quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Quase romance

Para Nãnaira Ferreira

Acender o cigarro e tragar, tragar forte e ir sentindo a fumaça encher pouco a pouco o pulmão, respirar fundo e em seguida soltar pela boca ou nariz, sentindo agora como a mesma fumaça se põe a sair do pulmão. Abre e fecha. Enche e esvazia. Movimento constante que dura apenas os poucos minutos que gastamos no ato de fumar.
Tenho uma sensação semelhante quando amo: primeiro encho de esperanças e alegrias meus sentimentos _ é a plenitude do sentir_ depois, num movimento de expelir, vou liberando espaços para o medo, a dúvida, o receio, encho e esvazio de significações amorosas todo meu eu. A mulher-fumaça dos meus desejos passeia por dentro de mim como a fumaça-fumaça do cigarro dança movida pelo silêncio do ato de tragar e soltar. Mas diferentemente da fumaça que apenas entra e sai a mulher fica, e por ficar é que o vício do amor é infinitamente mais prejudicial e doloroso que o de fumar, e para este não há ministério da saúde que dê jeito.
Faz dois meses. Na verdade já fez, foi ontem. Enquanto caminhava a esmo guiado por duas pernas trôpegas de desejo e melancolia sentindo a garoa que de leve ia molhando meu corpo lembrei do dia em que você partiu. Sua blusa azul manchada de molho de tomate na altura do umbigo te deixando com aquele jeito de menina descuidada está até hoje junto das minhas roupas no armário (tentativa inválida de invalidar sua partida, toda noite antes de dormir, quando retiro do guarda roupa travesseiro e cobertas, tenho a leve e vazia sensação de que no meio da noite acordarei com sua voz murmurando algo ininteligível que na manhã seguinte tentarei em vão te fazer lembrar). Depois de sua ida sentei no chão da cozinha encostado no fogão e fiquei buscando coragem de enfiar no forno a cabeça e deixar que o gás tirasse o pouco que ainda restava de vida em mim. Parecia minha vó catando feijão nas manhãs de sábado que passávamos juntos enquanto minha mãe saía para trabalhar: sentada no chão ela catava os feijões encostada ao fogão (como eu no dia da sua partida) e me ensinava a ser homem dizendo que não devia mais ficar chorando toda vez que minha mãe ia pro trabalho, que tudo que ela (minha mãe) fazia era pensando em mim, pro meu bem. Mas eu pensava que se fosse mesmo pro meu bem porque ela não ficava comigo, já que durante toda semana era a mesma coisa: ela fora de casa trabalhando, pro meu bem.
Pensei o mesmo ontem: antes de partir você disse que o fazia pelo nosso bem, mais precisamente pelo meu bem. Depois que você saiu acendi um cigarro e pensei em como era triste saber que você poderia nunca mais voltar (como até hoje não o fez), assim como a fumaça que saía do cigarro e ia lentamente se perdendo no ar, até sumir, não ser mais nada a não ser uma simples lembrança, um cheiro de passado-fumaça que fica no lugar onde se fuma e nas minhas narinas sujas de mais um dia de vida movido por desejos incompletos e sonhos nebulosos. Antes que acabasse o cigarro acendi outro, tinha a sensação falsa de que no máximo três cigarros poderiam preencher seu movimento de ida e volta, e que em instantes ouviria sua mão batendo de leve na porta feito a criança que chega da rua após ter cometido uma travessura e sabe que será repreendida e para amenizar a bronca que levará abaixa a cabeça e fala com uma voz pra dentro que errou, assim te imaginava chegando após no máximo o terceiro cigarro.
Mais de trinta maços já se passaram e nem o som da sua voz pelo telefone ouvi. O vazio que você me deixou é maior do que o que pode ser suprido pelo cigarro. Chorar não consigo, tento toda noite quando deito para dormir e fico feito uma bola rolando de um pra outro lado, como a bola que os meninos da rua jogam sem muita convicção e que baila fora de ritmo ao som de pés descalços se chocando contra o chão. Poucos são os momentos em que me sinto bem, um deles se concretiza quando me ponho a lembrar dos bons momentos que passamos juntos. É no vazio do passado, no espaço de tempo entre o que fui e sou que ainda tenho a capacidade de me encontrar: imagem disforme no espelho partido da lembrança.
Uma garrafa de cerveja na mão, um copo na outra, o cigarro aceso na boca enchendo e esvaziando meu pulmão, e você ali, parada, linda, morena brejeira, cabelos revoltos, com vida, aura a te envolver afastando-te do mundo, das pessoas, e deixando-te mais próxima de mim, mesmo sem te conhecer ainda soube ali que seria minha, mesmo em sonho, em desejo, em palavras. E foi. Foi completamente: de corpo, alma, cabelos, boca, palavras, silêncios, sussurros, sorrisos, pernas, ventre, medos, olhares, quereres, idéias, assim inteira, significados que faltavam no meu dicionário de vida e sentimentos.
Você caminha em minha direção, sorriso, você aproxima seu rosto do meu e me beija (beijo), você pergunta como foi meu dia, você me olha de um jeito que faz cair por terra todos os meus medos, você faz sua mão deslizar lentamente por meu rosto, você me beija novamente (beijo), você ouve em silêncio eu dizer que teadoro (teadoro), você deita pra dormir e pensa em como é possível tudo isso estar acontecendo com nós dois, você fecha os olhos (olhos) e lembra das horas que passa junto de mim, dos silêncios que se preenchem de vida e significados, dos olhares que se refletem no espelho da paixão, dos sorrisos que se abrem e fecham feito uma porta que abre e fecha com o vento que vem da rua deixando aparecer nos instantes em que está aberta uma nesga de felicidade tão límpida e azul feito a água de uma praia deserta que você ainda não visitou mas que se imagina lá, comigo, deitada nua na areia sob a luz amarela do sol enquanto estás de olho fechado (olho), você sussurra baixinho meu nome (nome) no silêncio macio da noite como forma de me fazer vivo ali, e nesse exato instante em que o som circula no ar entre sua boca e seu ouvido (boca) (ouvido) você sente uma lágrima quente e saborosa a deslizar como desliza por minha face sua mão enquanto me acaricias (lágrima), você toca seu centro úmido de prazer e desejo e lembra de como és quando sou eu quem te toca lentamente (toque), você balança na cama de um para outro lado como uma criança a balançar-se com força e ânsia num balanço de parque ou praça (balanço) sentindo o leve toque da sua mão a desvendar os caminhos obscuros e saborosos do prazer que emana desse simples toque (toque) que é seu mas que você (você) queria fosse meu (meu), então você força ainda mais o corpo para que o balanço possa tomar mais impulso (balanço) e consegue chegar até o telefone que está na outra ponta da cama, você segura agora o telefone com uma das mãos e seu desejo/prazer com a outra, você digita algumas letras que a tecnologia farão chegar a mim dentro de alguns minutos (tempo), os mesmos que você levará para chegar ao ápice do seu desejo-gozo-prazer (desejo-gozo-prazer) que eu também sentirei ao ler escrito em letras grandes: (TEADORO, SAUDADES DA SUA BOCA, DA SUA MÃO, DO SEU OLHAR, SAUDADES INTEIRAS DE VOCÊ, SAUDADES, E ALGUNS BEIJOS, BEIJOS, BEIJOS, DA SUA), sinto como se os beijos que você me manda invadissem a casa através da janela da sala que deixo aberta enquanto fumo (beijo invisível mas sentido), você sente uma languidez a percorrer vagarosamente seu corpo (pés-cabeça), você passeia sozinha pelo entresono que se abre a sua frente, você sente um quase imperceptível toque em suas costas, você abre por uma fração de segundos os olhos (olhos) e os fecha novamente (olhos), então você dorme e pensa que bom tudo isso não ser apenas um sonho e eu ser real, um ser de carne-osso-sentimentos (eu), você abre um sorriso sonolento e enfim mergulha no escuro macio e silencioso mar do sono, você me tem todo dentro de você, você (eu).
Acendo um cigarro e sentado à janela vou fitando o céu, cai uma leve garoa, faz frio, meu corpo dói por estar a tanto tempo na mesma posição, sem forças mal consigo me mexer, sinto um torpor a me envolver feito as nuvens cinzas que envolvem o céu. Na lembrança o que trago são seus beijos, o doce e macio som da sua voz a dizer que um dia a morte chegaria, lembro de um poema que um dia li e que dizia ser a morte a única saída possível para o escuro e sujo túnel chamado vida. É para lá que me dirijo, agora sei meu destino. A morte. A morte. A morte. Vou me matar para o desejo de você que invade toda manhã as janelas do meu corpo. Chega! Basta! Quero gritar mas a voz não sai, está presa como você a mim, presa em algum lugar que sou incapaz de chegar mas que sei se situa dentro de mim. Tiro bem lentamente a roupa pensando que dessa forma poderei ser capaz de arrancar de mim cada pedaço de você que ainda sobrevive no meu corpo, em cada peça de roupa que displicentemente deixo cair ao chão vejo uma parte de você: junto a camisa de botão de duas cores ouço sua voz dizendo baixinho que me ama, com a bermuda sinto deslizar sua mão, como desliza por meu corpo tocando-me e excitando-me, a cueca sai de mim acompanhada pelo doce e macio cheiro do seu sexo (quando fazia minha língua percorrer em movimentos desordenados seu desejo o gosto que ficava em mim é o mesmo que escorre agora junto de mais um pedaço seu que tento em vão jogar fora), as meias são acompanhadas pelo silêncio do seu olhar que penetra o meu fazendo-me acreditar que sim, a felicidade existe mesmo que dure apenas alguns fragmentos na escala do tempo. Assim, nu de você, olho meu corpo sem cor no espelho e o que vejo são as marcas da saudade.
O cigarro apagado na mão me faz lembrar do movimento do amor, entre encher e esvaziar o pulmão com a fumaça sobra um pedaço de tempo, é nele que procuro me refugiar das dores e tentar outra vez encontrar um caminho. Você se foi para não mais voltar, sei disso, como sei que o cigarro logo logo me matará, mas entre esperar erroneamente por sua volta e pela minha morte é que reside um último esforço de vida: fôlego que se dilui lentamente feito o pó preto do café sendo tocado pela água fervendo, com isso o que sobra é o cheiro, aroma de dor, aroma, amor(a), amor(a). Acendo o cigarro. Silêncio. Lá fora chove, talvez seja hora de sair, me plantar no portão e ser regado pela água da chuva até que você venha, que traga escondido por sob a blusa semi-encharcada mais um poema feito para mim (como fazia para consumir o tempo de viagem e saudades que o ônibus te oferecia até chegares em casa de mais um dia de trabalho), enquanto isso não acontece vou desenhando no macio silêncio de mais uma tarde chuvosa que você me ama, me ama tanto que nunca mais voltou pra mim: fumaça se perdendo no ar, azul, depois nada, nada, nada.

Carlos Henrique dos Santos.
Segundo semestre de 2007.

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