quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Hoje acordei querendo beijar a Ana Hickmann

Para Isabela Pasini

O futuro, assim como o passado, é uma mera projeção que fazemos, na verdade nenhum dos dois existe. O primeiro por ser aquilo que ainda não foi vivido não possui existência, se constitui enquanto um querer-ser, um vir a ser que ninguém pode definir ou supor o que seja; por ainda não ter acontecido o futuro se nos apresenta apenas como uma idéia, uma extensão dos nossos pensamentos que refletimos na parede do desejo, e assim ficamos a espera de que se concretize. O segundo apresenta mais indícios de verdade; querendo ou não o passado é aquilo que já vivemos, o que já foi presente um dia. Mas será mesmo assim? Será o passado simplesmente aquilo que vivemos? Ou será aquilo que guardamos do que vivemos? Sendo conforme o segundo caso o passado também é falso, falso porque aquilo que guardamos de nossas vivências não é realmente o que foi vivido. O passado é falso. A memória não retém tudo, apenas pequenos fragmentos do que foi vivido outrora se grudam à parede suja da lembrança; assim, passado e futuro se assemelham ao serem projeções, um do que virá e o outro de uma parcela ínfima do que foi, apenas aquela que mais nos satisfaz.
Somos nós os donos do nosso passado. Artistas da mentira, nos criamos a imagem e des-semelhança do que fomos um dia.
Pedro talvez não se preocupe em divagar sobre passado e futuro, para ele apenas o presente importa, mas Pedro é ingênuo e sonhador. Há sete meses que sonha em beijar a Ana Hickmann, sua paixão por ela remonta ao período em que foi demitido de seu trabalho de jornaleiro; na banca em que trabalhava Pedro se deliciava com as muitas e muitas fotos da modelo que se espelhavam feito nuvem no céu pelas páginas das mais diversas revistas. Rapaz solteiro no auge da puberdade e do desejo que os 16 anos proporcionam Pedro logo estabeleceu uma relação carnal com Ana, mas nessa relação apenas a carne do jovem participava, de Ana sobravam apenas pedaços de papel que se aglomeravam por debaixo das roupas de Pedro guardadas com tanto zelo por sua mãe em uma gaveta. O prazer de Pedro era um prazer de papel, mas mesmo assim intenso e verdadeiro. A sinceridade está mais em quem acredita do que nela mesma e isso independe de como ela se materialize verdadeiramente.
Desempregado Pedro passou a ter mais tempo para pensar em sua musa, mesmo sem as muitas revistas que a traziam na capa ele ainda possuía seus recortes, e de tanto pensar nela um dia, há sete meses mais ou menos, o jovem decidiu que queria beijar Ana Hickmann. Ao acordar com um aperto no peito, uma espécie de sufocamento como se estivesse se afogando em si mesmo, em seu desejo, em seu amor, em sua ânsia de tocar, ouvir, olhar, beijar Ana Hickmann ele decidiu que um dia a beijaria. Sentado à porta da cozinha enquanto vê sua mãe preparando café Pedro vai desenhando nas nuvens do céu seu amor. Ninguém sabe, com ninguém Pedro comentou do seu sentimento tão singelo e sincero por Ana. Para ele falar que ama não importa, o que vale mesmo é amar, e se uma pessoa tiver que ouvir algo sobre o amor essa pessoa deve ser a que é amada. Por isso a única a saber de seu amor só poderia ser ela: Ana Hickmann.
A primeira vez em que a viu foi em um painel publicitário, Pedro caminhava ainda sonolento para a banca em que trabalhava quando teve sua atenção implorada por um par de pernas exuberantes, assim como duas carreiras de cocaína atraem impetuosamente o cheirador para si as pernas de Ana atraíram o olhar de Pedro. Sentindo seu desejo aflorar abrindo-se feito flor na primavera o jovem diminuiu os passos e contemplou avidamente os contornos do corpo da modelo. Como uma câmera que filma para em seguida reproduzir as imagens captadas os olhos de Pedro filmaram detalhadamente Ana Hickmann. Era sempre assim, quando sentia correr com força por seu jovem corpo o desejo ávido por uma mulher ele filmava palmo a palmo, plano a plano o objeto desejado; para depois em casa, no silêncio da noite, ir desnudando, revelando cada fragmento do filme sob a luz da lua. Na película da memória nosso cineasta do gozo guarda suas imagens da voluptuosidade.
O amor, por mais que teimemos em querer definir, em buscar respostas às perguntas muitas vezes vagas, vazias feito uma garrafa de cerveja jogada num canto qualquer do quintal a espera de outra festa que a venha despertar para o porre da sobrevivência diária, não se define. O amor pode ser construído, pode ser mentiroso, pode ser sincero, fruto apenas do desejo ou da carência, mas será sempre amor. Sem definição, sem previsão, sem motivo aparente, sem passado, presente ou futuro o amor acontece. De nada adianta querer pensar o amor, amor não se pensa, sente-se apenas. Dessa forma é que ele se constitui como algo puro, verdadeiro, prazeroso. Querer abarcar um sentimento dentro de uma definição é diminuí-lo, é denegrir a imagem tão singela que ele representa. Por isso podemos sim dizer que Pedro ama Ana com todas as suas frágeis forças de jovem que ainda engatinha pelos dissabores do mundo.
Sete meses depois de encontrar-se apaixonado por Ana foi que Pedro sentiu o mesmo sufocar a espremer-lhe o peito tirando dele todo o sumo de tranqüilidade, assim seco de tanto amor Pedro não encontrou outra alternativa a não ser concretizar o quanto antes seu desejo louco de beijar Ana Hickmann. Acordou cedo e tomou seu café sentado à mesa com sua mãe, silenciosamente Pedro ia construindo aquele dia em seus devaneios. Após a saída de sua mãe para o trabalho ele tomou banho, se arrumou vestindo uma das poucas roupas novas que possuía e saiu. Com o parco dinheiro que conseguira guardar desde que deixara o trabalho Pedro pagou as passagens para chegar a seu destino. Parou à porta do prédio em que a modelo mora e ali se deixou ficar por minutos que se arrastaram lenta e maciçamente por sobre seus desejos. Ao fim de algum tempo a modelo brilhou feito estrela no céu dos sonhos do jovem. Como fazia todos os dias pela manhã ela saiu para ir à academia que ficava a alguns metros de sua casa. Desde o tempo de jornaleiro que Pedro sabia passo a passo a rotina de Ana. As revistas de fofoca lhe serviram para algo, ele sorriu lembrando do jovem cabeludo que sempre brincava com ele por ler “aquelas” revistas, não sabia ele, o jovem cabeludo, que eram essas revistas a ferramenta que Pedro usaria um dia para cavar o túnel que o levasse ao paraíso chamado Ana Hickmann. Depois que a modelo se afastou ele se pôs a segui-la a certa distância. Ainda sem saber muito bem como abordá-la sem parecer um fã besta desses que pedem autógrafo Pedro esperou que ela entrasse na academia e foi sentar-se na calçada do outro lado da rua. Dali ficou lutando com as idéias tentando encontrar aquela que melhor lhe servisse e atendesse a seus anseios de concretizar o tão almejado desejo.
Da mochila que carregava Pedro tirou uma caneta e um pequeno caderno em que rabiscou esses versos:

Envolto em imenso desejo
Fraquejo,
Sorrio um riso vago
Construo na memória um rio, um lago
Nele me afogo,
Molhado de você
Sou salvo
Sou santo
Pregado na cruz da saudade me mato
Rabiscado de tristezas
(um quadro)
Natureza morta: me acabo.

Após a escrita dos versos Pedro sentiu-se mais encorajado a falar com Ana, a declarar bem alto todo seu amor por ela. Assim que a viu sair da academia o jovem caminhou até a modelo e disse-lhe avidamente: sei que posso parecer um menino bobo desses que se masturbam pensando nas mulheres gostosas que a tv exibe todo dia mas vim aqui pra falar pra você que te amo muito Ana já fazem sete meses que não consigo parar de pensar em você todos os dias pela manhã quando acordo minha felicidade é saber que você está viva em algum lugar é ficar alimentando meus sonhos que ainda estão acordados de que um dia eu vou te ver e te falar que te amo por isso Ana eu vim aqui eu enfrentei duas horas de ônibus eu caminhei eu te segui eu sentei aqui nessa calçada eu fiquei sentindo meu desejo correndo nas veias feito sangue você Ana é o sangue que irriga minha vida por você meu coração bate bate bate e me faz me sentir vivo por você Ana eu escrevi esses versos toma olha são pra você pode levar espero que você goste.
No silêncio que se segue à enxurrada da fala de Pedro Ana olha o jovem e lembra dos dias em que ainda menina, moça ingênua e sonhadora, admirava os homens que via na tv achando-os bonitos, perfeitos em seus sorrisos brancos e reluzentes como num comercial de creme dental, mas ela apenas sonhava, por isso agora enquanto olha esse jovem parado a sua frente com uma expressão híbrida de gozo e medo ela sente calma, carinho, ternura, compaixão por ele e mais ainda por ela também. Em silêncio ela começa a ler o poema que Pedro lhe dedicou, suas mãos tremem, sua visão se embaça, ela sabe que não deve, mas vai chorar, o aperto que envolve sua garganta é o mesmo que toda manhã sufoca Pedro. Movido por um impulso Pedro leva a mão ao rosto de Ana e seca lentamente a lágrima que começa a deslizar pelo rosto da modelo, o toque de sua mão fria na pele/lágrima quente da moça o excita, Pedro sente a sensação de leveza que o domina quando sozinho no banheiro de sua casa vai se entregando ao mar de desejo e volúpia que o encharca. Ana encerra a leitura e olha com um silêncio agradecido para Pedro, sente uma vontade grande de beijá-lo, de retribuir o carinho que ele demonstrou por ela, então como num filme que vai sendo montado sem pressa ela se abaixa um pouco (quadro a quadro) e toca o rosto do jovem com seus lábios. A sensação da maciez dos lábios de Ana tocando sua pele faz Pedro excitar-se ainda mais, seu sexo lateja, não sente as pernas bambas, sua vista não fica turva, pelo contrário, sente-se firme no chão, plantado feito uma árvore centenária, sua visão é extremamente clara, pode ver em toda sua simplicidade a beleza de Ana, não a vê como uma mulher perfeita, especial, mas sim como uma menina crescida de um metro e oitenta e cinco, vinte e cinco anos e olhos azuis que brilham como o céu no verão, reluzentes feito o mar que um dia Pedro viu na infância e sentiu uma louca vontade de mergulhar, mas Pedro tinha medo por não saber nadar, agora, enquanto olha o mar-olho de Ana sente a mesma sensação de prazer e medo; ao olhar o mar Pedro sentia desejo de mergulhar, de se deixar molhar todo naquelas águas, mas o medo prevaleceu, foi maior que seu desejo. Hoje Pedro sente o mesmo desejo-medo de sua infância, quer mergulhar em Ana, ir fechando seus olhos com a mão bem lentamente, sentir a pele da modelo sob seus dedos, depois deslizá-los de leve pelo rosto até encontrar a boca, em seguida, sem pressa, ir aproximando seu rosto, deixá-la sentir seu hálito quente a envolvê-la, para aí sim tocar-lhe a boca e se deixar perder no mar do seu desejo, colar seu corpo ao dela envolvendo-a num abraço forte a carinhoso, prendê-la junto de si na eternidade do momento.
Depois de beijá-lo Ana o olha outra vez, as palavras se perdem, fogem dela, deslizam e a deixam muda. O silêncio se prolonga, Pedro se constrange, olha Ana nos olhos e bem lentamente vai se virando de costas, começa a caminhar, fecha os olhos, não quer ver o mundo a sua volta, não quer ver-se a si mesmo ali caminhando de costas para Ana Hickmann depois de declarar todo seu amor por ela, quer fugir, correr, sumir do mapa da vida.
Para Pedro agora o que viverá será o passado, seu presente é esse estar ali só caminhando de olhos fechados para não ver o tamanho da sua solidão, e isso dói. O futuro para ele se perdeu, foi varrido pelo vento do tempo. Os poucos momentos que passou ao lado de Ana é que irão lhe alimentar daqui pra frente, sua vida girará em torno disso, Ana será o eixo que sustentará Pedro e sua vida daqui por diante. Suas frustrações, seus sonhos, os medos, as dores e alegrias, seu prazer, sua angústia, seus delírios, seu silêncio, tudo será preenchido por Ana, pela Ana que ficou alguns minutos parada a sua frente ouvindo sua declaração de amor, que o ouviu ler o poema feito especialmente para ela, chorando em seguida uma dor que ele não sabe qual foi_ e que foi a dor de não ser como ele, Pedro, de não ter sido como ele um dia, em sua adolescência, de ter tido medo_ e será essa mesma Ana, que um dia, daqui a muitos e muitos anos, sem saber porque, acordará assustada no meio de um sonho ouvindo uma voz declamar pra ela:

Pregado na cruz da saudade me mato
Rabiscado de tristezas
(um quadro)
Natureza morta: me acabo.

E sua frágil memória quase centenária não será capaz de lembrar que um dia um jovem escreveu esses versos para ela sentado em uma calçada enquanto a esperava sair da academia, e que esse sonho estranho, como ela contará depois a uma de suas netas, acontecerá na mesma noite da morte de Pedro, atropelado bêbado quando voltava para casa, sozinho, camisa xadrez rasgada no bolso à altura do peito, cigarro na boca, no meio de uma rua escura olhando a lua e pensando nela, em Ana, na sua Ana, que um dia, num passado muito, muito distante, ele tanto amou, e que por isso virou presente, o seu presente eterno, que viveu em seu coração, no seu tempo, no tempo do seu amor.

Carlos Henrique dos Santos.
dezembro de 2006/ janeiro de 2007.

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