quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Todas as mortes são bestas, mesmo as literárias

Ao meu pai, em memória.

Não tenho medo da morte, talvez por isso ainda esteja vivo, talvez, não tenho certeza.
Durante um período da minha vida, entre os vinte e trinta anos, acreditava que todos os dias seriam os últimos, mas quando completei trinta passei a ver a vida e a morte como uma espécie de estado de torpor, assemelhando-se ao entreato dormir-sonhar, como se um estivesse preso ao outro, num laço de ligação-continuidade, então descobri que poderia ser feliz, mesmo com a iminência da morte a me espreitar dia e noite.
Agora já com oitenta anos vou vivendo cada dia não como o último, mas sim o primeiro, numa eterna cadência que se constrói num ritmo melódico, quase um samba, ou mesmo um blues.
No meu trigésimo aniversário fui à padaria da esquina tomar meu café, em seguida comprei um maço de cigarros_ não fumava até então_ tomei três cervejas e fui pra casa escrever. Estava há dois meses aposentado, pagara uma quantia até certo ponto modesta para passar todo o restante da minha vida sem trabalhar utilizando a desculpa de que possuía certos distúrbios mentais que me impossibilitavam de dar aulas, me coloquei assim a escrever, única atividade, além do sexo, que me dá realmente prazer. Depois descobri que beber e fumar também eram mais duas obras-primas da vida que o homem inventara. Desde esse dia essa rotina se instaurou em minha vida, acordo, tomo um bom banho sentindo o carinho da água fria a passear por todo meu corpo, visto uma bermuda e uma camisa, mesmo no inverno, calço minhas sandálias de dedo e saio com destino à padaria, lá tomo meu café, compro meu cigarro e bebo minhas três cervejas. Há dias em que bebo seis, ou mesmo oito. Quando acontece de ser assim chego em casa com uma ânsia ainda maior de sexo. Como nem sempre estou me relacionando com uma mulher que conviva dia a dia comigo utilizo a masturbação como um refúgio para dar vazão ao meu prazer acumulado.
Minha infância não merece ser citada aqui, de nada me serviu para o decorrer da minha existência, considero que nasci para valer aos trinta anos, antes disso vejo-me como alguém que apenas andava pelo mundo, não só sem rumo, mas também sem prumo ou algo que o valha.
Quando me perguntam, vez ou outra, como é chegar aos oitenta digo que não sei, para mim tenho cinqüenta anos e falo a verdade nessas horas. Meu nascimento se deu na padaria, num já longínquo treze de setembro, como parteiros um café forte e quente, um maço de cigarros filtro amarelo e três cervejas bem geladas, meu cordão umbilical se cortou no banheiro de casa com Milena tornando meus castos pensamentos mais excitantes.
Amores tive aos montes, uns mais duradouros, outros menos: apenas surtos de paixão. Assim como aquela vontade louca de mergulhar num mar de águas claras num quente dia de verão eu me entregava a algumas paixões por puro impulso e desejo/necessidade de sentir a vida pulsando dentro de mim. Meu coração é como uma caixinha de música movida pela melodia da paixão, toda vez que o abro, ou tento, um leve som de encantamento e desejo se faz ouvir em meus sonhos, então escrevo.
Minha escrita é uma continuidade dos meus amores, assim como vivo para escrever amo para viver, se não amasse não escreveria, penso.
Minhas caminhadas de ida e volta à padaria são como folhas ou a tela em branco se abrindo para mim enquanto espaços de libertação, boa parte dos livros que escrevi tiveram suas construções estruturadas neste percurso, que não foi o mesmo em todo esse tempo. Desde meu nascimento aos trinta anos morei em sete lugares diferentes, dessa forma são sete os caminhos da minha escrita. Mas em todos eles o início e o fim sempre foram ou tentaram ser o mesmo. Casa-caminho-padaria-caminho-casa são as bases de sustentação da minha produção literária.
Dos meus amores poucos realmente merecem ser citados aqui, digo isso porque esse texto não se pretende um resumo de minha vida, muito menos um testamento literário, espero viver ainda alguns anos, e dessa forma tudo o que faço aqui é catar na memória reminiscências que tenham contribuído de maneira válida para minha vida em todos esses anos. Meu texto é um caminho que uso para trilhar rumos que me façam enxergar melhor os erros e acertos que por ventura tenha cometido nesse período, algumas vezes é ele o único trajeto possível.
A verdade da escrita é aquela que nós escritores queremos que seja, talvez por isso não vá deixar aqui rastros que possam ressuscitar em minhas lembranças sensações que outrora me trouxeram tristezas, aos amores passados quero deixar apenas toques de carinho, palavras de ternura, mas não são todos que merecem isso, então o que faço é criar a mulher perfeita que não tive, Milena: meus desejos e receios, minha ânsia de amar e ser amado sem medo de olhar o futuro e encarar a incompleta certeza que é o viver, Milena: o beijo mais completo, o sexo mais puro, mais gostoso, aquele no qual gozei minha eterna condição de amante desarmado, Milena: a boca macia, de traços finos e gosto de céu azul, Milena: a que lia pra mim contos do Cortázar à noite, amante de Ana Cristina César e poeta nas horas de insônia, Milena: a menina que se dizia mulher e me amava sem medo de sofrer, Milena: a que me viu chorar tardes e noites com medo de escrever coisas que pudessem despertar em mim o arrependimento, como se a escrita não fosse um eterno arrepender-se, daí a necessidade de se produzir mais e mais e mais, Milena: a dos cabelos pretos, ruivos, loiros, a do sexo molhado, dos beijos secos e duradouros, a da bunda arrebitada que gostava de me ver lendo poesias nu, Milena: a que me beijava como se quisesse levar consigo todo meu ar, Milena: a doce menina que um dia quis conhecer para lhe dedicar meus versos de amor, Milena: àquela para quem choro até hoje nas noites de solidão regadas a cervejas e doses generosas de conhaque, Milena, Milena, Milena.
Minha escrita e meus amores possuem fortes laços que os unem, talvez eles não saibam, por precaução então evito falar sobre isso, sigamos em frente.
Muitas vezes eu chegava em casa retornando da padaria, sentava, olhava a folha em branco, segurava a caneta e assim ficava por minutos seguidos, depois levantava, ia mijar, voltava e repetia o mesmo ritual, duas horas depois já tendo ido quatro vezes ao banheiro e não tendo escrito nada eu levantava e caminhava novamente até a padaria, tomava então seis, sete cervejas e fumava o maço que normalmente durava um dia inteiro, comprava outro e retornava para casa, ia direto tomar um banho, depois catava algo para comer na cozinha, em geral tinha ainda que preparar tudo_ a não ser nos períodos em que vivia com alguma mulher, empregadas nunca tive e o fato de ter uma, digamos, namorada, me motivava a ir para cozinha preparar almoços e jantares que servissem para tornar ainda mais saborosa nossa relação_ (sei que a metáfora da refeição vir a tornar uma relação mais saborosa é um tanto batida, gasta, mas nem por isso menos bela e objetiva em suas intenções)_. Havia dias em que chegava em casa e em duas horas tinha sobre minha mesa de dez a vinte folhas riscadas frente e verso, nesses dias costumava comer fora, feliz com meu alto índice de aproveitamento do tempo para minha escrita, após almoçar ia andar a toa pelo centro da cidade, ao fim da tarde sentava num bar qualquer e me deixava embebedar sentindo a noite baixando sobre mim feito um manto que viesse encobrir mais um dia que se perdia no tempo, ali, bem a olhos vistos.
Por mais que não queira volto a falar de Milena.
O fato de criar aqui uma mulher que se proponha trazer em seu cerne todas as outras, ou mais, carregar tudo aquilo que procurei por todos esses anos em todas elas inutilmente não quer dizer que Milena não tenha existido, existiu sim uma Milena em minha vida, mas assim como a Milena de Kafka, aquela para quem o escritor mandou diversas cartas e por quem se apaixonou perdidamente, minha Milena tem um quê de falsa, algo que habita nela e que me leva a duvidar da sua real existência. Na leitura das cartas do escritor tcheco várias vezes me deparei com a dúvida se essa jovem existira mesmo ou se não fora ela apenas um subterfúgio usado por Kafka para preencher sua carência, seu vazio fruto dos dissabores amorosos de sua vida_ para os que não sabem Kafka noivou três vezes, sendo duas delas da mesma mulher e não casou-se nunca, tendo alimentado por Milena, moça bem mais jovem que ele, uma doce e amarga paixão, impossível, talvez por isso ainda mais doce_ enfim, assim como a Milena do escritor de Praga a minha me fez e ainda faz duvidar de sua existência; real ou não, minha Milena foi mais do que um sonho, durou mais do que apenas o tempo que eu sempre considerei suficiente e válido ao me relacionar_ sete anos_ me pegou digamos que desprevenido, foi o que se costuma chamar de uma paixão arrebatadora, mais jovem que eu trinta anos_ na verdade sempre a considerei da minha idade, nos conhecemos quando eu tinha, pela data de nascimento atribuída a mim por meus documentos, cinqüenta anos, mas, para os que têm acompanhado essa minha narrativa, sabem que nasci ao completar trinta anos, dessa forma, Milena e eu tínhamos a mesma idade quando nos encontramos naquela manhã de chuva na padaria, eu tomando minha cerveja, ela a dela. Nunca imaginei que pudesse encontrar uma jovem tão bela as sete da manhã bebendo cerveja num balcão de padaria, nunca imaginei também que essa jovem pudesse me olhar e me reconhecer enquanto escritor, que essa jovem tivesse lido todos os meus livros e fosse, o que se costuma chamar, minha fã, também não imaginara até então que ela fosse pedir para beber comigo, que ficaríamos ali duas horas, que sairíamos bêbados nos escorando um no outro e iríamos para minha casa, que juntos tomaríamos banho e treparíamos no chão da sala ao som de Los Hermanos (“senta aqui, que hoje eu quero te falar, não tem mistério não, é só teu coração que não te deixa amar...”), que passaríamos a tarde toda lendo poemas um para o outro, que sairíamos para jantar e voltaríamos novamente bêbados para casa, agora a sua, que tomaríamos outra vez banho juntos e depois treparíamos sobre a mesa da cozinha, sem música, sem falar nada, apenas ouvindo o som do vento lá fora, o mesmo som que eu ouviria vinte anos depois no enterro de Milena. Por tudo isso, pela forma como se deu, pelo emaranhado de angústias pelo qual me embrenhei no que costumo chamar de meu período pós - Milena é que ainda tenho dúvidas se tudo aconteceu mesmo, se Milena não foi apenas um surto esquizofrênico meu, ou ainda uma simples criação literária frustrada que passou a conviver comigo, Milena: aquela que tanto amor me deu, por quem tanto chorei, que me motivou nas muitas vezes em que pensei desistir da escrita, que foi minha inspiração, meu oitavo caminho literário, aquela que arrumou e re-arrumou toda minha vida, que virou de ponta cabeça minha realidade e minha ficção, como pode Milena, você ser apenas essas seis letras M-I-L-E-N-A que ora escrevo e que para quem me lê não passa de uma imagem?
Não vou falar porque considero os sete anos meu período ideal de relação e também não entrarei em detalhes sobre o fato de Milena ter sido uma inspiração para mim, já que penso a escrita como um exercício, algo que se constrói dia a dia, na vivência do escritor com suas criaturas, com as palavras que o cercam e envolvem, com seus medos, desejos, frustrações, sonhos etc. Como não tenho a total certeza se Milena existiu mesmo ou não posso assim dizer que ela foi mais do que uma inspiração, ela foi uma criação minha, apenas uma personagem, mais nada.
Depois de Milena minhas relações perderam um pouco da sua cor habitual, passei a ser um homem mais centrado no meu trabalho, às mulheres releguei meus momentos de prazer puro, sem compromissos ou ligações mais fortes. Uns chamam isso de safadeza, eu penso que seja apenas uma maneira de viver, nada mais. Se não quero estabelecer laços fortes com ninguém ajo com extrema justiça ao buscar apenas sexo com aquelas que sei estão dispostas a oferecer-me isso. Por outro lado minha escrita ganhou em alguns aspectos e perdeu consideravelmente em outros, como tenho por hábito me ligar muito ao que produzo e ainda me ligar mais fortemente às mulheres mesmo por um tempo curto, a opção de não levar adiante vínculos amorosos fez com que minha produção literária passasse por mudanças, boas ou más não compete a mim julgar, seria narcisismo demais, deixo aos críticos essa tarefa, já que eles não produzem nada de útil mesmo, então que se virem em ler e re-ler meus textos à cata de algo que os faça pensar e em seguida produzir suas apreciações fúteis e banais como compete aos melhores críticos.

“(...)sentimento brandoardor de corposespelhos de nós mesmosmentes que voamabrigo de nossas caríciasnada escapanenhum detalhe está ausente.”

Lendo esse fragmento de um poema de um jovem e bom autor, fiquei pensando outra vez em Milena, dói tanto saber que a morte existe, por mais que não a tema, o fato de possuir essa consciência de fim, de falta, me causa certo desconforto, não ter medo de morrer me levou, penso, a encarar bem minha vida com suas dores e alegrias, mas no dia em que Milena morreu senti como se uma parte de mim estivesse sendo jogada no lixo, em alguma espécie de poço extremamente fundo do qual apenas com muita força eu poderia retirá-la, mas esse retirar é como escrever, apenas minha memória, minhas lembranças teriam outra vez Milena, porque concretamente, realmente, eu ficaria apenas com os sentimentos de saudade, aquela dor melancólica doendo forte no peito. Por isso escrevo, para trazer outra vez à tona momentos perdidos para sempre, e que apenas através da memória, das lembranças, ganham novamente vida, pequenos resquícios perdidos no tempo, em algum lugar distante do passado, obscuro, turvo, mas vivo, de alguma forma, por mais sepultado que esteja o passado, a lembrança sobrevive, se mantém de pé, mesmo que apenas dentro de nós, em forma de choro ou de riso, assim como Milena: essa pequena menina de lábios macios que um dia desenhei na retina do meu olhar e que agora, tempos depois, ainda está aqui viva em forma de palavras, só minha, toda minha: Milena.
Queria acabar esse texto, mas não consigo, alguma coisa ainda me prende a ele, e acabar agora, dessa forma, soaria melancólico demais, não quero deixar a sensação de que sou um homem triste, meus oitenta anos me fizeram aprender, por bem e por mal, que na vida não adianta ficar chorando o leite derramado, que as saídas somos nós que construímos com nossas próprias mãos, sujando-nos no barro que nos molda: ser humano, defeituoso. Um texto que tinha por finalidade falar de mim acabou virando um elogio a Milena, uma declaração de amor à mulher que me fez enxergar o mundo por um outro ângulo, muito mais próximo do real do que até então eu fora capaz de ver. Por mais que tente é-me extremamente penoso dar um ponto final, sinto como se fosse morrer ao encerrar esse texto e por mais incoerente que possa parecer, já que me vanglorio de não temer a morte, o que me dá medo é a morte do texto e não a minha, é selar com um simples ponto final esses fragmentos que fui soltando aos poucos pela tela do computador, minha morte seria simples, banal até, como todas acabam sendo, mas minha morte literária queria diferente, sem glamour, mas com algo puro, singelo. Enfim, acho que não me resta mais nada a fazer a não ser dizer fim: fim. Em seguida pôr aqui um ponto final, assim: . Depois pensar que agora só me resta viver.

Carlos Henrique dos Santos.

PS. Conto vencedor do Primeiro Concurso de Contos do Centro Acadêmico de Letras Carlos Drummond de Andrade. FFP/Uerj-2008

Um comentário:

Andressa Gomes Marins disse...

Nossa, que texto! Que perdição, que encontro. Que sensação mais envoltória e arreatadora. Experiência de quem ainda aprende, quanta coisa guardada, uma sensação de sabedoria vagabunda. Não sei exatamente como comentar. Ficou espetacularmente bom.