quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Os anjos estão caindo

ara Iza Quelhas, Virginia Navarro e Gigi Veiga

Acordo decidido a parar de fumar. Levanto e jogo o maço de cigarros que estava sobre a estante na lixeira do banheiro. Tiro a roupa lentamente, sentindo cada pedaço de sono que ainda se gruda a minha pele se soltar. Tomo um banho frio e de olhos fechados experimento uma sensação de alívio, uma luz azul me ilumina todo por dentro, resquícios de você descem pelo ralo em direção ao vazio sujo da cidade lá fora.
Caminho pela casa com uma caneca de café na mão. A vontade de fumar cresce, fecho os olhos respirando fundo e penso no meu pai morto, não choro. Pego um livro do Pessoa em cima do sofá e saio. A rua me absorve com seu hálito quente de mais uma manhã de verão, o barulho de vida que sobe pelos poros da cidade me irrita, vejo pessoas diferentes, mas com a mesma cara, o mesmo rosto disforme, transfigurado pela rotina, pela pobreza de humanidade que envolve o cotidiano.
Ando cerca de trinta minutos até chegar na casa da minha mãe, ela me olha com seus olhos vesgos, sinto uma náusea subir pelo meu estomago a apertar com força minha garganta, penso em ir ao banheiro e vomitar, mas acho que não vou conseguir, olho minha mãe enquanto ela fala, tento prestar atenção em suas palavras, mas tudo que ouço é o zumbido do ventilador de teto: mosca varejeira de metal que zumbe triste e monotonamente uma cantiga fastidiosa. Digo a minha mãe que tenho que ir, ela abaixa a cabeça e pergunta numa voz arrastada se sinto falta do meu pai, saio sem fechar a porta.
Na rua outra vez o bafo do calor me envolve, suo, estalo os dedos e fico olhando os maços de cigarros bem arrumados de uma padaria, o ônibus demora, quero tirar meus sapatos, sinto cede, entro na padaria e peço uma cerveja, ontem à noite queria te ligar, mas fiquei com medo de qual seria sua reação, estava cansado e dormi antes mesmo de ver o fim do jogo, acordei quando já era de madrugada, estava com sede e fui tomar banho.
A cerveja acaba e o ônibus ainda não passou, peço outra e a vontade de fumar aumenta. Fecho os olhos e mijo com força, sinto saudades da minha infância, de olhar o céu azul e ficar imaginando os anjos caindo feito pingos de chuva. Abro o livro e leio:
Se sou mais que uma pedra ou uma planta? Não sei.
Sou diferente. Não sei o que é mais ou menos.
Um engarrafamento começa a se formar, vou ao orelhão e ligo pra livraria avisando que chegarei tarde. Penso em ligar pra você, fico olhando o número de créditos que ainda tenho no cartão tentando contar quantos usarei pra dizer que te amo e que quero voltar. Disco e fecho os olhos, os anjos da minha infância caíam me olhando, me acenavam e sorriam pra mim, vejo-os sérios agora enquanto espero a ligação ser atendida.
O silêncio me deixa cansado, quero tomar banho, tirar de mim essa camada de poeira saudade e melancolia que me invade pelas manhãs. Peço mais uma cerveja acreditando que seja a última; preciso trabalhar, preciso desculpar a mim mesmo por não ter te ligado ontem, preciso voltar pra você, preciso de mais amor, mais carinho, mais atenção, mais respeito, preciso de tanta coisa junta que acabo tendo medo de um dia não precisar de mais nada. Entre o mais e o menos do poema do Pessoa me situo no entremeio, entre ser e não ser fico tentando achar a resposta certa, pedra ou planta? Não sei, não quero saber, tenho medo, e mesmo assim pergunto, cato na memória meu primeiro beijo, a primeira transa, o primeiro baseado, o choro mais triste, o mais longo, busco camuflar a resposta dando-me outras perguntas, outra atividade que possa de alguma forma diminuir meu anseio, minha angústia tem gosto de café amargo pós noite de porre.
Saio da padaria, o engarrafamento está grande, olho o céu à procura dos anjos da minha infância, minha cabeça roda um pouco, a garganta parece coçar pedindo cigarro, pigarreio, cuspo e trinco os dentes tentando afastar a vontade de fumar. Faz calor, suo, quero um banho; terminei e quero voltar, será que você não entende isso? Então não posso mais me arrepender? O que te faz ficar assim tão irreversível em sua decisão? Durante três anos te amei com todas as minhas forças, tentei te guardar dentro de mim feito a roupa que acabamos de passar e vamos bem lentamente pondo na gaveta com cuidado excessivo para não amassá-la, busquei ao máximo não amassar você, procurei te guardar inteira dentro de mim, fechei os olhos pro mundo, vesti máscaras de homem feliz e sincero para encenar o grandioso espetáculo da nossa relação, mas quando mudei de atitude, quando passei a ver você não como a mulher ideal, perfeita, a mulher da minha vida, quando te disse, naquele dia chuvoso sob a marquise de um ponto de ônibus que você era pra mim como qualquer outra mulher, mas que em você eu me deixava mergulhar, que no mar do seu corpo eu era mais eu do que fora até então, penso que você não foi capaz de perceber, de enxergar a diferença fundamental entre ser igual a todas as outras e ser, dentre todas as outras, a única em que o mergulho, a entrega, era total, verdadeira, sincera, fatal, e por isso mesmo necessária.
Tão necessária quanto o passo no caminho, a idéia na cabeça, a dor na doença, você é pra mim algo fisiológico, do qual preciso, você é como o ar que respiro, não quero ser sentimentalista e piegas, mas quando acordo e vejo que terei de encarar mais um dia de vida, quando sinto o ar entrando por meus pulmões sujos de nicotina, quando escancaro as janelas da minha casa e olho o céu a procura dos anjos da minha infância e percebo que você é real, que a camada de sonho que recobria minha pele durante o sono era apenas um fragmento de vida disfarçado, quando tenho a certeza de que vivo, de que há vida em mim, que algo pulsa e arde com força me levando à certeza da existência, é aí, nesse exato instante, nesse intervalo de segundos entre o ato de respirar e o de sentir o ar entrando, preenchendo, ocupando seu lugar no pulmão, é então que sinto sua falta, que me vejo fraco, vulnerável, e quando me dou conta do tamanho do vazio que seu amor deixa em mim é que tenho ainda mais medo de não ter mais você.
Volto à padaria compro um maço de cigarros, uma caixa de fósforos e peço outra cerveja, bebo olhando os vinte cigarros prensados uns contra os outros e não fumo, apenas olho cada um deles: alcatrão: 4mg; nicotina: 0,4mg; monóxido de carbono: 6mg. Termino a cerveja e saio, os carros parados zumbem feito abelhas, olho a minha volta a procura de um orelhão, mas desisto de te ligar, caminho até um banco do outro lado da rua, sento, olho o céu, os anjos começam a cair, descem bem lentamente: como em uma cena de filme mudo em câmera lenta cada um deles me acena enquanto cai, fecho os olhos e fico sentindo o cheiro doce de cada anjo, começa a ventar, uma brisa leve, suave, macia como suas mãos quando me acaricia a pele, enfio a mão no bolso a cata da caixa de fósforos e ponho um cigarro na boca, fico assim por um instante: o cigarro na boca e o palito na mão apagado, um anjo chega ao chão e corre em minha direção, pára ao meu lado e sussurra seu nome em meu ouvido, então risco o fósforo acendo um cigarro e fecho os olhos pensando num poema do Pessoa:
Quando tornar a vir a Primavera
Talvez já não me encontre no mundo.
(...)
Há outros dias suaves.
Nada torna, nada se repete, porque tudo é real.

Carlos Henrique dos Santos.
Setembro de 2006.

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