quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Nosso sonho

Nosso sonho não vai terminar,
desse jeito que você faz(...)

(Claudinho e Buchecha)

Era um sonho e eu sabia mas ainda assim não queria sair. Era um sonho sonhado por mim mas que se confundia com o sonho que ela me contara pela manhã. Este se resume da seguinte forma - palavras dela: “existe todo um clima de sedução no ar, estou sentada fumando, uso um batom vermelho fortíssimo que deixa pequenas marcas na taça em que bebo meu vinho – tinto seco - sobre meu ombro direito pende uma das alças do vestido, que visto especialmente para a ocasião, trago o cigarro e antes de soltar a fumaça dou um grande gole no vinho, para sentir uma confusão de sabores, muito parecida com o gosto que seu corpo libera a cada vez que minha boca trabalha intensamente a beijar e beijar e beijar cada pequeno pedaço seu, deixando marcado todo sentimento que guardo por ti, sinto como se fosse uma atriz francesa, daquelas de filmes antigos em preto e branco; gosto de me sentir poderosa, de sentir que sou desejada por você. Em determinado momento troco de sonho, agora estamos os dois sentados em uma varanda que não conheço, seu braço me envolve, é lindo, um momento simples, belo e singelo”

Eu estava lá mas ela não me via, era um observador do sonho sonhado por ela sem que ela soubesse que era observada. Era uma mistura de sonhos, meu e dela, e no meu, antes de chegar ao lugar em que ela está sentada, taça e cigarro na mão, eu caminhava por um lugar desconhecido até ter minha atenção desviada para uma casa em que três belas jovens estavam sentadas no portão, elas sorriam e acenavam para mim, algo como um chamamento, eu também sorria e caminhava até elas sentindo uma grande excitação não só física – que podia ser constatada com um olhar detalhado abaixo da minha cintura - como também emocional, que se percebia no grande sorriso que trazia aberto, cratera a exalar lavas de alegria. Então uma voz falava comigo, uma voz que era a sua voz, como num telefonema, e me dizia para caminhar mais e não parar ali, com aquelas meninas, eu obedecia e, seguindo em frente, encontrava você sentada em uma varanda, violão na mão, entrava, sentava, acendia meu cigarro e assim, em silêncio, olhava pro céu, pro nada, pro tempo, e sentia sua presença intensamente junto de mim.
Acordo assustado e continuo a sentir você ali, junto, perto, grudada em mim. Levanto, acendo um cigarro, mijo, olho meu pau mole e fico assim: cigarro aceso na boca e pau mole pra fora, estático, sendo observado por mim, então lembro de você, você nua, você sentada nua na cama, livro na mão, concentrada, completamente absorvida pelo que lê a ponto de não perceber que estou parado a te olhar, desenho lentamente cada parte do seu corpo, vou cobrindo sua nudez com todos os desejos que você alimenta em mim. Em silêncio me sento e fico pensando como seria minha vida sem você, a dor de encarar uma existência sem sua presença, sem seus olhares de reprovação a cada vez que ajo de maneira errada, sem seus ora ora em respostas às minhas perguntas tolas e sem sentido, como a dizer – de cara emburrada feito uma criança enfezada e sem paciência – ora bolas, mas você não está entendendo?!, sem o cheiro forte do seu café invadindo minhas narinas me levando a acordar com a frágil certeza de que a felicidade pode sim existir e se fazer presente nos momentos simples e singelos, como esse, em que o cheiro do seu café forte me acorda antes mesmo que você invada o quarto, caneca na mão, a me dizer baixinho, ei, acorda, olha aqui seu café, e no momento exato em que abro os olhos sinto seus lábios a tocar a ponta do meu nariz, deixando novamente ali registrada a marca do seu carinho; então, antes que você perceba que estou ali sentado, me arrasto feito uma lesma pelo chão e toco a sola do seu pé, bem de leve, o toque produz em você um pequeno susto, o livro cai de suas mãos, você sorri, me puxa pelos cabelos e me beija com força, me chama de seu menino mimado e carente e me beija beija beija, sinto sua louca língua a correr alucinadamente por minha boca, seu beijo me encharca de desejo, toco seu sexo molhado, envolvo com a boca seu seio, primeiro o direito, depois o esquerdo, desço lentamente beijando cada pequeno pedaço do seu corpo, assim como o mergulhador se entrega ao mar me entrego inteiro a você, me afundo no mar do seu sexo, chafurdo feito o porco que remexe o lixo no terreno baldio próximo a minha casa, assim como ele sacia sua fome eu sacio meu desejo em você e de você.
Era um sonho e eu sabia mas ainda assim não queria sair. Era um sonho sonhado por mim mas que se confundia com o sonho que ele me contara pela manhã. Este se resume da seguinte forma - palavras dele: “não estou dormindo, sei disso como sei que também não estou acordado, é como se estivesse envolto em uma espécie de entre-sono, isso, estou nesse entre-sono mas penso com extrema clareza, penso: estou deitado, durmo e sonho, sonho que escrevo um conto em que um jovem conversa de maneira intensa com uma menina que o aborda em uma biblioteca, a menina é um tanto estranha, diferente mesmo das meninas tradicionais. Uma hora, ainda no sono e no sonho, essa menina recebe o seu rosto, antes eu não era capaz de vê-la com clareza mas agora ela tem seu rosto, assim como você ela me olha de um jeito diferente, como se quisesse encontrar ou mesmo tirar de mim algo que nem eu mesmo sei possuir, é estranho mas é bom, é gostoso, pois sinto que ela-você gosta de mim, gosta de uma forma diferente, uma forma só sua-dela, uma forma apaixonada, é, posso dizer isso: apaixonada. Ainda é sono e ainda é sonho, sei disso mas as ideias ainda são claras demais, vejo cada letra antes de colocá-las no papel, então acordo."
Sentada fico ouvindo ele me contar seu sonho, deixo transparecer uma atenção que não tenho, apenas olho e mantenho meu silêncio, vejo como ele parece nervoso, fuma intensamente dando seguidas tragadas no cigarro e se enrola com as palavras. Eu não sabia que à noite esse simples sonho fosse me abalar tanto. Acordei assustada, bebi água e engasguei tamanha a ânsia que me consumia, uma ânsia inexplicável de sair logo do sonho, de fugir daquele emaranhado de palavras que sabia serem dele mas que me tocavam de modo intenso e estranho, como agulhas entrando lentamente em minha pele, perfurando lenta e dolorosamente meu corpo. Esse eu que recebe um outro rosto ficou martelando em minha memória, não conseguia visualizar a cena: um outro corpo, uma outra mulher e depois eu, melhor, meu rosto apenas, meu rosto em um corpo que não sei qual é mas que estava ali, no sonho dele, um eu-ela que só ele sabia como era, tudo era inimaginável pra mim e me confundia ainda mais. Acordei suada, com certo cansaço mesmo no corpo, lembro de ouvir uma menina (eu, será que sou eu essa jovem um tanto estranha, diferente mesmo das meninas tradicionais?), que falava muito, não parava de falar em momento algum, todo o tempo falando, falando; não, não quero, lembro que acordei quando eu-ela falava rápida e intensamente, fui me identificando sem querer com as imagens que ele construiu dessa jovem a ponto de acordar morta de sede, então caminho até a geladeira e bebo sofregamente no gargalo mesmo da garrafa, me engasgo, tusso que é uma barbaridade, ainda sinto certo cansaço que não sei mesmo como surgiu mas que faz todo meu corpo doer, enquanto guardo a garrafa penso em ir até o banheiro e me olhar ao espelho mas sinto medo: e se for o eu-ela a se refletir?, e se eu não tiver mas o meu rosto?, se não reconhecer a mim mesma no meu próprio espelho, no meu próprio reflexo?, abro novamente a geladeira e me entupo de água, bebo com mais vontade do que sede, bebo para ter o que fazer e desviar minha atenção, bebo para esquecer o sonho, para esquecer tudo que ele me disse sobre o sonho que teve, bebo para esquecer do sonho e para não me perder de mim, para continuar sendo eu mesma amanhã ao acordar. Decido escrever para tentar esquecer, encho a garrafa, guardo, caminho até o quarto e ligo o computador, sento e fico pensando no que escrever, no que falar a mim mesma para me sentir bem, para me sentir eu e esquecer, apagar o que ele me disse e que me levou a esse estado de nervos, então digito: era um sonho e eu sabia mas ainda assim não queria sair. Era um sonho sonhado por mim mas que se confundia com o sonho que ela me contara pela manhã.

(com a colaboração de Fábio Fonseca e Fiama Parreira)

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