro lado da rua o homem ainda não viu que a mulher vem descendo as escadas, chega no sinal, pára, espera e atravessa, só então ele percebe que ela caminha em sua direção, dá uma tragada forte no cigarro, joga-o ao chão, afasta da cabeça os pensamentos que o levavam a sorrir um riso pequeno e contido e olha de maneira séria, mas nem por isso menos carinhosa, para a mulher. Ela se aproxima, beija-lhe a face direita, em seguida sussurra-lhe algo no ouvido esquerdo e senta a seu lado. O homem volta a sorrir ao ouvir o que ela fala em seu ouvido e se excita ao sentir o cheiro doce de mulher que ela exala.
Ele grita pedindo um copo e outra cerveja e acende um cigarro, traga com força, como se quisesse inalar o mundo a sua volta junto da fumaça, ela fala coisas que ele não ouve, de pernas cruzadas ele fuma sentindo a noite a inundar o mundo com seu silêncio e luzes, levanta, vai ao banheiro, olha seu rosto no espelho enquanto mija, fecha os olhos e pensa na mulher que está sentada a sua espera na mesa, então sorri um riso grande e silencioso, quase uma gargalhada, mas sem som, apenas ele sabe e sente seu riso. Joga o cigarro no vaso, puxa a descarga, olha o pau no espelho e pensa na mulher nua.
Volta pra mesa mais leve, talvez até mesmo mais feliz, olha pra mulher e pensa que ela parece a lua, bonita, brilhando naquela noite escura, com uma espécie de anel colorido a lhe rodear (ele não sabe, mas essa é a cor da felicidade dela) dá um gole grande na cerveja, enche novamente o copo e diz pra mulher que gosta dela, assim: eu gosto de você, sabia?, sério mesmo, não tô brincando não.
Ela sorri e olha pra lua.
Ele segura sua mão e diz vamos, tá na nossa hora. Levanta, paga a conta e caminha ao lado da mulher com um cigarro acesso.
Fazem todo o percurso em silêncio, ele fuma. Ela pensa. Mais nada.
Ao chegarem em frente ao portão da casa do homem ele segura a mão da mulher e entram assim, juntos, de mãos dadas.
No céu a lua brilha com força.
Eles entram, ela anda em direção ao quarto, ele vai pro banheiro, se despe e toma um banho frio, sente o calor do dia a escorrer junto da água, fecha os olhos por alguns segundos e sente um leve torpor a lhe envolver o corpo, abre os olhos, fecha o chuveiro e sorri alto, bem alto, muito alto.
Quando chega no quarto ela está deitada de bruços, nua em sua cama, fingindo dormir, como se fosse uma atriz numa cena já ensaiada, o homem caminha em sua direção, pára aos pés da cama e tira sua bermuda, olha seu sexo rijo, duro, abaixa-se e beija os pés da mulher, ela não se mexe, depois ele esfrega o pau duro nos pés dela, vai seguindo assim por suas pernas, beija e em seguida esfrega o pau duro, ela sorri baixinho um riso de menina sapeca, levada, já sobre a cama o homem beija a bunda da mulher, começa pelas extremidades e vai, pouco a pouco, se aproximando do centro, aí se detém, com as duas mãos afasta as polpas da bunda da mulher, bem lentamente lambe-lhe a boceta molhada, salgada, quente, ela se arrepia, emite um ai sussurrado, ele então faz o mesmo em seu cu, ela estremece, depois ele esfrega o pau na boceta e no cu dela, seus corpos estão quentes, ele passeia seu sexo duro entre um e outro orifício da mulher, e sem que ela espere entra com força, como se quisesse feri-la, e fere, mas de prazer, ela grita, ele entra com mais força, dentro da mulher o homem se sente forte, quase um herói, um verdadeiro mestre na arte do amor.
Ele olha seu pau entrando e saindo da boceta da mulher. Fecha os olhos e lembra de quando era criança, de como era bom se juntar aos outros meninos da rua e sair andando de bicicleta, sem rumo, sem caminho de ida ou volta, apenas pedalar importava, nada mais. Seu corpo ficava leve, relaxava, por sobre a bicicleta ele era livre, o mundo todo cabia nos seus pedais e pneus, o guidão ditava seu destino, sua infância era o início, apenas o início, de uma longa vida que se estendia à sua frente, feito as ruas por onde ele pedalava.
Agora enquanto entra com seu pau duro na boceta da mulher ele sente a mesma sensação de leveza e liberdade de quando menino, os movimentos do ato sexual o fazem relembrar suas muitas pedaladas da infância, assim como saía de casa sem destino certo, a procura do desconhecido da vida montado em sua bicicleta, o homem agora montado sobre a mulher sente o mesmo que sentia então, como se flutuasse por sobre o assento, leve leve, ele flutua por sobre a mulher, o futuro não importa, antes pedalar era sua vida, agora sua vida é o sexo, é a mulher.
Então ele fala bem alto, para que todo o mundo a sua volta possa ouvir, para que todos saibam, assim como gritavam quando ele era criança e ganhava as corridas que os outros meninos organizam: pedala, ele grita agora, com seu pau duro dentro da mulher, com seu corpo leve, flutuando por sobre a noite: eu te amo eu te amo eu te amo.
Assim, uma duas três vezes, depois se deixa cair pro lado da cama, fecha os olhos e vai, pouco a pouco, sentindo seu corpo outra vez. Pega um cigarro, acende, levanta, abre a janela e fica olhando a lua no céu brilhando como os olhos da mulher brilham as suas costas.

Carlos Henrique dos Santos.
Julho de 2006.

Hoje acordei querendo beijar a Ana Hickmann

Para Isabela Pasini

O futuro, assim como o passado, é uma mera projeção que fazemos, na verdade nenhum dos dois existe. O primeiro por ser aquilo que ainda não foi vivido não possui existência, se constitui enquanto um querer-ser, um vir a ser que ninguém pode definir ou supor o que seja; por ainda não ter acontecido o futuro se nos apresenta apenas como uma idéia, uma extensão dos nossos pensamentos que refletimos na parede do desejo, e assim ficamos a espera de que se concretize. O segundo apresenta mais indícios de verdade; querendo ou não o passado é aquilo que já vivemos, o que já foi presente um dia. Mas será mesmo assim? Será o passado simplesmente aquilo que vivemos? Ou será aquilo que guardamos do que vivemos? Sendo conforme o segundo caso o passado também é falso, falso porque aquilo que guardamos de nossas vivências não é realmente o que foi vivido. O passado é falso. A memória não retém tudo, apenas pequenos fragmentos do que foi vivido outrora se grudam à parede suja da lembrança; assim, passado e futuro se assemelham ao serem projeções, um do que virá e o outro de uma parcela ínfima do que foi, apenas aquela que mais nos satisfaz.
Somos nós os donos do nosso passado. Artistas da mentira, nos criamos a imagem e des-semelhança do que fomos um dia.
Pedro talvez não se preocupe em divagar sobre passado e futuro, para ele apenas o presente importa, mas Pedro é ingênuo e sonhador. Há sete meses que sonha em beijar a Ana Hickmann, sua paixão por ela remonta ao período em que foi demitido de seu trabalho de jornaleiro; na banca em que trabalhava Pedro se deliciava com as muitas e muitas fotos da modelo que se espelhavam feito nuvem no céu pelas páginas das mais diversas revistas. Rapaz solteiro no auge da puberdade e do desejo que os 16 anos proporcionam Pedro logo estabeleceu uma relação carnal com Ana, mas nessa relação apenas a carne do jovem participava, de Ana sobravam apenas pedaços de papel que se aglomeravam por debaixo das roupas de Pedro guardadas com tanto zelo por sua mãe em uma gaveta. O prazer de Pedro era um prazer de papel, mas mesmo assim intenso e verdadeiro. A sinceridade está mais em quem acredita do que nela mesma e isso independe de como ela se materialize verdadeiramente.
Desempregado Pedro passou a ter mais tempo para pensar em sua musa, mesmo sem as muitas revistas que a traziam na capa ele ainda possuía seus recortes, e de tanto pensar nela um dia, há sete meses mais ou menos, o jovem decidiu que queria beijar Ana Hickmann. Ao acordar com um aperto no peito, uma espécie de sufocamento como se estivesse se afogando em si mesmo, em seu desejo, em seu amor, em sua ânsia de tocar, ouvir, olhar, beijar Ana Hickmann ele decidiu que um dia a beijaria. Sentado à porta da cozinha enquanto vê sua mãe preparando café Pedro vai desenhando nas nuvens do céu seu amor. Ninguém sabe, com ninguém Pedro comentou do seu sentimento tão singelo e sincero por Ana. Para ele falar que ama não importa, o que vale mesmo é amar, e se uma pessoa tiver que ouvir algo sobre o amor essa pessoa deve ser a que é amada. Por isso a única a saber de seu amor só poderia ser ela: Ana Hickmann.
A primeira vez em que a viu foi em um painel publicitário, Pedro caminhava ainda sonolento para a banca em que trabalhava quando teve sua atenção implorada por um par de pernas exuberantes, assim como duas carreiras de cocaína atraem impetuosamente o cheirador para si as pernas de Ana atraíram o olhar de Pedro. Sentindo seu desejo aflorar abrindo-se feito flor na primavera o jovem diminuiu os passos e contemplou avidamente os contornos do corpo da modelo. Como uma câmera que filma para em seguida reproduzir as imagens captadas os olhos de Pedro filmaram detalhadamente Ana Hickmann. Era sempre assim, quando sentia correr com força por seu jovem corpo o desejo ávido por uma mulher ele filmava palmo a palmo, plano a plano o objeto desejado; para depois em casa, no silêncio da noite, ir desnudando, revelando cada fragmento do filme sob a luz da lua. Na película da memória nosso cineasta do gozo guarda suas imagens da voluptuosidade.
O amor, por mais que teimemos em querer definir, em buscar respostas às perguntas muitas vezes vagas, vazias feito uma garrafa de cerveja jogada num canto qualquer do quintal a espera de outra festa que a venha despertar para o porre da sobrevivência diária, não se define. O amor pode ser construído, pode ser mentiroso, pode ser sincero, fruto apenas do desejo ou da carência, mas será sempre amor. Sem definição, sem previsão, sem motivo aparente, sem passado, presente ou futuro o amor acontece. De nada adianta querer pensar o amor, amor não se pensa, sente-se apenas. Dessa forma é que ele se constitui como algo puro, verdadeiro, prazeroso. Querer abarcar um sentimento dentro de uma definição é diminuí-lo, é denegrir a imagem tão singela que ele representa. Por isso podemos sim dizer que Pedro ama Ana com todas as suas frágeis forças de jovem que ainda engatinha pelos dissabores do mundo.
Sete meses depois de encontrar-se apaixonado por Ana foi que Pedro sentiu o mesmo sufocar a espremer-lhe o peito tirando dele todo o sumo de tranqüilidade, assim seco de tanto amor Pedro não encontrou outra alternativa a não ser concretizar o quanto antes seu desejo louco de beijar Ana Hickmann. Acordou cedo e tomou seu café sentado à mesa com sua mãe, silenciosamente Pedro ia construindo aquele dia em seus devaneios. Após a saída de sua mãe para o trabalho ele tomou banho, se arrumou vestindo uma das poucas roupas novas que possuía e saiu. Com o parco dinheiro que conseguira guardar desde que deixara o trabalho Pedro pagou as passagens para chegar a seu destino. Parou à porta do prédio em que a modelo mora e ali se deixou ficar por minutos que se arrastaram lenta e maciçamente por sobre seus desejos. Ao fim de algum tempo a modelo brilhou feito estrela no céu dos sonhos do jovem. Como fazia todos os dias pela manhã ela saiu para ir à academia que ficava a alguns metros de sua casa. Desde o tempo de jornaleiro que Pedro sabia passo a passo a rotina de Ana. As revistas de fofoca lhe serviram para algo, ele sorriu lembrando do jovem cabeludo que sempre brincava com ele por ler “aquelas” revistas, não sabia ele, o jovem cabeludo, que eram essas revistas a ferramenta que Pedro usaria um dia para cavar o túnel que o levasse ao paraíso chamado Ana Hickmann. Depois que a modelo se afastou ele se pôs a segui-la a certa distância. Ainda sem saber muito bem como abordá-la sem parecer um fã besta desses que pedem autógrafo Pedro esperou que ela entrasse na academia e foi sentar-se na calçada do outro lado da rua. Dali ficou lutando com as idéias tentando encontrar aquela que melhor lhe servisse e atendesse a seus anseios de concretizar o tão almejado desejo.
Da mochila que carregava Pedro tirou uma caneta e um pequeno caderno em que rabiscou esses versos:

Envolto em imenso desejo
Fraquejo,
Sorrio um riso vago
Construo na memória um rio, um lago
Nele me afogo,
Molhado de você
Sou salvo
Sou santo
Pregado na cruz da saudade me mato
Rabiscado de tristezas
(um quadro)
Natureza morta: me acabo.

Após a escrita dos versos Pedro sentiu-se mais encorajado a falar com Ana, a declarar bem alto todo seu amor por ela. Assim que a viu sair da academia o jovem caminhou até a modelo e disse-lhe avidamente: sei que posso parecer um menino bobo desses que se masturbam pensando nas mulheres gostosas que a tv exibe todo dia mas vim aqui pra falar pra você que te amo muito Ana já fazem sete meses que não consigo parar de pensar em você todos os dias pela manhã quando acordo minha felicidade é saber que você está viva em algum lugar é ficar alimentando meus sonhos que ainda estão acordados de que um dia eu vou te ver e te falar que te amo por isso Ana eu vim aqui eu enfrentei duas horas de ônibus eu caminhei eu te segui eu sentei aqui nessa calçada eu fiquei sentindo meu desejo correndo nas veias feito sangue você Ana é o sangue que irriga minha vida por você meu coração bate bate bate e me faz me sentir vivo por você Ana eu escrevi esses versos toma olha são pra você pode levar espero que você goste.
No silêncio que se segue à enxurrada da fala de Pedro Ana olha o jovem e lembra dos dias em que ainda menina, moça ingênua e sonhadora, admirava os homens que via na tv achando-os bonitos, perfeitos em seus sorrisos brancos e reluzentes como num comercial de creme dental, mas ela apenas sonhava, por isso agora enquanto olha esse jovem parado a sua frente com uma expressão híbrida de gozo e medo ela sente calma, carinho, ternura, compaixão por ele e mais ainda por ela também. Em silêncio ela começa a ler o poema que Pedro lhe dedicou, suas mãos tremem, sua visão se embaça, ela sabe que não deve, mas vai chorar, o aperto que envolve sua garganta é o mesmo que toda manhã sufoca Pedro. Movido por um impulso Pedro leva a mão ao rosto de Ana e seca lentamente a lágrima que começa a deslizar pelo rosto da modelo, o toque de sua mão fria na pele/lágrima quente da moça o excita, Pedro sente a sensação de leveza que o domina quando sozinho no banheiro de sua casa vai se entregando ao mar de desejo e volúpia que o encharca. Ana encerra a leitura e olha com um silêncio agradecido para Pedro, sente uma vontade grande de beijá-lo, de retribuir o carinho que ele demonstrou por ela, então como num filme que vai sendo montado sem pressa ela se abaixa um pouco (quadro a quadro) e toca o rosto do jovem com seus lábios. A sensação da maciez dos lábios de Ana tocando sua pele faz Pedro excitar-se ainda mais, seu sexo lateja, não sente as pernas bambas, sua vista não fica turva, pelo contrário, sente-se firme no chão, plantado feito uma árvore centenária, sua visão é extremamente clara, pode ver em toda sua simplicidade a beleza de Ana, não a vê como uma mulher perfeita, especial, mas sim como uma menina crescida de um metro e oitenta e cinco, vinte e cinco anos e olhos azuis que brilham como o céu no verão, reluzentes feito o mar que um dia Pedro viu na infância e sentiu uma louca vontade de mergulhar, mas Pedro tinha medo por não saber nadar, agora, enquanto olha o mar-olho de Ana sente a mesma sensação de prazer e medo; ao olhar o mar Pedro sentia desejo de mergulhar, de se deixar molhar todo naquelas águas, mas o medo prevaleceu, foi maior que seu desejo. Hoje Pedro sente o mesmo desejo-medo de sua infância, quer mergulhar em Ana, ir fechando seus olhos com a mão bem lentamente, sentir a pele da modelo sob seus dedos, depois deslizá-los de leve pelo rosto até encontrar a boca, em seguida, sem pressa, ir aproximando seu rosto, deixá-la sentir seu hálito quente a envolvê-la, para aí sim tocar-lhe a boca e se deixar perder no mar do seu desejo, colar seu corpo ao dela envolvendo-a num abraço forte a carinhoso, prendê-la junto de si na eternidade do momento.
Depois de beijá-lo Ana o olha outra vez, as palavras se perdem, fogem dela, deslizam e a deixam muda. O silêncio se prolonga, Pedro se constrange, olha Ana nos olhos e bem lentamente vai se virando de costas, começa a caminhar, fecha os olhos, não quer ver o mundo a sua volta, não quer ver-se a si mesmo ali caminhando de costas para Ana Hickmann depois de declarar todo seu amor por ela, quer fugir, correr, sumir do mapa da vida.
Para Pedro agora o que viverá será o passado, seu presente é esse estar ali só caminhando de olhos fechados para não ver o tamanho da sua solidão, e isso dói. O futuro para ele se perdeu, foi varrido pelo vento do tempo. Os poucos momentos que passou ao lado de Ana é que irão lhe alimentar daqui pra frente, sua vida girará em torno disso, Ana será o eixo que sustentará Pedro e sua vida daqui por diante. Suas frustrações, seus sonhos, os medos, as dores e alegrias, seu prazer, sua angústia, seus delírios, seu silêncio, tudo será preenchido por Ana, pela Ana que ficou alguns minutos parada a sua frente ouvindo sua declaração de amor, que o ouviu ler o poema feito especialmente para ela, chorando em seguida uma dor que ele não sabe qual foi_ e que foi a dor de não ser como ele, Pedro, de não ter sido como ele um dia, em sua adolescência, de ter tido medo_ e será essa mesma Ana, que um dia, daqui a muitos e muitos anos, sem saber porque, acordará assustada no meio de um sonho ouvindo uma voz declamar pra ela:

Pregado na cruz da saudade me mato
Rabiscado de tristezas
(um quadro)
Natureza morta: me acabo.

E sua frágil memória quase centenária não será capaz de lembrar que um dia um jovem escreveu esses versos para ela sentado em uma calçada enquanto a esperava sair da academia, e que esse sonho estranho, como ela contará depois a uma de suas netas, acontecerá na mesma noite da morte de Pedro, atropelado bêbado quando voltava para casa, sozinho, camisa xadrez rasgada no bolso à altura do peito, cigarro na boca, no meio de uma rua escura olhando a lua e pensando nela, em Ana, na sua Ana, que um dia, num passado muito, muito distante, ele tanto amou, e que por isso virou presente, o seu presente eterno, que viveu em seu coração, no seu tempo, no tempo do seu amor.

Carlos Henrique dos Santos.
dezembro de 2006/ janeiro de 2007.

Quase romance

Para Nãnaira Ferreira

Acender o cigarro e tragar, tragar forte e ir sentindo a fumaça encher pouco a pouco o pulmão, respirar fundo e em seguida soltar pela boca ou nariz, sentindo agora como a mesma fumaça se põe a sair do pulmão. Abre e fecha. Enche e esvazia. Movimento constante que dura apenas os poucos minutos que gastamos no ato de fumar.
Tenho uma sensação semelhante quando amo: primeiro encho de esperanças e alegrias meus sentimentos _ é a plenitude do sentir_ depois, num movimento de expelir, vou liberando espaços para o medo, a dúvida, o receio, encho e esvazio de significações amorosas todo meu eu. A mulher-fumaça dos meus desejos passeia por dentro de mim como a fumaça-fumaça do cigarro dança movida pelo silêncio do ato de tragar e soltar. Mas diferentemente da fumaça que apenas entra e sai a mulher fica, e por ficar é que o vício do amor é infinitamente mais prejudicial e doloroso que o de fumar, e para este não há ministério da saúde que dê jeito.
Faz dois meses. Na verdade já fez, foi ontem. Enquanto caminhava a esmo guiado por duas pernas trôpegas de desejo e melancolia sentindo a garoa que de leve ia molhando meu corpo lembrei do dia em que você partiu. Sua blusa azul manchada de molho de tomate na altura do umbigo te deixando com aquele jeito de menina descuidada está até hoje junto das minhas roupas no armário (tentativa inválida de invalidar sua partida, toda noite antes de dormir, quando retiro do guarda roupa travesseiro e cobertas, tenho a leve e vazia sensação de que no meio da noite acordarei com sua voz murmurando algo ininteligível que na manhã seguinte tentarei em vão te fazer lembrar). Depois de sua ida sentei no chão da cozinha encostado no fogão e fiquei buscando coragem de enfiar no forno a cabeça e deixar que o gás tirasse o pouco que ainda restava de vida em mim. Parecia minha vó catando feijão nas manhãs de sábado que passávamos juntos enquanto minha mãe saía para trabalhar: sentada no chão ela catava os feijões encostada ao fogão (como eu no dia da sua partida) e me ensinava a ser homem dizendo que não devia mais ficar chorando toda vez que minha mãe ia pro trabalho, que tudo que ela (minha mãe) fazia era pensando em mim, pro meu bem. Mas eu pensava que se fosse mesmo pro meu bem porque ela não ficava comigo, já que durante toda semana era a mesma coisa: ela fora de casa trabalhando, pro meu bem.
Pensei o mesmo ontem: antes de partir você disse que o fazia pelo nosso bem, mais precisamente pelo meu bem. Depois que você saiu acendi um cigarro e pensei em como era triste saber que você poderia nunca mais voltar (como até hoje não o fez), assim como a fumaça que saía do cigarro e ia lentamente se perdendo no ar, até sumir, não ser mais nada a não ser uma simples lembrança, um cheiro de passado-fumaça que fica no lugar onde se fuma e nas minhas narinas sujas de mais um dia de vida movido por desejos incompletos e sonhos nebulosos. Antes que acabasse o cigarro acendi outro, tinha a sensação falsa de que no máximo três cigarros poderiam preencher seu movimento de ida e volta, e que em instantes ouviria sua mão batendo de leve na porta feito a criança que chega da rua após ter cometido uma travessura e sabe que será repreendida e para amenizar a bronca que levará abaixa a cabeça e fala com uma voz pra dentro que errou, assim te imaginava chegando após no máximo o terceiro cigarro.
Mais de trinta maços já se passaram e nem o som da sua voz pelo telefone ouvi. O vazio que você me deixou é maior do que o que pode ser suprido pelo cigarro. Chorar não consigo, tento toda noite quando deito para dormir e fico feito uma bola rolando de um pra outro lado, como a bola que os meninos da rua jogam sem muita convicção e que baila fora de ritmo ao som de pés descalços se chocando contra o chão. Poucos são os momentos em que me sinto bem, um deles se concretiza quando me ponho a lembrar dos bons momentos que passamos juntos. É no vazio do passado, no espaço de tempo entre o que fui e sou que ainda tenho a capacidade de me encontrar: imagem disforme no espelho partido da lembrança.
Uma garrafa de cerveja na mão, um copo na outra, o cigarro aceso na boca enchendo e esvaziando meu pulmão, e você ali, parada, linda, morena brejeira, cabelos revoltos, com vida, aura a te envolver afastando-te do mundo, das pessoas, e deixando-te mais próxima de mim, mesmo sem te conhecer ainda soube ali que seria minha, mesmo em sonho, em desejo, em palavras. E foi. Foi completamente: de corpo, alma, cabelos, boca, palavras, silêncios, sussurros, sorrisos, pernas, ventre, medos, olhares, quereres, idéias, assim inteira, significados que faltavam no meu dicionário de vida e sentimentos.
Você caminha em minha direção, sorriso, você aproxima seu rosto do meu e me beija (beijo), você pergunta como foi meu dia, você me olha de um jeito que faz cair por terra todos os meus medos, você faz sua mão deslizar lentamente por meu rosto, você me beija novamente (beijo), você ouve em silêncio eu dizer que teadoro (teadoro), você deita pra dormir e pensa em como é possível tudo isso estar acontecendo com nós dois, você fecha os olhos (olhos) e lembra das horas que passa junto de mim, dos silêncios que se preenchem de vida e significados, dos olhares que se refletem no espelho da paixão, dos sorrisos que se abrem e fecham feito uma porta que abre e fecha com o vento que vem da rua deixando aparecer nos instantes em que está aberta uma nesga de felicidade tão límpida e azul feito a água de uma praia deserta que você ainda não visitou mas que se imagina lá, comigo, deitada nua na areia sob a luz amarela do sol enquanto estás de olho fechado (olho), você sussurra baixinho meu nome (nome) no silêncio macio da noite como forma de me fazer vivo ali, e nesse exato instante em que o som circula no ar entre sua boca e seu ouvido (boca) (ouvido) você sente uma lágrima quente e saborosa a deslizar como desliza por minha face sua mão enquanto me acaricias (lágrima), você toca seu centro úmido de prazer e desejo e lembra de como és quando sou eu quem te toca lentamente (toque), você balança na cama de um para outro lado como uma criança a balançar-se com força e ânsia num balanço de parque ou praça (balanço) sentindo o leve toque da sua mão a desvendar os caminhos obscuros e saborosos do prazer que emana desse simples toque (toque) que é seu mas que você (você) queria fosse meu (meu), então você força ainda mais o corpo para que o balanço possa tomar mais impulso (balanço) e consegue chegar até o telefone que está na outra ponta da cama, você segura agora o telefone com uma das mãos e seu desejo/prazer com a outra, você digita algumas letras que a tecnologia farão chegar a mim dentro de alguns minutos (tempo), os mesmos que você levará para chegar ao ápice do seu desejo-gozo-prazer (desejo-gozo-prazer) que eu também sentirei ao ler escrito em letras grandes: (TEADORO, SAUDADES DA SUA BOCA, DA SUA MÃO, DO SEU OLHAR, SAUDADES INTEIRAS DE VOCÊ, SAUDADES, E ALGUNS BEIJOS, BEIJOS, BEIJOS, DA SUA), sinto como se os beijos que você me manda invadissem a casa através da janela da sala que deixo aberta enquanto fumo (beijo invisível mas sentido), você sente uma languidez a percorrer vagarosamente seu corpo (pés-cabeça), você passeia sozinha pelo entresono que se abre a sua frente, você sente um quase imperceptível toque em suas costas, você abre por uma fração de segundos os olhos (olhos) e os fecha novamente (olhos), então você dorme e pensa que bom tudo isso não ser apenas um sonho e eu ser real, um ser de carne-osso-sentimentos (eu), você abre um sorriso sonolento e enfim mergulha no escuro macio e silencioso mar do sono, você me tem todo dentro de você, você (eu).
Acendo um cigarro e sentado à janela vou fitando o céu, cai uma leve garoa, faz frio, meu corpo dói por estar a tanto tempo na mesma posição, sem forças mal consigo me mexer, sinto um torpor a me envolver feito as nuvens cinzas que envolvem o céu. Na lembrança o que trago são seus beijos, o doce e macio som da sua voz a dizer que um dia a morte chegaria, lembro de um poema que um dia li e que dizia ser a morte a única saída possível para o escuro e sujo túnel chamado vida. É para lá que me dirijo, agora sei meu destino. A morte. A morte. A morte. Vou me matar para o desejo de você que invade toda manhã as janelas do meu corpo. Chega! Basta! Quero gritar mas a voz não sai, está presa como você a mim, presa em algum lugar que sou incapaz de chegar mas que sei se situa dentro de mim. Tiro bem lentamente a roupa pensando que dessa forma poderei ser capaz de arrancar de mim cada pedaço de você que ainda sobrevive no meu corpo, em cada peça de roupa que displicentemente deixo cair ao chão vejo uma parte de você: junto a camisa de botão de duas cores ouço sua voz dizendo baixinho que me ama, com a bermuda sinto deslizar sua mão, como desliza por meu corpo tocando-me e excitando-me, a cueca sai de mim acompanhada pelo doce e macio cheiro do seu sexo (quando fazia minha língua percorrer em movimentos desordenados seu desejo o gosto que ficava em mim é o mesmo que escorre agora junto de mais um pedaço seu que tento em vão jogar fora), as meias são acompanhadas pelo silêncio do seu olhar que penetra o meu fazendo-me acreditar que sim, a felicidade existe mesmo que dure apenas alguns fragmentos na escala do tempo. Assim, nu de você, olho meu corpo sem cor no espelho e o que vejo são as marcas da saudade.
O cigarro apagado na mão me faz lembrar do movimento do amor, entre encher e esvaziar o pulmão com a fumaça sobra um pedaço de tempo, é nele que procuro me refugiar das dores e tentar outra vez encontrar um caminho. Você se foi para não mais voltar, sei disso, como sei que o cigarro logo logo me matará, mas entre esperar erroneamente por sua volta e pela minha morte é que reside um último esforço de vida: fôlego que se dilui lentamente feito o pó preto do café sendo tocado pela água fervendo, com isso o que sobra é o cheiro, aroma de dor, aroma, amor(a), amor(a). Acendo o cigarro. Silêncio. Lá fora chove, talvez seja hora de sair, me plantar no portão e ser regado pela água da chuva até que você venha, que traga escondido por sob a blusa semi-encharcada mais um poema feito para mim (como fazia para consumir o tempo de viagem e saudades que o ônibus te oferecia até chegares em casa de mais um dia de trabalho), enquanto isso não acontece vou desenhando no macio silêncio de mais uma tarde chuvosa que você me ama, me ama tanto que nunca mais voltou pra mim: fumaça se perdendo no ar, azul, depois nada, nada, nada.

Carlos Henrique dos Santos.
Segundo semestre de 2007.

Sensações

Eu te amo porque amo tudo que você reflete em mim: amor. Para Nãnaira Ferreira, com carinho.

1- o bar
Sentado o homem pega o copo de cerveja e o leva à boca, deposita-o na mesa e olha a sua frente, a estrada lhe apresenta alguns veículos que vão e vem pelos dois sentidos da pista. Seu olhar se deixa perder até visualizar um ônibus azul (aqui seu coração acelera, entre o momento da visualização do ônibus e a chegada deste até o local em que se localiza o homem seu coração bate num ritmo acelerado, fazendo com que suas mãos tremam de maneira quase imperceptível aos olhos, é possível de se notar apenas porque nesse exato instante o homem leva o copo de cerveja à boca), o veículo passa em lenta velocidade pelo homem que está sentado e que acaba de expelir a fumaça do cigarro que trazia presa ao pulmão; o ônibus azul passa por ele e alguns segundos depois pára na pista que fica do outro lado da rua, atrás de onde o homem está sentado. O homem então se vira bem lentamente na cadeira até conseguir ver em que local o ônibus azul estacionou, após olhar o homem sente um misto de alegria e tristeza que não é capaz de definir, ele apenas sente que algo dentro dele e a sua volta está mudando, então o homem pisca incomodado pelo excesso de fumaça que o cigarro libera em seu rosto (ele mantém o cigarro preso aos lábios enquanto a sensação de estranheza fruto da alegria e tristeza circula por seu corpo), o homem faz seu corpo girar num movimento contrário e retorna a sua posição inicial, pega novamente o copo sobre a mesa e o leva à boca, o esvazia, enche, joga o cigarro próximo ao meio fio e ouve uma voz que diz olha ela ali, agora o homem já se vira levantando, sente abrir-se em seu rosto uma cratera chamada sorriso quando pode ver a mulher que caminha em sua direção, ela também traz sua cratera chamada sorriso aberta (como um vulcão que emite luz no lugar da larva), eles se abraçam e beijam ao mesmo tempo, seus corpos se colam com força, ela sente que as mãos dele a apertam deslizando por suas costas, ele sente o carinho que as mãos dela fazem em seu corpo, suas línguas se procuram sofregamente, molhadas elas parecem querer se secar ao se chocarem violentamente uma contra a outra, o sexo dele incha, lateja, ela sente, então ele diz eu te amo num misto de sussurro e sorriso, os lábios ainda colados aos dela que também sussurra eu te amo (sim, eles se amam, sabemos disso). Em silêncio eles se olham após o beijo, suas crateras ainda abertas sorriem, em silêncio, até que ele diz saudade, ela também foge do seu silêncio dizendo saudade.
2- o quarto
Como um pincel a deslizar pela tela em branco a língua do homem percorre todo o corpo da mulher, começa pelos pés (sem se esquecer dos dedos), sobe lentamente pelas pernas alternando-se entre uma e outra, chega à virilha e traçando uma pequena linha quase invisível se desvia de seu caminho em linha reta e se desloca para a vagina, se detém entre as pernas da mulher por alguns minutos se movimentando em diferentes direções, ora subindo, ora descendo, ora executando movimentos circulares, depois sobe pela barriga da mulher e num movimento mais rápido chega até seus seios, então retoma o ritmo da dança que executou entre as pernas da mulher alternando entre o seio da direita e o da esquerda, após alguns minutos se distancia dos seios e se choca violentamente com a boca da mulher, duas bocas unidas, quase uma só, quase uma apenas, se mastigando, lambendo-se, salivando de desejo, de ânsia, então num espasmo a mulher sente que algo a preenche, entre suas pernas ela sente que o homem procura se esconder, fugir do mundo, da barbárie que circunda as pessoas, preso entre as duas coxas da mulher o homem se sabe feliz, acredita no amor e tem a plena convicção de que amar, nos dias de hoje, é uma atitude revolucionária, quando ninguém mais pensa o amor e mais ainda sente o amor o homem ama, e por amar é que constrói sua utopia no corpo da mulher, dessa mulher de pele morena, sorriso grande que despenca feito a cascata de uma cachoeira a encharcar de felicidade o homem, um par de olhos feito estrelas a brilhar na escuridão iluminando tudo a sua volta ( e a mulher ilumina a vida desse homem de felicidade) então o homem sorri ao alcançar seu gozo físico, olha a mulher e percebe que ela também atingiu seu nirvana sexual, ambos de olhos fechados sentem seus corpos subirem, flutuando pelo espaço do quarto, dois corpos em um, uma soma inexplicável matematicamente falando, já que um mais um é dois, e não um, mas para eles, esse homem e essa mulher, um mais um é um, é tudo, são eles, é o amor, o amor e o desejo.
3- o diálogo
Sua beleza vai além dos seus olhos verdes, sabia?
Gosto quando toco sua boca com minha língua sentindo a liberdade que nosso beijo me proporciona, de alguma forma inexplicável para mim seu beijo, sua boca tocando na minha desperta uma sensação doce e macia de alegria, felicidade ou qualquer coisa que possa ser definida como boa.
Engraçado quando você me olha assim desse jeito parecendo um menino, você fica falando (falando falando falando) coisas tão bonitas e diferentes, aí me sinto também como uma menina te ouvindo falar sem parar, sua boca abre e fecha num movimento tão belo, e ainda mais belos são os sons produzidos por ela, é como se seus lábios estivessem dançando, logo você que nem gosta de dançar, então na dança da sua fala eu também me embalo e, quando dou por mim, me vejo ali toda boba te olhando de um jeito diferente, especial, me sinto ainda mais mulher, mais eu mesma perto de você ouvindo tudo que você me diz, querendo guardar cada pedacinho de palavra dita como as meninas de dez anos guardam a imagem do menino mais bonito da escola, bem escondida num canto escuro da lembrança, que pode ser vista apenas à noite, no silêncio escuro e sonolento do entresono, aí eu fico pensando depois quando você não está mais do meu lado em como é bom ter você comigo, em como sou feliz de estar contigo, de tudo de bom e diferente que você desperta em mim, sensações tão gostosas e novas e ao mesmo tempo é como se eu já esperasse por isso, nos meus sonhos, sei lá, nos meus desejos de mulher feliz, ou mesmo de menina que espera um príncipe encantado, mas ao mesmo tempo tudo que você fala é tão real, tão sensível, eu sinto mesmo cada pedacinho do que você diz entrando por meus ouvidos, me tocando bem lá no fundo, e guardo tudinho com um carinho imenso, é nessa hora que sempre lembro da imagem do mar, aquela coisa grande aberta e parecendo sem fim tocando no céu, se chocando com o céu em algum lugar que nós nunca pensamos que poderemos chegar um dia, então a gente fica acreditando que é lá que mora a felicidade, e do seu lado é como se eu estivesse nesse lugar, nesse encontro do céu com o mar, e é tão lindo e tão bom e gostoso que dá vontade de nunca mais sair dali, de ficar para sempre lá escondidinha te esperando chegar sorrindo e dizendo baixinho no meu ouvido que me ama (me ama me ama me ama).
Sabe, tenho pensado em ter um filho com você. É estranho tudo isso pra mim, logo eu que durante tanto tempo fiquei negando pra mim mesmo a idéia de um filho, de deixar qualquer coisa nesse mundo, mas depois que te conheci, depois que você apareceu na minha vida feito a lua iluminando uma noite pós temporal de verão de fim de tarde (sabe aquele dia em que tudo dá errado mas à noite uma lua imensa brota lá no céu, bem grande tornando as coisas um pouco melhor, quase que antecipando um novo dia repleto de bons momentos?). Assim tem sido contigo, talvez por isso essa vontade, esse desejo de fazer um filho em você, de deixar um pouco de mim (um pouco mais, já que tenho deixado tantos sentimentos bons caminharem de mim para você, é como um barco que entra no mar cheio de pescadores tendo que alimentar suas famílias e navega mansamente em direção ao cardume, à pesca perfeita que irá alimentar diversas famílias por dias, às vezes até semanas, e esse barco vai lá, seguindo seu rumo sem nenhum imprevisto, ele apenas navega como se tudo já estivesse estipulado antes, como se nada fosse capaz de impedir esse simples barco com seus pescadores de chegar à sua pesca, a seu fim), é assim que me sinto, tudo de bom que tenho a oferecer a alguém é o que te dou, e sem querer nada em troca a não ser seu carinho, seu respeito, sua admiração, seu amor, meus sentimentos navegam calmamente em sua direção. Com você deitar e dormir deixaram de ser acontecimentos banais em minha vida para se tornarem momentos de extrema contemplação, é quando penso/sinto que a vida tem um significado, que viver não é mais apenas um passo em direção à morte, ao fim, que o ato de viver (essa doideira que é dormir e acordar todos os dias sabendo que a qualquer momento acabaremos e nos tornaremos pó, adubo, esterco) tem servido para eu me sentir vivo, me sentir alguém, uma pessoa, mais ainda, uma pessoa que ama e é amada.
Não gosto quando você fica de cara amarrada sentindo ciúmes de mim. Não tem porque, já te disse isso. Sabe o que eu podia fazer? Podia muito bem me aproveitar de todo esse amor que você sente por mim e te transformar num fantoche meu, brincar com seus sentimentos, com o poder que de alguma forma exerço sobre você. Mas não. Não é isso o que faço. Pelo contrário, o que quero é que você seja capaz de me amar sem medo, sem ficar se preocupando com o dia de amanhã. Estamos vivendo o hoje, pense nisso. E é nesse hoje, nesses momentos, nesses instantes de alegria que vivemos juntos que devemos ficar bem, por isso respeito muito o que você sente por mim e me dói muito saber que há horas em que você se deixar dominar por essas idéias bestas de ciúmes e perdas. Não tem porque, já te disse isso. Se estou com você é porque quero, porque te amo, e te amo muito, mais até do que deveria, penso às vezes; também tenho medo, também me pergunto aonde tudo isso, todo esse sentimento pode me levar (nos levar), mas mesmo assim não fico criando ilusões bestas que me machuquem à toa, não penso besteiras gratuitamente, e nem preciso, sei que você me ama muito, sinto isso no seu olhar, nos seus gestos, na maneira como você me olha me acaricia o rosto, no seu beijo, nas suas palavras, toda vez que te ouço dizer que me ama (e são tantas!), eu tenho a certeza desse amor, seus olhos brilham, sua voz sai de um jeito diferente, talvez seja pelo amor, pelo sentimento que ela carrega de você para mim, e é tão belo, tão lindo ver esses seus olhos verdes dizendo que me ama, mesmo no escuro sei o quanto você é lindo, sei e sinto toda sua beleza e a beleza do que você sente por mim. Vem cá, amo você, muito (muito muito muito).
4- a cama
Ele tira cada peça da roupa que visto bem lentamente, ele beija cada parte do meu corpo ávido de desejo, ele se mistura a meu suor, meus silêncios, meus gemidos contidos, ele se enrosca em mim feito a planta na árvore, ele se dilui em mim feito a água da chuva sendo absorvida pela terra, ele diz bem baixinho em meu ouvido que sou linda (linda linda linda!), ele percorre meu corpo com as mãos como se estivesse me desenhando, ele me olha de um jeito ingênuo, parece um menino admirando a mãe sem que ela o perceba, ele me abre com força como um faminto abre um embrulho contendo comida, ele se movimenta sobre mim, sinto sua presença a cada segundo como as batidas de um coração acelerado pulsando rápido num momento de nervosismo, ele me chama de sua, de linda, gostosa, meu amor, ele me ama com um desejo insaciável, ele me domina, me sacia, me invade e me faz sua, totalmente sua, minhas pernas tremem, o mundo gira na imagem de um teto branco, meu corpo enfraquece, estremece, procuro o chão e não acho, estou caindo, corpo leve em queda livre, rumo ao abismo, ao poço fundo da inconsciência, sou um pássaro que voa, livre, rumo ao infinito, até pousar, sentir novamente que o mundo é mundo e que eu sou eu: a amada dele.
5- no bar, o conto
Gostou?
É, mas parece mais um diário seu.
Ah, mas isso só você sabe, você e eu, pras outras pessoas é tudo ficção. O que conta pra elas não é se aconteceu ou não, mas sim o que elas sentem lendo o conto, o que vale é o que elas pensam enquanto lêem, elas nem querem saber se realmente aquilo aconteceu ou não, se não deixaria de ser literatura.
É, pode ser. Mas você foi bem fiel.
Eu sei, mas mesmo assim não é verdade, é tudo um pouco invenção um pouco verdade, até porque não tinha como eu reproduzir tudo, é só uma leitura minha, mais nada.
Verdade.
Então você gostou mesmo?
Gostei. Mas gostei mais da última parte, ficou mais bonita, mais sensível, diferente do que você escreve. Ficou legal.
Que bom.
6- sensações
e lá está você, sorriso aberto, pele morena, cabelos revoltos, olhar indagador, boca macia, convidativa a me pedir (ou sugerir) mais um beijo, e então um beijo se constrói (com tu a se amparar num carro que ali estava, talvez, quem sabe, quem saberá, apenas esperando que você chegasse e nele se encostasse e a mim esperasse, para que em seguida eu pudesse colar na sua a minha boca e mais um lindo beijo construir).
hoje não vou falar que te amo
apenas te apreciarei no silêncio triste dos meus medos
e a cada vez que te olhar, mesmo de modo sério, estarei dizendo bem baixinho
(tão baixinho que ninguém será capaz de ouvir)
que te amo
(assim, como uma força tão grande feito as ondas do mar que invadem a cidade e causam destruição)
eu te amo, de um jeito só meu, repleto de cuidados, te fazendo só minha (apenas minha) tão somente minha que chego a te sufocar
(mas saiba, amor meu, que esse desvario meu, que toda essa loucura que por ventura perpasse meus sentimentos)
é fruto de um desejo descomunal de te fazer feliz, tão feliz feito a criança recebendo seu primeiro presente sem nem se dar conta de que ele será apenas mais um brinquedo jogado um dia no canto escuro da memória que nem ela mesma será capaz de lembrar que um dia foi tão feliz ao receber aquele brinquedo de presente e que esse mesmo brinquedo a fez tão feliz a ponto de sentir um dor aguda no peito ao pensar, quando se deitou para dormir, que um dia poderia viver sem esse simples brinquedo, e ainda assim ela é feliz, assustadoramente feliz
é dessa maneira que te quero feliz, amor meu, de um jeito singelo feito uma criança mas ao mesmo tempo tão forte como a mãe que vê a morte do filho e sente que uma parte de si mesma acaba de morrer e ainda assim tem forças suficientes para viver e ser feliz novamente
feliz assim, amor meu, criança e mãe, simples e forte
mas antes de tudo você, tão somente você, apenas você, desse jeito que me toca e faz chorar, que me encanta e faz sorrir, que me alegra por estar a meu lado, que me entristece na distância, que me atiça o desejo e acalenta as tristezas, assim, mulher que és, te quero feliz, tão feliz como sou quando estou contigo
mas antes de tudo feliz por estar você comigo
por isso, repito, hoje não vou falar que te amo
apenas te apreciarei no silêncio doce da sua presença
(que me encanta).
não acendo um cigarro, não componho um poema, muito menos escrevo um conto, nada, isso é o que faço, e por nada fazer é que penso/sinto tanta coisa por você. na minha imobilidade sou capaz de construir algo mais valioso que um poema ou conto (o câncer de pulmão não entra aqui) que é o sentimento que nutro por ti. tu apareceu meio que do nada em uma noite que não lembro estar ou não estrelada (estrelas brilham mesmo depois de mortas, as que vemos iluminando o céu nas belas noites de verão nada mais são que apenas reflexos do que já foram outrora, ou seja, brilham, mas estão mortas, já meu amor por ti reluz com força e vida a cada novo dia, está vivo, e a luz que emana dele ilumina não só noites mas também os dias em que estás comigo). sei que pensar é como se olhar no espelho da razão e refletir (ver-se re-fletido) e acontece, muitas vezes, de vermos o que não queremos ou talvez nem mesmo devêssemos ver, dessa forma, o ato de re-fletir-se racionalmente pode vir a não ser tão bom assim. mais vale me olhar na claridade do rio que corta meus sonhos, a limpidez da águas que por ele correm levam-me a enxergar o que um mero espelho de razão não me possibilita ver: o sentimento. sentimento é como o pudim de leite que minha mãe faz: de tão saboroso chega a parecer mentira que exista algo assim bom pra valer. e é quando o sabor/sentimento (que de tão bom parece nem existir) toca aquele parte escondida por sob o tapete sujo da razão que finalmente no vemos frente a frente com certos dilemas da vida. um deles seria o amor: amar, está claro, é um sentimento motivado pelo cérebro, o coração é um símbolo criado, o que leva mesmo uma pessoa a amar outra é o que o órgão que fica na cabeça produz de sensações motivadas por aquela que será a pessoa amada. no meu caso, você nãnaira. enfim, em meio as idéias que o cérebro produz de boas ligadas ao amor existem também as ruins, ou seja, o amor têm duas caras: a boa, que seria a produtora de sensações de prazer, carinho, satisfação, orgulho. e a ruim, ligada as questões do medo, dor, tristeza. no meio de tudo isso, eu: o que ama e se vê no espelho da razão preferindo o reflexo límpido das águas do rio que corta meus sonhos e enfrenta assim dilemas na ordem de pensar e sentir querendo apenas sentir mas muitas vezes sem querer acredite é mesmo sem querer acaba acordando e dando de cara com uma cara de babaca que só depois de alguns segundos percebo ser a minha e apenas aí percebo o que essa cara de babaca que é a minha faz ali na minha frente ela me olha e nesse refletir-se é que está o problema porque ela reflete aquilo que não quero ver: meus medos.
o tempo passa lá fora e eu aqui: não acendi um cigarro, não compus um poema e muito menos escrevi um conto, mas uma coisa eu posso te dizer: aqui, sentado frente a esse teclado, ouvindo a água que de leve ia molhando seu corpo eu constatei, novamente, que meu amor por ti é forte o bastante a ponto de superar encarar esses reflexos que teimam em aparecer na minha frente quando eu menos espero. e assim, pronto pra mais uma batalha entre pensamentos e sentimentos, eu guardo pra ti um pedacinho do rio que corta meus sonhos, depois, quando acordar, vou colocar bem devagar um pouco dos sonhos que guardei num balde e saio á rua cantando bem ALTO que estou levando sonhos pra mulher que amo. (e o que ninguém nunca saberá é que esses sonhos não são apenas sonhos, mas sim a verdade dos sentimentos que escondi nos sonhos e que chamo de amor: meu amor por você).
por ora, paro por aqui, preciso dormir para trabalhar amanhã, ouço leoni (“diz pra eu ficar muda, faz cara de mistério(...)”, relembro seu rosto, sempre tão belo, tão doce..., se a mim fosse possível te desenhava e guardava no mais profundo de mim, mas o máximo que sou capaz de fazer é rabiscar toscas palavras que, dificilmente, serão capazes de expressar tanta beleza (física e interior) que compõem um dos mais belos poemas que pude presenciar (e tentar ler enquanto pessoa) em minha vida: você, você: nãnaira.

Carlos Henrique dos Santos
Primeiro trimestre de 2008.

Eu e ela conto

Ela apareceu do meu lado e disse oi, eu levantei a cabeça e respondi oi, dando a volta em torno da mesa ela disse posso sentar?, fechei o livro e disse pode, depois de puxar a cadeira e se acomodar ela disse eu acabei de tomar café, toda vez que eu bebo café eu sinto vontade de falar com alguém que eu vejo e que me chama a atenção, eu sorri meio sem graça e disse onde você me viu, ela piscou, passou a mão pelo cabelo e disse primeiro no elevador, eu estava descendo de um e você entrava no outro, despertou minha curiosidade a maneira como você segurava sua mochila, depois que passei por você eu fumei um cigarro e subi novamente, então te vi entrando na biblioteca, fui tomar meu café pensando em entrar aqui e falar contigo (lembra que depois do café eu preciso falar com alguém?!), eu disse nossa, quanta coisa e passei a mão sobre a capa do livro, ela disse é, quanta coisa, você deve estar me achando estranha, não?,eu disse não, não mesmo mas engraçada eu to te achando, ela sorriu e disse que bom, menos mal, eu cocei a perna e disse é, talvez seja bom mesmo, ela disse tomara que seja e tirou uma cutícula da unha, eu disse vamos fumar um cigarro?, ela disse sim, vamos e abriu um sorriso grande, levantamos e saímos da biblioteca para fumar um cigarro, ela disse tem isqueiro?, eu disse tenho, ela disse olha, eu não quero que você me ache estranha mas é que você chamou mesmo minha atenção, eu fui falar com você porque a vontade era muito grande, entende?, eu disse entendo e traguei forte pensando em como era estranha essa menina, ela disse eu te achei lindo, por isso fui até a biblioteca atrás de você, eu disse lindo? , e ri engasgando com a fumaça, ela disse é, lindo, não sei se só lindo mas alguma coisa balançou dentro de mim quando te vi, eu traguei em silêncio e disse faz tempo não me dizem isso, na verdade nem lembro direito se já ouvi isso algum dia, ela disse duvido e tocou meu rosto enquanto soltava a fumaça, eu disse algo que não lembro e fiquei vermelho, ela disse posso e eu disse o quê?, ela disse feche os olhos e eu fechei, ela tocou minha boca com seus lábios finos e eu me excitei, ela mordeu de leve minha boca e eu me excitei ainda mais, ela puxou meu cabelo com força e eu lembrei da minha mãe me fazendo cafuné, ela afastou sua boca da minha e disse eu sabia, eu sorri e disse sabia o quê?, ela prendeu o cabelo num rabo de cavalo e disse que você era o homem da minha vida, eu sorri e disse como assim homem da sua vida, como você pode saber disso se nem me conhece?, ela acendeu outro cigarro e disse eu sonhei ontem que ia encontrar o homem da minha vida e que quando a gente se beijasse eu saberia, eu disse que sonhos são apenas sonhos, ela disse não, meu sonho foi muito real e você era você mesmo, não era outra pessoa, eu acendi um cigarro também e disse não acredito muito nisso, fica parecendo coisa de destino, ela disse é isso mesmo, destino, esse é o nosso destino, ele está escrito desde ontem, eu senti um cisco no olho, cocei, traguei o cigarro, senti a fumaça entrar, sair e disse mas eu não acredito em destino, então como posso estar assim no seu sonho e no seu destino, ela sorriu e disse seu bobo, tragou forte e disse o destino não é meu nem seu, ele é nosso, eu fiquei quieto pensando no que falar, traguei uma-duas-três vezes seguidas soltando logo a fumaça e disse acho que vou embora, ela segurou meu braço e disse não, não vai, fica, não é pra você se assustar, eu apaguei o cigarro com o pé e disse tá, ela soltou o cabelo, segurou minha mão e disse eu te amo, eu disse que isso menina, você não pode me amar sem nem me conhecer, ela disse eu te amo porque eu te conheço, eu sempre te conheci, além do sonho de ontem você estava nos meus outros sonhos, desde os 11 anos que sonho com você, só que você não tinha sua cara, sempre aparecia com uma máscara, um pano no rosto ou encoberto por uma nuvem de fumaça, eu disse você é mesmo engraçada,engraçada e estranha, ela disse você não me ama?, e eu disse não, ela disse não faz mal, um dia você vai entender e vai me amar, vai me amar mesmo sem entender, eu disse será?, e sorri, ela disse sim, claro que vai, está tudo escrito, eu disse tá ficando bom, não tá?, ela disse tá mas vamos parar aqui e amanhã a gente termina, quer um café, eu disse quero, ela levantou e disse salva aí então enquanto eu preparo o café, eu disse tá, vou salvar no pen drive e selecionei o texto, ela disse (gritando da cozinha) tem cigarro?, eu disse tem, ela disse traz um pra mim, eu disse levo e desliguei o computador.

Nosso sonho

Nosso sonho não vai terminar,
desse jeito que você faz(...)

(Claudinho e Buchecha)

Era um sonho e eu sabia mas ainda assim não queria sair. Era um sonho sonhado por mim mas que se confundia com o sonho que ela me contara pela manhã. Este se resume da seguinte forma - palavras dela: “existe todo um clima de sedução no ar, estou sentada fumando, uso um batom vermelho fortíssimo que deixa pequenas marcas na taça em que bebo meu vinho – tinto seco - sobre meu ombro direito pende uma das alças do vestido, que visto especialmente para a ocasião, trago o cigarro e antes de soltar a fumaça dou um grande gole no vinho, para sentir uma confusão de sabores, muito parecida com o gosto que seu corpo libera a cada vez que minha boca trabalha intensamente a beijar e beijar e beijar cada pequeno pedaço seu, deixando marcado todo sentimento que guardo por ti, sinto como se fosse uma atriz francesa, daquelas de filmes antigos em preto e branco; gosto de me sentir poderosa, de sentir que sou desejada por você. Em determinado momento troco de sonho, agora estamos os dois sentados em uma varanda que não conheço, seu braço me envolve, é lindo, um momento simples, belo e singelo”

Eu estava lá mas ela não me via, era um observador do sonho sonhado por ela sem que ela soubesse que era observada. Era uma mistura de sonhos, meu e dela, e no meu, antes de chegar ao lugar em que ela está sentada, taça e cigarro na mão, eu caminhava por um lugar desconhecido até ter minha atenção desviada para uma casa em que três belas jovens estavam sentadas no portão, elas sorriam e acenavam para mim, algo como um chamamento, eu também sorria e caminhava até elas sentindo uma grande excitação não só física – que podia ser constatada com um olhar detalhado abaixo da minha cintura - como também emocional, que se percebia no grande sorriso que trazia aberto, cratera a exalar lavas de alegria. Então uma voz falava comigo, uma voz que era a sua voz, como num telefonema, e me dizia para caminhar mais e não parar ali, com aquelas meninas, eu obedecia e, seguindo em frente, encontrava você sentada em uma varanda, violão na mão, entrava, sentava, acendia meu cigarro e assim, em silêncio, olhava pro céu, pro nada, pro tempo, e sentia sua presença intensamente junto de mim.
Acordo assustado e continuo a sentir você ali, junto, perto, grudada em mim. Levanto, acendo um cigarro, mijo, olho meu pau mole e fico assim: cigarro aceso na boca e pau mole pra fora, estático, sendo observado por mim, então lembro de você, você nua, você sentada nua na cama, livro na mão, concentrada, completamente absorvida pelo que lê a ponto de não perceber que estou parado a te olhar, desenho lentamente cada parte do seu corpo, vou cobrindo sua nudez com todos os desejos que você alimenta em mim. Em silêncio me sento e fico pensando como seria minha vida sem você, a dor de encarar uma existência sem sua presença, sem seus olhares de reprovação a cada vez que ajo de maneira errada, sem seus ora ora em respostas às minhas perguntas tolas e sem sentido, como a dizer – de cara emburrada feito uma criança enfezada e sem paciência – ora bolas, mas você não está entendendo?!, sem o cheiro forte do seu café invadindo minhas narinas me levando a acordar com a frágil certeza de que a felicidade pode sim existir e se fazer presente nos momentos simples e singelos, como esse, em que o cheiro do seu café forte me acorda antes mesmo que você invada o quarto, caneca na mão, a me dizer baixinho, ei, acorda, olha aqui seu café, e no momento exato em que abro os olhos sinto seus lábios a tocar a ponta do meu nariz, deixando novamente ali registrada a marca do seu carinho; então, antes que você perceba que estou ali sentado, me arrasto feito uma lesma pelo chão e toco a sola do seu pé, bem de leve, o toque produz em você um pequeno susto, o livro cai de suas mãos, você sorri, me puxa pelos cabelos e me beija com força, me chama de seu menino mimado e carente e me beija beija beija, sinto sua louca língua a correr alucinadamente por minha boca, seu beijo me encharca de desejo, toco seu sexo molhado, envolvo com a boca seu seio, primeiro o direito, depois o esquerdo, desço lentamente beijando cada pequeno pedaço do seu corpo, assim como o mergulhador se entrega ao mar me entrego inteiro a você, me afundo no mar do seu sexo, chafurdo feito o porco que remexe o lixo no terreno baldio próximo a minha casa, assim como ele sacia sua fome eu sacio meu desejo em você e de você.
Era um sonho e eu sabia mas ainda assim não queria sair. Era um sonho sonhado por mim mas que se confundia com o sonho que ele me contara pela manhã. Este se resume da seguinte forma - palavras dele: “não estou dormindo, sei disso como sei que também não estou acordado, é como se estivesse envolto em uma espécie de entre-sono, isso, estou nesse entre-sono mas penso com extrema clareza, penso: estou deitado, durmo e sonho, sonho que escrevo um conto em que um jovem conversa de maneira intensa com uma menina que o aborda em uma biblioteca, a menina é um tanto estranha, diferente mesmo das meninas tradicionais. Uma hora, ainda no sono e no sonho, essa menina recebe o seu rosto, antes eu não era capaz de vê-la com clareza mas agora ela tem seu rosto, assim como você ela me olha de um jeito diferente, como se quisesse encontrar ou mesmo tirar de mim algo que nem eu mesmo sei possuir, é estranho mas é bom, é gostoso, pois sinto que ela-você gosta de mim, gosta de uma forma diferente, uma forma só sua-dela, uma forma apaixonada, é, posso dizer isso: apaixonada. Ainda é sono e ainda é sonho, sei disso mas as ideias ainda são claras demais, vejo cada letra antes de colocá-las no papel, então acordo."
Sentada fico ouvindo ele me contar seu sonho, deixo transparecer uma atenção que não tenho, apenas olho e mantenho meu silêncio, vejo como ele parece nervoso, fuma intensamente dando seguidas tragadas no cigarro e se enrola com as palavras. Eu não sabia que à noite esse simples sonho fosse me abalar tanto. Acordei assustada, bebi água e engasguei tamanha a ânsia que me consumia, uma ânsia inexplicável de sair logo do sonho, de fugir daquele emaranhado de palavras que sabia serem dele mas que me tocavam de modo intenso e estranho, como agulhas entrando lentamente em minha pele, perfurando lenta e dolorosamente meu corpo. Esse eu que recebe um outro rosto ficou martelando em minha memória, não conseguia visualizar a cena: um outro corpo, uma outra mulher e depois eu, melhor, meu rosto apenas, meu rosto em um corpo que não sei qual é mas que estava ali, no sonho dele, um eu-ela que só ele sabia como era, tudo era inimaginável pra mim e me confundia ainda mais. Acordei suada, com certo cansaço mesmo no corpo, lembro de ouvir uma menina (eu, será que sou eu essa jovem um tanto estranha, diferente mesmo das meninas tradicionais?), que falava muito, não parava de falar em momento algum, todo o tempo falando, falando; não, não quero, lembro que acordei quando eu-ela falava rápida e intensamente, fui me identificando sem querer com as imagens que ele construiu dessa jovem a ponto de acordar morta de sede, então caminho até a geladeira e bebo sofregamente no gargalo mesmo da garrafa, me engasgo, tusso que é uma barbaridade, ainda sinto certo cansaço que não sei mesmo como surgiu mas que faz todo meu corpo doer, enquanto guardo a garrafa penso em ir até o banheiro e me olhar ao espelho mas sinto medo: e se for o eu-ela a se refletir?, e se eu não tiver mas o meu rosto?, se não reconhecer a mim mesma no meu próprio espelho, no meu próprio reflexo?, abro novamente a geladeira e me entupo de água, bebo com mais vontade do que sede, bebo para ter o que fazer e desviar minha atenção, bebo para esquecer o sonho, para esquecer tudo que ele me disse sobre o sonho que teve, bebo para esquecer do sonho e para não me perder de mim, para continuar sendo eu mesma amanhã ao acordar. Decido escrever para tentar esquecer, encho a garrafa, guardo, caminho até o quarto e ligo o computador, sento e fico pensando no que escrever, no que falar a mim mesma para me sentir bem, para me sentir eu e esquecer, apagar o que ele me disse e que me levou a esse estado de nervos, então digito: era um sonho e eu sabia mas ainda assim não queria sair. Era um sonho sonhado por mim mas que se confundia com o sonho que ela me contara pela manhã.

(com a colaboração de Fábio Fonseca e Fiama Parreira)

Todas as mortes são bestas, mesmo as literárias

Ao meu pai, em memória.

Não tenho medo da morte, talvez por isso ainda esteja vivo, talvez, não tenho certeza.
Durante um período da minha vida, entre os vinte e trinta anos, acreditava que todos os dias seriam os últimos, mas quando completei trinta passei a ver a vida e a morte como uma espécie de estado de torpor, assemelhando-se ao entreato dormir-sonhar, como se um estivesse preso ao outro, num laço de ligação-continuidade, então descobri que poderia ser feliz, mesmo com a iminência da morte a me espreitar dia e noite.
Agora já com oitenta anos vou vivendo cada dia não como o último, mas sim o primeiro, numa eterna cadência que se constrói num ritmo melódico, quase um samba, ou mesmo um blues.
No meu trigésimo aniversário fui à padaria da esquina tomar meu café, em seguida comprei um maço de cigarros_ não fumava até então_ tomei três cervejas e fui pra casa escrever. Estava há dois meses aposentado, pagara uma quantia até certo ponto modesta para passar todo o restante da minha vida sem trabalhar utilizando a desculpa de que possuía certos distúrbios mentais que me impossibilitavam de dar aulas, me coloquei assim a escrever, única atividade, além do sexo, que me dá realmente prazer. Depois descobri que beber e fumar também eram mais duas obras-primas da vida que o homem inventara. Desde esse dia essa rotina se instaurou em minha vida, acordo, tomo um bom banho sentindo o carinho da água fria a passear por todo meu corpo, visto uma bermuda e uma camisa, mesmo no inverno, calço minhas sandálias de dedo e saio com destino à padaria, lá tomo meu café, compro meu cigarro e bebo minhas três cervejas. Há dias em que bebo seis, ou mesmo oito. Quando acontece de ser assim chego em casa com uma ânsia ainda maior de sexo. Como nem sempre estou me relacionando com uma mulher que conviva dia a dia comigo utilizo a masturbação como um refúgio para dar vazão ao meu prazer acumulado.
Minha infância não merece ser citada aqui, de nada me serviu para o decorrer da minha existência, considero que nasci para valer aos trinta anos, antes disso vejo-me como alguém que apenas andava pelo mundo, não só sem rumo, mas também sem prumo ou algo que o valha.
Quando me perguntam, vez ou outra, como é chegar aos oitenta digo que não sei, para mim tenho cinqüenta anos e falo a verdade nessas horas. Meu nascimento se deu na padaria, num já longínquo treze de setembro, como parteiros um café forte e quente, um maço de cigarros filtro amarelo e três cervejas bem geladas, meu cordão umbilical se cortou no banheiro de casa com Milena tornando meus castos pensamentos mais excitantes.
Amores tive aos montes, uns mais duradouros, outros menos: apenas surtos de paixão. Assim como aquela vontade louca de mergulhar num mar de águas claras num quente dia de verão eu me entregava a algumas paixões por puro impulso e desejo/necessidade de sentir a vida pulsando dentro de mim. Meu coração é como uma caixinha de música movida pela melodia da paixão, toda vez que o abro, ou tento, um leve som de encantamento e desejo se faz ouvir em meus sonhos, então escrevo.
Minha escrita é uma continuidade dos meus amores, assim como vivo para escrever amo para viver, se não amasse não escreveria, penso.
Minhas caminhadas de ida e volta à padaria são como folhas ou a tela em branco se abrindo para mim enquanto espaços de libertação, boa parte dos livros que escrevi tiveram suas construções estruturadas neste percurso, que não foi o mesmo em todo esse tempo. Desde meu nascimento aos trinta anos morei em sete lugares diferentes, dessa forma são sete os caminhos da minha escrita. Mas em todos eles o início e o fim sempre foram ou tentaram ser o mesmo. Casa-caminho-padaria-caminho-casa são as bases de sustentação da minha produção literária.
Dos meus amores poucos realmente merecem ser citados aqui, digo isso porque esse texto não se pretende um resumo de minha vida, muito menos um testamento literário, espero viver ainda alguns anos, e dessa forma tudo o que faço aqui é catar na memória reminiscências que tenham contribuído de maneira válida para minha vida em todos esses anos. Meu texto é um caminho que uso para trilhar rumos que me façam enxergar melhor os erros e acertos que por ventura tenha cometido nesse período, algumas vezes é ele o único trajeto possível.
A verdade da escrita é aquela que nós escritores queremos que seja, talvez por isso não vá deixar aqui rastros que possam ressuscitar em minhas lembranças sensações que outrora me trouxeram tristezas, aos amores passados quero deixar apenas toques de carinho, palavras de ternura, mas não são todos que merecem isso, então o que faço é criar a mulher perfeita que não tive, Milena: meus desejos e receios, minha ânsia de amar e ser amado sem medo de olhar o futuro e encarar a incompleta certeza que é o viver, Milena: o beijo mais completo, o sexo mais puro, mais gostoso, aquele no qual gozei minha eterna condição de amante desarmado, Milena: a boca macia, de traços finos e gosto de céu azul, Milena: a que lia pra mim contos do Cortázar à noite, amante de Ana Cristina César e poeta nas horas de insônia, Milena: a menina que se dizia mulher e me amava sem medo de sofrer, Milena: a que me viu chorar tardes e noites com medo de escrever coisas que pudessem despertar em mim o arrependimento, como se a escrita não fosse um eterno arrepender-se, daí a necessidade de se produzir mais e mais e mais, Milena: a dos cabelos pretos, ruivos, loiros, a do sexo molhado, dos beijos secos e duradouros, a da bunda arrebitada que gostava de me ver lendo poesias nu, Milena: a que me beijava como se quisesse levar consigo todo meu ar, Milena: a doce menina que um dia quis conhecer para lhe dedicar meus versos de amor, Milena: àquela para quem choro até hoje nas noites de solidão regadas a cervejas e doses generosas de conhaque, Milena, Milena, Milena.
Minha escrita e meus amores possuem fortes laços que os unem, talvez eles não saibam, por precaução então evito falar sobre isso, sigamos em frente.
Muitas vezes eu chegava em casa retornando da padaria, sentava, olhava a folha em branco, segurava a caneta e assim ficava por minutos seguidos, depois levantava, ia mijar, voltava e repetia o mesmo ritual, duas horas depois já tendo ido quatro vezes ao banheiro e não tendo escrito nada eu levantava e caminhava novamente até a padaria, tomava então seis, sete cervejas e fumava o maço que normalmente durava um dia inteiro, comprava outro e retornava para casa, ia direto tomar um banho, depois catava algo para comer na cozinha, em geral tinha ainda que preparar tudo_ a não ser nos períodos em que vivia com alguma mulher, empregadas nunca tive e o fato de ter uma, digamos, namorada, me motivava a ir para cozinha preparar almoços e jantares que servissem para tornar ainda mais saborosa nossa relação_ (sei que a metáfora da refeição vir a tornar uma relação mais saborosa é um tanto batida, gasta, mas nem por isso menos bela e objetiva em suas intenções)_. Havia dias em que chegava em casa e em duas horas tinha sobre minha mesa de dez a vinte folhas riscadas frente e verso, nesses dias costumava comer fora, feliz com meu alto índice de aproveitamento do tempo para minha escrita, após almoçar ia andar a toa pelo centro da cidade, ao fim da tarde sentava num bar qualquer e me deixava embebedar sentindo a noite baixando sobre mim feito um manto que viesse encobrir mais um dia que se perdia no tempo, ali, bem a olhos vistos.
Por mais que não queira volto a falar de Milena.
O fato de criar aqui uma mulher que se proponha trazer em seu cerne todas as outras, ou mais, carregar tudo aquilo que procurei por todos esses anos em todas elas inutilmente não quer dizer que Milena não tenha existido, existiu sim uma Milena em minha vida, mas assim como a Milena de Kafka, aquela para quem o escritor mandou diversas cartas e por quem se apaixonou perdidamente, minha Milena tem um quê de falsa, algo que habita nela e que me leva a duvidar da sua real existência. Na leitura das cartas do escritor tcheco várias vezes me deparei com a dúvida se essa jovem existira mesmo ou se não fora ela apenas um subterfúgio usado por Kafka para preencher sua carência, seu vazio fruto dos dissabores amorosos de sua vida_ para os que não sabem Kafka noivou três vezes, sendo duas delas da mesma mulher e não casou-se nunca, tendo alimentado por Milena, moça bem mais jovem que ele, uma doce e amarga paixão, impossível, talvez por isso ainda mais doce_ enfim, assim como a Milena do escritor de Praga a minha me fez e ainda faz duvidar de sua existência; real ou não, minha Milena foi mais do que um sonho, durou mais do que apenas o tempo que eu sempre considerei suficiente e válido ao me relacionar_ sete anos_ me pegou digamos que desprevenido, foi o que se costuma chamar de uma paixão arrebatadora, mais jovem que eu trinta anos_ na verdade sempre a considerei da minha idade, nos conhecemos quando eu tinha, pela data de nascimento atribuída a mim por meus documentos, cinqüenta anos, mas, para os que têm acompanhado essa minha narrativa, sabem que nasci ao completar trinta anos, dessa forma, Milena e eu tínhamos a mesma idade quando nos encontramos naquela manhã de chuva na padaria, eu tomando minha cerveja, ela a dela. Nunca imaginei que pudesse encontrar uma jovem tão bela as sete da manhã bebendo cerveja num balcão de padaria, nunca imaginei também que essa jovem pudesse me olhar e me reconhecer enquanto escritor, que essa jovem tivesse lido todos os meus livros e fosse, o que se costuma chamar, minha fã, também não imaginara até então que ela fosse pedir para beber comigo, que ficaríamos ali duas horas, que sairíamos bêbados nos escorando um no outro e iríamos para minha casa, que juntos tomaríamos banho e treparíamos no chão da sala ao som de Los Hermanos (“senta aqui, que hoje eu quero te falar, não tem mistério não, é só teu coração que não te deixa amar...”), que passaríamos a tarde toda lendo poemas um para o outro, que sairíamos para jantar e voltaríamos novamente bêbados para casa, agora a sua, que tomaríamos outra vez banho juntos e depois treparíamos sobre a mesa da cozinha, sem música, sem falar nada, apenas ouvindo o som do vento lá fora, o mesmo som que eu ouviria vinte anos depois no enterro de Milena. Por tudo isso, pela forma como se deu, pelo emaranhado de angústias pelo qual me embrenhei no que costumo chamar de meu período pós - Milena é que ainda tenho dúvidas se tudo aconteceu mesmo, se Milena não foi apenas um surto esquizofrênico meu, ou ainda uma simples criação literária frustrada que passou a conviver comigo, Milena: aquela que tanto amor me deu, por quem tanto chorei, que me motivou nas muitas vezes em que pensei desistir da escrita, que foi minha inspiração, meu oitavo caminho literário, aquela que arrumou e re-arrumou toda minha vida, que virou de ponta cabeça minha realidade e minha ficção, como pode Milena, você ser apenas essas seis letras M-I-L-E-N-A que ora escrevo e que para quem me lê não passa de uma imagem?
Não vou falar porque considero os sete anos meu período ideal de relação e também não entrarei em detalhes sobre o fato de Milena ter sido uma inspiração para mim, já que penso a escrita como um exercício, algo que se constrói dia a dia, na vivência do escritor com suas criaturas, com as palavras que o cercam e envolvem, com seus medos, desejos, frustrações, sonhos etc. Como não tenho a total certeza se Milena existiu mesmo ou não posso assim dizer que ela foi mais do que uma inspiração, ela foi uma criação minha, apenas uma personagem, mais nada.
Depois de Milena minhas relações perderam um pouco da sua cor habitual, passei a ser um homem mais centrado no meu trabalho, às mulheres releguei meus momentos de prazer puro, sem compromissos ou ligações mais fortes. Uns chamam isso de safadeza, eu penso que seja apenas uma maneira de viver, nada mais. Se não quero estabelecer laços fortes com ninguém ajo com extrema justiça ao buscar apenas sexo com aquelas que sei estão dispostas a oferecer-me isso. Por outro lado minha escrita ganhou em alguns aspectos e perdeu consideravelmente em outros, como tenho por hábito me ligar muito ao que produzo e ainda me ligar mais fortemente às mulheres mesmo por um tempo curto, a opção de não levar adiante vínculos amorosos fez com que minha produção literária passasse por mudanças, boas ou más não compete a mim julgar, seria narcisismo demais, deixo aos críticos essa tarefa, já que eles não produzem nada de útil mesmo, então que se virem em ler e re-ler meus textos à cata de algo que os faça pensar e em seguida produzir suas apreciações fúteis e banais como compete aos melhores críticos.

“(...)sentimento brandoardor de corposespelhos de nós mesmosmentes que voamabrigo de nossas caríciasnada escapanenhum detalhe está ausente.”

Lendo esse fragmento de um poema de um jovem e bom autor, fiquei pensando outra vez em Milena, dói tanto saber que a morte existe, por mais que não a tema, o fato de possuir essa consciência de fim, de falta, me causa certo desconforto, não ter medo de morrer me levou, penso, a encarar bem minha vida com suas dores e alegrias, mas no dia em que Milena morreu senti como se uma parte de mim estivesse sendo jogada no lixo, em alguma espécie de poço extremamente fundo do qual apenas com muita força eu poderia retirá-la, mas esse retirar é como escrever, apenas minha memória, minhas lembranças teriam outra vez Milena, porque concretamente, realmente, eu ficaria apenas com os sentimentos de saudade, aquela dor melancólica doendo forte no peito. Por isso escrevo, para trazer outra vez à tona momentos perdidos para sempre, e que apenas através da memória, das lembranças, ganham novamente vida, pequenos resquícios perdidos no tempo, em algum lugar distante do passado, obscuro, turvo, mas vivo, de alguma forma, por mais sepultado que esteja o passado, a lembrança sobrevive, se mantém de pé, mesmo que apenas dentro de nós, em forma de choro ou de riso, assim como Milena: essa pequena menina de lábios macios que um dia desenhei na retina do meu olhar e que agora, tempos depois, ainda está aqui viva em forma de palavras, só minha, toda minha: Milena.
Queria acabar esse texto, mas não consigo, alguma coisa ainda me prende a ele, e acabar agora, dessa forma, soaria melancólico demais, não quero deixar a sensação de que sou um homem triste, meus oitenta anos me fizeram aprender, por bem e por mal, que na vida não adianta ficar chorando o leite derramado, que as saídas somos nós que construímos com nossas próprias mãos, sujando-nos no barro que nos molda: ser humano, defeituoso. Um texto que tinha por finalidade falar de mim acabou virando um elogio a Milena, uma declaração de amor à mulher que me fez enxergar o mundo por um outro ângulo, muito mais próximo do real do que até então eu fora capaz de ver. Por mais que tente é-me extremamente penoso dar um ponto final, sinto como se fosse morrer ao encerrar esse texto e por mais incoerente que possa parecer, já que me vanglorio de não temer a morte, o que me dá medo é a morte do texto e não a minha, é selar com um simples ponto final esses fragmentos que fui soltando aos poucos pela tela do computador, minha morte seria simples, banal até, como todas acabam sendo, mas minha morte literária queria diferente, sem glamour, mas com algo puro, singelo. Enfim, acho que não me resta mais nada a fazer a não ser dizer fim: fim. Em seguida pôr aqui um ponto final, assim: . Depois pensar que agora só me resta viver.

Carlos Henrique dos Santos.

PS. Conto vencedor do Primeiro Concurso de Contos do Centro Acadêmico de Letras Carlos Drummond de Andrade. FFP/Uerj-2008